Até a próxima
São Paulo afasta os amigos e aproxima os inimigos
“Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo.”
Renato Russo.
São Paulo afasta os amigos e aproxima os inimigos. A frase cutuca memórias, fustiga saudades. Mas em minha opinião carrega uma injustiça, é maldosa com a personagem principal: São Paulo. Que culpa a cidade tem se muitos de nós repetimos promessas vazias?
“Precisamos marcar!” “Vamos tentar na semana que vem?” “Pô, é sério, nada de enrolar.” Mentimos para nós mesmos e, também para os amigos, que reagem com mais enganação a encontros que nunca acontecem: “Desse mês não passa, hein…” “Te mando mensagem e a gente marca.” “Não vale furar.”
Estamos ou não estamos afastando os amigos e dando chance aos inimigos?
Nos atrapalhamos, adiamos, esquecemos e a culpa é de São Paulo?
O tempo, ao contrário de nós, respeita o combinado. A semana que vinha já foi, entramos em junho, a Copa está aí e para a eleição faltam fugazes quatro meses.
A sorte é que o acaso, esse sim, bem mais folgado que o tempo, reescreve a frase. Aproxima os amigos e afasta os inimigos quando bem entende.
Comigo aprontou surpresa das boas. Em um sábado frio, eu e a namorada seguimos a caminho do Pacaembu.
Quando nossos pés tocam a calçada. Vemos sobrancelhas apertadas, lábios torcidos, braços rígidos. Faz força o homem. Sozinho, carrega da portaria do prédio até um carro estacionado um vidro grosso e pesado, é um tampo de mesa, que também aguarda encostada a hora do carreto. Um quadro é o último item da mini mudança.
A novidade é que o carregador não é um carregador, é um velho amigo, um jornalista reconhecido e respeitado. Vejam que surpresa. Aliás, duas. Porque lá dentro do carro está outra amiga inesquecível, que é casada com ele. A gente se abraça, quase festeja. Quase, porque o banco traseiro do carro não abaixa e aí a mesa não entra. Alguém buzina.
– Acho que tem um botão aí atrás do banco.
– Não, é aí na frente
– Já viu o manual?
– O manual tem tudo, só não explica como abaixa o banco.
– Pergunta ao Google.
– Perguntei.
– Então?
É como se o acaso me presenteasse com alguns minutos a mais para ouvir e observar meus amigos.
O banco abaixa finalmente. Vai tudo lá para dentro, fechamos o porta-malas. A gente se despede e no vidro traseiro do carro, tal qual uma tela, se projetam imagens de nossa história, de tantos momentos que passamos juntos em outra São Paulo, em outro Brasil.
Paulo e Beta, hoje com 75 e 60, são meus amigos desde os anos 1990.
Vi o casal ter filhos, comprar apartamento, planejar viagens incríveis, mudar de emprego. Assisti Beta se tornar editora disputada e Paulo brilhar por onde passou.
Em um fim de festa, ele me sussurrou “Conheci a Beta no aniversário da fulana, convidei ela para passar a noite lá em casa. Nunca mais dormimos separados. Nunca mais.” Paulo tinha, tem e sempre vai ter orgulho de Beta.
Outra vez foi ela quem me chamou no canto ao me ver cabisbaixo: “Cosme, pode ser com quem for, na hora da briga a tática é a seguinte: você ouve, respira fundo e conta até 10. Só então responde. O humor do outro mudou e o seu também porque 10 segundos mudam o mundo.” De 10 em 10, já contei milhões de segundos e garanto: Beta tem razão.
Paulo e Beta entraram em minha vida em meio ao pega-prá-capá de uma redação enfumaçada, barulhenta e às vezes, nas chuvas de verão, alagada. Ela, muito jovem, começava. Ele, mais experiente, comandava um jornal importante. Nos víamos todo dia mas nos encontrávamos mesmo aos fins de semana, em uma casa escondida no meio do mato.
A gente ria, cozinhava; também tratava de assuntos sérios, como as filhas que chegavam.
Não esqueço de um domingo do século passado quando Paulo trazia embaixo do braço o LP novo de Alceu Valença. “Vocês precisam ouvir essa música.” Precisávamos mesmo e escutamos até o sol ir embora Alceu cantar seu amor pela “moça bonita de Boa Viagem.”
La Belle de Jour é sucesso até hoje e Alceu canta como se fosse a primeira vez. É a mesma jovialidade de Beta e Paulo. Os dois sempre perseguiram o novo. Bandas que estreavam, escritores que surgiam, filmes que iam entrar em cartaz.
Naquele encontro surpresa, queria falar de tudo isso e fazer um monte de perguntas, não deu tempo. Lembro da despedida apressada. “A gente se vê, né?” ”Isso, vamos marcar.”
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




