Ruínas
Quem pode salvar São Paulo do “arrasa-quarteirão” imposto pela ganância das construtoras?
Era uma vez uma vila de casas em Pinheiros. Depois do barulho torturante, depois da eterna nuvem de poeira, depois da demora pra entrar na garagem porque no meio do caminho havia uma fila de betoneiras, caçambas e caminhões, os moradores decidiram: vão se mudar.
Vão embora porque reclamaram inutilmente durante anos. Vários imóveis vizinhos foram derrubados e as construtoras (ou seriam destruidoras?) seguem a infernizar a rua com obras intermináveis.
A Vila, em breve vazia, também será destruída e substituída por um prédio altíssimo, ou vários. A paineira do início do século será arrancada, as goiabeiras decepadas; as roseiras, essas já secaram. Quem me conta a história, com os olhos molhados, de saudade e de raiva, é Firmino, 60 anos vivendo na casa 4 da vila.
Era uma vez o prato feito e farto que Joelson comia a 25 reais no bairro de Santa Cecília. Ao lado, tinha depilação e manicure; e na porta vizinha, banho e tosa pra Hulk, Quindim e outros peludos. Na sobreloja, tatuagem e piercing. Em dois dias, o restaurante, o salão da Irene, o pet shop da Sônia e o estúdio do Mike foram pro chão. Quatro endereços queridos dilacerados e soterrados à marretadas e traulitadas de escavadeira.
Perdemos vizinhos, serviços úteis, bem-estar. Recebemos lama, poluição, calçada em frangalhos.
O abuso já passa de 3 anos. No lugar das construções antigas, subiram duas torres de 25 andares. Quando prontas, terão centenas de apartamentos, os tais estúdios.
O que irá acontecer com o trânsito? E a rede elétrica, as ligações de internet, de água e esgoto, será que toda essa infraestrutura foi preparada para a sobrecarga? Acredito que o ruim vai piorar.
Era uma vez uma rádio na Vila Buarque. Uma Rádio com R maiúsculo. Com auditório, comunicadores inesquecíveis, orquestra, fila de artistas para se apresentar.
A rádio mudou de endereço e o prédio antigo (que bem podia ser um museu do Rádio) virou entulho. Depois de alguns anos, um edifício pálido ficou pronto. Mais um.
Era uma vez um cinema na rua Augusta. Os filmes eram excelentes e as salas bastante confortáveis. Havia também cursos, palestras e sessões especiais para professores. Nos fundos, o café Fellini. As pessoas se encontravam, conversavam, comentavam os filmes. Zélia, a bilheteira, também assistia e, quando perguntada, indicava as melhores opções.
Na quinta-feira passada as portas não abriram. O cinema e os imóveis vizinhos foram comprados por uma construtora.
Quando as obras dos novos prédios terminarem o cinema será devolvido à cidade e o café também, promete a construtora. Pode ser, mas pode não ser. Certo mesmo é que a cidade ficará alguns anos sem duas importantes salas de cinema. Nos tiraram lazer e cultura. Junto, sumiram os empregos.
Alguém pode dizer que São Paulo é assim mesmo. Eu, por exemplo, moro em um prédio. Provavelmente, estou em cima das ruínas de uma casa antiga ou uma loja. De certa forma, me beneficiei do que agora critico. Por isso é bom esclarecer: não se trata de proibir as construções em uma cidade que nunca parou de se expandir. A palavra-chave é limite.
Será que São Paulo precisa mesmo de tantos prédios e todos ao mesmo tempo? Por que a deselegância de não respeitar a Lei do Silêncio? Por que não manter a sujeira só do lado de lá do tapume? Por que as obras não têm prazo para terminar? São muitas perguntas sem resposta.
Inerte, a prefeitura assiste à desfiguração da cidade. Mas não só ela. Onde estão a justiça e os vereadores que elegemos e pagamos? Também fico curioso para saber o que pensam arquitetos, engenheiros, urbanistas. Será que todos desistiram da cidade? E nós, os moradores, continuaremos anestesiados até quando?
São Paulo, de tantos prédios lindos, se envergonha da nova safra. São edifícios feios, tristes, altos demais para terrenos minúsculos. São prédios sem recuo, sem jardins, sem personalidade.
Afinal, quem vai salvar São Paulo?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




