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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Resistência

“Eles gostam de tudo que é velho, menos dos velhos”, protesta um veterano tagarela

Resistência (Foto: Luis Cosme Pinto)
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Cabelos de algodão, pele enrugada, articulações emperradas pelo reumatismo. Naqueles dois corpos encurvados o tempo nos alerta que não está para brincadeira. O primeiro homem chega com a ajuda do andador, o segundo apoiado na bengala. A mobilidade desafiada por obstáculos que brotam como capim, prontos a passar uma rasteira no primeiro distraído.

Ofegantes, os dois idosos enfim se encontram. Sentam no mesmo banco, do mesmo parque, sob a mesma figueira, que na manhã nublada não dá sombra a ninguém.

O mais falante, com corpo de 85 e fôlego de 90, puxa conversa.

– Virou moda gostar de coisa velha. Casa velha, música velha, filme velho, carro velho, roupa velha.

O tímido, cara de 86 e voz de 99, retruca.

– Em que isso te incomoda?

– Me incomoda que eles gostam de tudo que é velho, menos dos velhos.

– Como assim?

– Os velhos, assim que nem a gente, ora. Essas pessoas da classe média alta, de 40, 50, que podiam ser nossos filhos, nem olham pra nós. Uma gente empertigada, sabe?

– Não. Não sei. Nem sei o que é empertigada.

– Empertigada é vaidosa, meio arrogante.

– Metida a besta, com o rei na barriga?

– Isso. Gente que gasta os tubos no antiquário para comprar uma peça só porque disseram que é chique.

– Mas você tá rabugento, hein?

– Tenho razão pra isso. Eles gastam com as coisas e economizam com a gente. Minha filha quer porque quer que eu venda o apartamento e me mude para uma Casa de Repouso. Eu não quero repousar, eu quero é viver.

O diálogo, que alterei um pouco sem mexer na ideia central, faz parte do filme argentino “Parque Lezama”.

Assim como ler uma história instigante nos anima a abrir outros livros, ver um bom filme nos provoca a experimentar mais uma sessão. Com o drama argentino ainda na memória, entro em um cinema para assistir ao documentário sobre João Artacho Jurado.

João, todos sabemos de muitos, mas Artacho Jurado, quem conhece? Mesmo assim, a sala está quase lotada.

Começa o filme. Nas entrevistas, parentes, estudiosos e arquitetos revelam a inventividade de um homem inquieto. O jovem Artacho começou desenhando letras. De A a Z, mostrou que a mesma palavra poderia ser escrita de infinitas formas. Letras finas, douradas, inclinadas, vibrantes…

A estratégia era apostar no diferente e pensar grande. Das letras aos letreiros, dos letreiros à publicidade, da publicidade aos grandes eventos da época, como feiras e exposições.

Artacho atraiu ricos empresários que se associaram a ele. Era o incentivo que o construtor desejava. Um construtor de fantasias, que com cimento e pedra ergueu sonhos. Altos sonhos.

Nos anos 1940 e 1950, período em que edifícios começavam a se multiplicar no Brasil, Artacho reagia aos concorrentes com cores e curvas. Se a arquitetura tradicional propunha ângulos retos, tons discretos e sobriedade, ele rebatia com ondulações em pastilhas amarelas, azuis e rosas. Detalhe: se a cor não era na tonalidade que ele queria, toneladas de pastilhas eram devolvidas e refeitas. Exigente, o “seu” Artacho.

Desafiar padrões era com ele. No mesmo prédio, o construtor apresentava unidades de tamanho diferentes. O apartamento de 40 metros podia ser vizinho de um de 200. Os lançamentos não eram lançamentos, eram festanças com música ao vivo, sorteios, comes e bebes. Como não brilhar?

Artacho enxergou antes e mais longe. As famílias que começavam a trocar as casas por apartamentos queriam espaços livres para os filhos. Surgiram as áreas de lazer, os solários no último andar. Foi dele o primeiro prédio com piscina.

A arquitetura tradicional reagiu, chamou o novo de brega; tratou Artacho como um construtor despreparado.

O tempo julgou. 80 anos depois, quem passeia pelo centro ou por Higienópolis reconhece pelo nome as obras do construtor.

Bretagne. Piauí. Sabará. Cinderela. Louvre. Nenhum deles é igual ao outro. Resistentes e coloridos, abrigam seus moradores e enfeitam a cidade.

Como clamou o idoso do filme argentino, é preciso lembrar sempre do que Artacho jamais esqueceu: das pessoas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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