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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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ATO-MANIFESTO pelo digital como direito, não como dever!

'A tecnologia deve servir à vida, e não o contrário', escreve a colunista Sara York

Um homem digita em um teclado de computador em frente a um código cibernético (Foto: Kacper Pempel / Reuters)

Por que um manifesto agora

Este manifesto não surge do improviso nem de um gesto retórico abstrato. Ele se inscreve em uma trajetória concreta de escrita, docência e militância política. Desde 2019, a produção de manifestos tem sido, para mim, uma prática pedagógica e um modo de intervenção pública. Foi nesse contexto que, impulsionada pela parceria política com Larissa Pelúcio nas lutas LGBTI+ e em diálogo com Rafael Leopoldo, tomou forma um primeiro rascunho do que chamamos, à época, de Manifesto Travesti. O texto amadureceu historicamente e ganhou maior precisão conceitual ao ser nomeado por Megg Rayara como Manifestações Textuais Insubmissas Travesti, termo que preserva e explicita o eixo central dessa escrita: a insubmissão como método, ética e política do conhecimento.

Se naquele momento a urgência era desestabilizar o binarismo colonialista que organizava corpos, saberes e existências, hoje o campo de disputa se amplia. Vivemos a consolidação de uma binariedade algorítmica que tenta classificar, prever e governar a vida social por meio de sistemas técnicos apresentados como neutros, mas que operam escolhas profundamente políticas - tema essa da tese que defendi em agosto de 2025. Do manifesto travesti à crítica da injustiça algorítmica, a escrita permanece como morada, cena e trincheira.

A reflexão parte de uma experiência situada. Até dezembro de 2025, vivi intensamente o cotidiano das salas de aula da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, sob o regime da pesquisa avançada financiada pela FAPESP, em diálogo com a pesquisadora Matheux Schwartzmann, investigo as formas contemporâneas de poder simbólico-tecnológico que atravessam educação, linguagem e subjetividade. Assim, minhas apostas ao que se projeta para 2026 não anteveem apenas uma atualização técnica, mas uma ofensiva organizada. São sistemas digitais que governam atenção, afeto, aprendizagem e visibilidade social. Nomear esse processo é fundamental. Vivemos sob um regime de (in)justiça algorítmica.

Nesse cenário, o manifesto se apresenta como um ato pedagógico de resistência, pensado para circular, ser debatido e apropriado coletivamente. O ambiente digital para o ano eleitoral de grandes mudanças no Brasil transformou-se em um dispositivo sistemático de captura da atenção. Plataformas operam a partir do incentivo ao chamado rage bait, convertendo indignação, sofrimento social e conflito político em engajamento mensurável e lucro. Professores e estudantes são inseridos em uma lógica de estímulo contínuo, urgência permanente e reação emocional constante. Ao mesmo tempo, proliferam relações parassociais, nas quais sujeitos buscam nas telas a intimidade e o reconhecimento que a precarização da vida material lhes nega. O efeito é (pré)visível; a educação se fragiliza enquanto o cansaço é individualizado e naturalizado.

É nesse ponto que se impõe um reenquadramento da saúde mental. O esgotamento docente e discente não mais falha individualmente, nem ausência de uma resiliência, ele produz a consequência estrutural de um modelo de dominação algorítmica. A chamada carga cognitiva atinge níveis de ruptura, e a resposta dominante tem sido a adaptação dos corpos à lógica da máquina, por meio do biohacking e da intensificação produtivista. Este manifesto rejeita essa solução. A tecnologia deve servir à vida, e não o contrário.

Ao discutir possibilidades como o chamado "código por atmosfera" ou vibe coding, não se propõe uma técnica que empobreça a linguagem ou funcione como mordaça sintática, mas ferramentas que ampliem criatividade, pensamento crítico e experiência humana. Trata-se de reafirmar um princípio básico da educação democrática…

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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