Carnaval, Disputa e a o direito à alegria em 2026
Entre mercado, política e afeto, o carnaval carioca expõe disputas sobre cultura, cidade e quem tem direito de viver a festa em sua plenitude em 2026
O Carnaval carioca de 2026 ultrapassou os desfiles, blocos e fantasias. Ele é, mais do que nunca, um campo de disputa simbólica, econômica e política sobre quem pode ocupar a cidade, produzir cultura e viver a festa em sua plenitude. Além de ser o maior espetáculo da terra!
Se durante décadas os ensaios eram vistos apenas como momentos técnicos para o show, hoje eles se tornaram verdadeiros epicentros de negociação cultural. É ali que se tensionam pertencimento e exclusão, tradição e mercado, afeto e mercadoria.
A recente transição de grandes blocos para estruturas cada vez mais “grifadas”, como no caso da falta imensa que sentimos de Preta Gil e a entrada de Ivete Sangalo, simboliza esse movimento. Não se trata de negar a importância econômica e turística dessas engrenagens, mas de reconhecer o deslocamento simbólico que produzem: o Carnaval vai, aos poucos, deixando de ser rito de vizinhança para se tornar produto de alta escala.
Nesse processo, o afeto coletivo e a militância histórica pela diversidade cedem espaço à lógica da eficiência, do patrocínio e da visibilidade algorítmica.
Que saudade de Eloina dos leopardos, primeira madrinha de bateria - uma trans!
Como lembra Helena Theodoro, o Carnaval sempre foi um território de ancestralidade e reinvenção. Quando ele se converte apenas em espetáculo, corre o risco de esvaziar sua dimensão ritual e comunitária.
Enquanto isso, longe dos holofotes principais, pulsa um outro Carnaval. Nas quadras menos turísticas, nos blocos de bairro, nas rodas improvisadas e nos ensaios abertos, a cultura popular insiste em existir.
Hermano Vianna já destacou que o samba sobrevive porque se ancora na presença, no corpo, na rua. Não há algoritmo que substitua o encontro. É nesses espaços que a população reage à inflação dos ingressos, à gentrificação das áreas centrais e à privatização simbólica da cidade. O simples ato de ocupar uma praça ou uma calçada torna-se gesto político.
Tia Surica costumava lembrar que samba sem convivência vira apenas som. Sem gente, não há cultura — há apenas consumo.
Em um Brasil atravessado pela polarização, os ensaios também funcionam como zonas temporárias de convivência. Corpos divergentes compartilham o mesmo ritmo. A música suspende, ainda que provisoriamente, as fronteiras ideológicas. Mas isso não elimina as tensões de classe, raça, gênero e território que atravessam a festa.
A pressão por um “Carnaval instagramável” tenta padronizar comportamentos, imagens e afetos. Ainda assim, a massa subverte esse roteiro por meio da improvisação, da ironia e da recusa em caber nos enquadramentos publicitários.
Nesse cenário contraditório, algumas experiências merecem ser destacadas como práticas concretas de inclusão e responsabilidade cultural. É o caso do Camarote Folia Tropical (Beni Falcone/Thiago Barreto), que há anos abre seus trabalhos com a população trans e queer, reconhecendo que diversidade não pode ser apenas discurso de marketing, mas compromisso estrutural.
Em um ambiente historicamente marcado por exclusões, essa iniciativa mostra que é possível articular visibilidade, profissionalismo e respeito às existências dissidentes. Não como concessão, mas como princípio.
Trata-se de entender que o Carnaval como um espaço de disputa por reconhecimento, dignidade e presença. Para pesquisadores como Rafael Haddock Lobo (os ensaios e bastidores d)a festa funcionam hoje como laboratórios vivos da cultura urbana. É ali que ainda se experimentam formas de sociabilidade não totalmente capturadas pelo mercado.
Entre camarotes milionários e rodas de samba improvisadas, o Rio negocia diariamente quem tem direito à alegria — e em quais condições.
Como destaca Milton Cunha, em sua obra de pesquisador, o Carnaval é espetáculo, mas também é narrativa política. Ele fala de dor, de memória, de desejo e de futuro, mesmo quando parece apenas celebração.
Em 2026, defender o Carnaval é defender o direito à cidade, à memória e à existência plena. É recusar a ideia de que cultura popular só vale quando se transforma em mercadoria global.
Em tempos de crise, algoritmos e esgotamento social, talvez sua maior potência seja essa: continuar sendo um espaço onde o Brasil se confronta, se reconhece e, apesar de tudo, insiste em sonhar coletivamente.
Pule, beba água e esteja comprometido por sua alegria-coletiva!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



