Daniel Vorcaro, o poder e seus micromecanismos
"Ler o 'Breviário' ajuda a entender como alguém como Vorcaro conseguiu atrair um grande número de personalidades da república"
Conversando com meu amigo Wanderley Almeida, hoje vice-prefeito de Campinas, pontepretano como eu, filiado ao PSB e "cria" de Jacó Bittar, lembramos do "Breviário dos Políticos", do Cardeal Mazarin, uma leitura necessária e impactante.
No livro, o autor faz uma análise sobre poder, política e relações humanas, com incomum rudeza.
Mas quem foi o Cardeal Mazarin?
Ele é um personagem interessante, apesar de pouco conhecido ou comentado.
Nascido no reino de Nápoles em 1602, no seio de uma modesta família siciliana, foi educado por jesuítas em Roma; estudou Direito canônico na Universidade de Alcalá, na Espanha. Quando voltou para Roma, prestou o serviço militar para o Papa e, em 1628, tornou-se diplomata papal aos 26 anos de idade.
Liderou missões e negociações de paz ao lado do Cardeal de Richelieu em diversas questões importantes e, aos 39 anos, foi nomeado cardeal, sem nunca ter sido ordenado padre e, pasmem, leitores, sucedeu ao Cardeal Richelieu e ainda tornou-se primeiro-ministro pela regente da França, Ana da Áustria.
Era adepto e defensor das monarquias absolutistas, sufocou revoltas e aumentou impostos impiedosamente. Morreu aos 59 anos. Apesar de nascido em uma família modesta, fez das sobrinhas duquesas e princesas.
Mazarin foi uma grande figura do seu tempo, tanto que é um dos personagens principais do romance de Alexandre Dumas, "Vingt ans après", em português: "Vinte anos depois", continuação do célebre romance "Os três mosqueteiros". No livro, ele é apresentado como um ser odiado pelos franceses.
O livro conta as aventuras de quatro bravos homens, outrora mosqueteiros, vinte anos depois de eles se despedirem, numa época difícil, de descontentamento popular, na França, em meados do século XVII.
A França divide-se em dois partidos: o do Cardeal Mazarin, que controla, em maior parte, a Rainha Ana da Áustria, e o seu filho, o Rei Luís XIV, que ainda não atingiu a maioridade; e o partido popular (La Fronde), com alguns dos mais importantes elementos da nobreza. D'Artagnan, como está a serviço dos mosqueteiros reais, é obrigado a lutar pelo partido de Mazarin.
Fato é que cheguei em casa e, ao invés de fazer o que meu médico mandou (caminhar), "cacei" na estante o meu exemplar do "Breviário" e reli a apresentação, denominada: "O Poder e seus Micromecanismos", assinada por Bolívar Lamounier. Uma leitura necessária.
Lamounier analisa o Breviário dos Políticos, destacando que a obra não trata de valores como justiça, bem comum ou moralidade, mas dos mecanismos práticos utilizados pelos indivíduos para conquistar, preservar e ampliar o poder. O texto apresenta uma visão realista e até cínica da política, aproximando Mazarin de pensadores como Maquiavel e Hobbes.
O autor explica que é necessário compreender o contexto histórico do século XVII para interpretar corretamente a obra. Na época de Mazarin, a política ainda não estava organizada pelo Estado moderno, com instituições, leis, partidos e participação cidadã. O poder era fortemente pessoal, ligado às relações de influência, alianças e disputas individuais.
Assim, os conselhos de Mazarin não devem ser vistos apenas como uma defesa da manipulação ou da maldade política, mas como uma descrição de um ambiente em que o poder dependia das relações humanas e da capacidade de compreender os outros, prever movimentos e construir apoio.
Lamounier argumenta que, embora as sociedades democráticas atuais tenham criado instituições que limitam o uso do poder pessoal, os "micromecanismos" descritos por Mazarin continuam presentes dentro das organizações. Empresas, governos, partidos e instituições ainda possuem disputas internas por influência, recursos e posições.
A principal conclusão é que o poder não existe apenas nas grandes estruturas políticas, mas também nas relações cotidianas entre indivíduos. Toda pessoa que deseja realizar algo — seja para fins positivos ou negativos — precisa lidar com alguma forma de poder, influência e articulação. O Breviário dos Políticos revela, portanto, uma dimensão permanente da vida social: a presença da política nas relações humanas.
O texto mostra que Mazarin não apenas descreveu a política de seu tempo, mas revelou como o poder nasce e se movimenta nas pequenas relações entre pessoas, algo que continua presente mesmo nas sociedades modernas; ler o "Breviário" ajuda a entender como alguém como Vorcaro conseguiu atrair um grande número de personalidades da república.
Leitura necessária para reflexão.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




