Entre avanços e ilusões: o Brasil que cresceu sem crescer
Inclusão não foi acompanhada por um salto de produtividade, de educação de qualidade ou de dinamismo econômico
Tenho certeza de que vamos ganhar as eleições este ano, que faremos, pelo menos, 31 senadores e teremos os 172 deputados federais, número mágico que nos protegerá do processamento de um processo de impeachment.
Como já escrevi aqui, as certezas são perigosas; por isso, é necessário que trabalhemos muito até outubro. O bolsonarismo precisa ser derrotado pela sociedade de forma definitiva e, apesar da grandeza do Lula, ele precisa muito de todos nós.
O texto abaixo não é um panfleto, é para consumo “interno” e, s.m.j., traz algumas questões incômodas e, creiam, não tem a pretensão de ser “a verdade”.
Vamos lá.
Há um certo conforto intelectual — e até moral — em dizer que o Brasil dos últimos 23 anos foi uma mistura de avanços, estagnações e retrocessos. A fórmula é elegante, equilibrada, quase diplomática. Mas também é, em alguma medida, uma forma de evitar o ponto central: crescemos socialmente sem construir as bases de um crescimento econômico duradouro. Ou seja, o reformismo conciliador do lulismo não foi capaz de romper com a lógica neoliberal.
Os números não mentem, ainda que possam ser interpretados com benevolência. O PIB per capita brasileiro aumentou, é verdade — mas muito menos que o de países emergentes comparáveis. Enquanto avançamos 45%, outros correram 147%. Não é uma diferença; é um abismo. E abismos não se explicam com eufemismos.
No plano social, o país fez algo relevante, e isso precisa ser dito sem rodeios. Reduziu a pobreza, ampliou a renda, incluiu milhões no mercado de consumo. Programas como o Bolsa Família e a construção de instrumentos como o Cadastro Único foram políticas públicas inteligentes, eficientes e, sobretudo, civilizatórias. O Brasil, por um período, encontrou uma fórmula própria de combate à miséria — algo raro na história das nações desiguais.
Mas há um problema incômodo: essa inclusão não foi acompanhada por um salto de produtividade, de educação de qualidade ou de dinamismo econômico. Em outras palavras, distribuímos melhor o que tínhamos — mas não conseguimos produzir mais, nem melhor.
A comparação internacional é cruel. Países que, no início dos anos 2000, estavam atrás do Brasil em indicadores sociais e econômicos hoje nos ultrapassaram com alguma folga. A China é o exemplo mais gritante: saiu de um IDH inferior para nos superar, enquanto avançava de forma consistente em produtividade, inovação e inserção global. Nós, ao contrário, nos acomodamos.
Parte da explicação está no conforto proporcionado pelo ciclo de commodities. O Brasil surfou — e bem — a onda do crescimento global puxado por demanda externa. Mas surfou sem construir prancha própria. Quando o mar baixou, restou o improviso.
E então veio a década perdida. A crise de 2014 a 2016 não foi apenas um tropeço conjuntural; foi a revelação de fragilidades acumuladas, somada ao mau-caratismo da elite nacional. Intervenções descoordenadas, contabilidade criativa, expansão de crédito direcionado sem critério e a recusa em enfrentar reformas estruturais produziram uma recessão profunda e, pior, um dano institucional relevante.
Desde então, o país vive uma espécie de reformismo tímido. Houve avanços — trabalhista, previdenciário, tributário —, mas sempre em ritmo lento, sob tensão política constante e com baixa previsibilidade. O resultado é um ambiente em que ninguém tem certeza do amanhã, e, sem previsibilidade, não há investimento consistente nem crescimento sustentável. E que fique claro: não responsabilizo os governos Lula e Dilma, mas a estrutura institucional, sempre disposta a renunciar à soberania para manter seus privilégios.
No campo social recente, há outro sinal preocupante: a fragmentação. O que antes era uma política relativamente integrada de proteção social começa a se pulverizar em múltiplos programas, muitas vezes sobrepostos. Perde-se eficiência, perde-se foco — e, no limite, perde-se estratégia.
A educação segue como o elefante na sala. Melhoramos o acesso, é verdade. Mas a qualidade continua sendo o nosso calcanhar de Aquiles. E educação ruim não é apenas um problema social; é um entrave econômico. Sem capital humano qualificado, não há salto de produtividade — e, sem produtividade, não há crescimento.
O Brasil, portanto, vive um paradoxo desconfortável: conseguiu reduzir a pobreza, mas não conseguiu enriquecer e distribuir renda na perspectiva da justiça social. Melhorou a vida de milhões, mas não mudou sua posição relativa no mundo. Fez políticas sociais eficazes, mas negligenciou as bases do desenvolvimento.
Talvez o maior erro tenha sido acreditar que a inclusão social, por si só, geraria crescimento. Não gera. Ela cria condições, abre portas, amplia o mercado interno — mas precisa ser acompanhada de reformas estruturais, investimento em educação de qualidade, segurança jurídica e estabilidade macroeconômica.
O que falta ao Brasil não é diagnóstico. Este já foi feito, refeito e reiterado por economistas, organismos internacionais e pela própria realidade. O que falta é capacidade política de enfrentar interesses, romper ciclos de improviso e construir uma estratégia de longo prazo.
Seguimos, assim, administrando o possível, celebrando o razoável e adiando o necessário.
E o tempo — ao contrário do que parece — não joga a nosso favor.
Essas são as reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



