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Pedro Benedito Maciel Neto

Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007.

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Entre avanços e ilusões: o Brasil que cresceu sem crescer

Inclusão não foi acompanhada por um salto de produtividade, de educação de qualidade ou de dinamismo econômico

Bandeira do Brasil (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Tenho certeza de que vamos ganhar as eleições este ano, que faremos, pelo menos, 31 senadores e teremos os 172 deputados federais, número mágico que nos protegerá do processamento de um processo de impeachment.

Como já escrevi aqui, as certezas são perigosas; por isso, é necessário que trabalhemos muito até outubro. O bolsonarismo precisa ser derrotado pela sociedade de forma definitiva e, apesar da grandeza do Lula, ele precisa muito de todos nós.

O texto abaixo não é um panfleto, é para consumo “interno” e, s.m.j., traz algumas questões incômodas e, creiam, não tem a pretensão de ser “a verdade”.

Vamos lá.

Há um certo conforto intelectual — e até moral — em dizer que o Brasil dos últimos 23 anos foi uma mistura de avanços, estagnações e retrocessos. A fórmula é elegante, equilibrada, quase diplomática. Mas também é, em alguma medida, uma forma de evitar o ponto central: crescemos socialmente sem construir as bases de um crescimento econômico duradouro. Ou seja, o reformismo conciliador do lulismo não foi capaz de romper com a lógica neoliberal.

Os números não mentem, ainda que possam ser interpretados com benevolência. O PIB per capita brasileiro aumentou, é verdade — mas muito menos que o de países emergentes comparáveis. Enquanto avançamos 45%, outros correram 147%. Não é uma diferença; é um abismo. E abismos não se explicam com eufemismos.

No plano social, o país fez algo relevante, e isso precisa ser dito sem rodeios. Reduziu a pobreza, ampliou a renda, incluiu milhões no mercado de consumo. Programas como o Bolsa Família e a construção de instrumentos como o Cadastro Único foram políticas públicas inteligentes, eficientes e, sobretudo, civilizatórias. O Brasil, por um período, encontrou uma fórmula própria de combate à miséria — algo raro na história das nações desiguais.

Mas há um problema incômodo: essa inclusão não foi acompanhada por um salto de produtividade, de educação de qualidade ou de dinamismo econômico. Em outras palavras, distribuímos melhor o que tínhamos — mas não conseguimos produzir mais, nem melhor.

A comparação internacional é cruel. Países que, no início dos anos 2000, estavam atrás do Brasil em indicadores sociais e econômicos hoje nos ultrapassaram com alguma folga. A China é o exemplo mais gritante: saiu de um IDH inferior para nos superar, enquanto avançava de forma consistente em produtividade, inovação e inserção global. Nós, ao contrário, nos acomodamos.

Parte da explicação está no conforto proporcionado pelo ciclo de commodities. O Brasil surfou — e bem — a onda do crescimento global puxado por demanda externa. Mas surfou sem construir prancha própria. Quando o mar baixou, restou o improviso.

E então veio a década perdida. A crise de 2014 a 2016 não foi apenas um tropeço conjuntural; foi a revelação de fragilidades acumuladas, somada ao mau-caratismo da elite nacional. Intervenções descoordenadas, contabilidade criativa, expansão de crédito direcionado sem critério e a recusa em enfrentar reformas estruturais produziram uma recessão profunda e, pior, um dano institucional relevante.

Desde então, o país vive uma espécie de reformismo tímido. Houve avanços — trabalhista, previdenciário, tributário —, mas sempre em ritmo lento, sob tensão política constante e com baixa previsibilidade. O resultado é um ambiente em que ninguém tem certeza do amanhã, e, sem previsibilidade, não há investimento consistente nem crescimento sustentável. E que fique claro: não responsabilizo os governos Lula e Dilma, mas a estrutura institucional, sempre disposta a renunciar à soberania para manter seus privilégios.

No campo social recente, há outro sinal preocupante: a fragmentação. O que antes era uma política relativamente integrada de proteção social começa a se pulverizar em múltiplos programas, muitas vezes sobrepostos. Perde-se eficiência, perde-se foco — e, no limite, perde-se estratégia.

A educação segue como o elefante na sala. Melhoramos o acesso, é verdade. Mas a qualidade continua sendo o nosso calcanhar de Aquiles. E educação ruim não é apenas um problema social; é um entrave econômico. Sem capital humano qualificado, não há salto de produtividade — e, sem produtividade, não há crescimento.

O Brasil, portanto, vive um paradoxo desconfortável: conseguiu reduzir a pobreza, mas não conseguiu enriquecer e distribuir renda na perspectiva da justiça social. Melhorou a vida de milhões, mas não mudou sua posição relativa no mundo. Fez políticas sociais eficazes, mas negligenciou as bases do desenvolvimento.

Talvez o maior erro tenha sido acreditar que a inclusão social, por si só, geraria crescimento. Não gera. Ela cria condições, abre portas, amplia o mercado interno — mas precisa ser acompanhada de reformas estruturais, investimento em educação de qualidade, segurança jurídica e estabilidade macroeconômica.

O que falta ao Brasil não é diagnóstico. Este já foi feito, refeito e reiterado por economistas, organismos internacionais e pela própria realidade. O que falta é capacidade política de enfrentar interesses, romper ciclos de improviso e construir uma estratégia de longo prazo.

Seguimos, assim, administrando o possível, celebrando o razoável e adiando o necessário.

E o tempo — ao contrário do que parece — não joga a nosso favor.

Essas são as reflexões.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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