FHC foi interditado sem resolver uma questão que se situa entre o público e o privado: o filho que não reconheceu
Certidão do filho da jornalista que trabalhava na Globo continua sem o nome do pai, apesar da imprensa noticiar, em 2009, que ele reconhecera Tomás Dutra
Durante décadas, um episódio envolvendo a vida pessoal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso permaneceu envolto em silêncio, versões contraditórias e lacunas documentais. Hoje, com sua interdição judicial por ter dignóstico de Alzheimer em estágio avançado, o caso ressurge trazendo à tona não apenas questões familiares, mas possíveis interseções delicadas entre poder político, grandes empresas de comunicação e interesses privados.
No centro da história está Tomás Dutra Schmidt, nascido em 26 de setembro de 1991, em Brasília. Oficialmente, segue registrado como filho de pai desconhecido. Uma busca no cartório onde foi lavrado seu nascimento não apresenta qualquer averbação de reconhecimento de paternidade.

Em 2009, a Folha de S.Paulo publicou que FHC teria reconhecido o filho em um cartório na Espanha — documento que, até hoje, nunca veio a público. Dois anos depois, o mesmo jornal noticiou a existência de um exame de DNA que excluiria a paternidade. Esse exame, segundo a jornalista Miriam Dutra, jamais foi apresentado.
“Tomás não é filho do porteiro, é filho do Fernando Henrique”, afirmou Miriam, em entrevista concedida em Barcelona, em 2016, expressando indignação com o que chama de “golpe do DNA”.
Quando a notícia do DNA foi publicada, Miriam acionou um advogado em São Paulo, que fez duas notificações extrajudiciais a Fernando Henrique, uma endereçada ao instituto que leva o seu nome e outra, à residência do ex-presidente, que teria sido assinada por ele mesmo como recebedor.
Miriam queria que ele entregasse cópia do DNA, mas Fernando Henrique teria ignorado os dois pedidos. Na mesma época, segundo Miriam, ele comprou um apartamento para Tomás em Barcelona, no valor de 50 mil euros. E Miriam, por não ter o apoio do filho, não quis mover ação judicial
Fui até o apartamento de Tomás, em Barcelona, toquei a campainha, mas ninguém atendeu. Posteriormente, liguei para Tomás, que atendeu e, quando eu me identifiquei, ele desligou o celular.
A trajetória de Miriam Dutra levanta outras questões. Funcionária da TV Globo, ela foi transferida para Portugal em 1993, onde permaneceu por longos períodos sem uma atividade profissional regular, segundo seu próprio relato. Mas continuou a receber salário.
“Recebi durante anos”, declarou. Ela afirma ainda ter recebido recursos da Brasif, empresa que operava no setor de free shops em aeroportos brasileiros, enquanto seu proprietário mantinha relações com figuras próximas ao governo da época.
Para Miriam, sua permanência fora do Brasil não foi casual: “Fui mantida fora para não atrapalhar um projeto político.” Algumas meses depois de sua transferência para a emissora em Lisboa, Fernando Henrique, então ministro da Fazenda e responsável pelo Plano Real, anunciou que seria candidato a presidente
A jornalista também sugeriu que a emissora teria sido beneficiada durante o governo FHC, inclusive com financiamentos públicos do BNDES — alegação que nunca foi comprovada judicialmente. Até porque Fernando Henrique nunca processou a ex-namorada ou exigiu explicações, nos tribunais.
Após conceder entrevista a uma revista espanhola revelando detalhes do caso, em 2016, na Folha de S. Paulo, e a mim (à época no DCM), Miriam passou a ser alvo de um inquérito da Polícia Federal. Posteriormente, recuou em parte das declarações.
Algumas semanas antes, uma equipe ligada à cobertura da Fórmula 1 feita pela Globo esteve em Barcelona e conversou com ela — episódio que levanta dúvida sobre a natureza desse contato, que foi seguido do recuo da jornalista.
Na época, eu estava em Barcelona com Miriam, a convite dela, para entrevistas. Ela chegou a me dar uma entrevista, que está publicada no canal do DCM, mas depois, quando a equipe da Globo já estava na cidade, não quis mais falar sobre o caso.
Quando a procurei novamente agora, 10 anos depois, Miriam declarou, sem entrar em muitos detalhes: “Tenho nojo de tudo isso”.
Tomás seguiu sua vida longe do Brasil. Estudou na American School of Barcelona, formou-se em relações internacionais nos Estados Unidos e construiu carreira em instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o FMI e o Banco Central Europeu.
Segundo Miriam, seus estudos teriam sido financiados por FHC. Apesar das tentativas de contato feitas por mim, Tomás jamais concedeu entrevistas sobre o tema.
Quando perguntei sobre Tomás, ela afirmou: "Nada sei . Há anos!Até isso o Fhc conseguiu fazer : afastar um filho da mãe".
Com a recente interdição civil de Fernando Henrique Cardoso, decisões legais sobre patrimônio e eventuais reconhecimentos tornam-se ainda mais complexas.
Se não houver documentação válida comprovando a paternidade, o caso pode nunca ser formalmente resolvido.
Para Miriam, porém, a questão ultrapassa o campo jurídico. Quando insisti na entrevista, ela responde: “Para contar o quê? Que FHC nunca reconheceu Tomás?”
Uma história encerrada. Ou não
Publicamente, Miriam Dutra afirma que o assunto está encerrado. Mas, no plano pessoal, o conflito permanece evidente.
“Sou a última exilada”, disse, relembrando uma frase que atribuiu à ex-primeira-dama Ruth Cardoso.
O caso segue marcado por ausência de provas conclusivas, versões divergentes e silêncio dos principais envolvidos. Mais do que respostas, o que permanece é um conjunto de perguntas incômodas — sobre poder, influência e os limites entre o público e o privado no Brasil.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
