Globo confirma que quer isolar Lula no PT para favorecer frente com golpistas

Globo usa um setor do PT para atacar e isolar Lula no sentido de promover a frente ampla com articuladores do golpe de 2016

Lula em ato
Lula em ato (Foto: Ricardo Stuckert)
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Por Juca Simonard

Em coluna publicada no último sábado, 18, o articulista do jornal O Globo Ascânio Seleme publicou a parte 2 de seu artigo publicado no outro final de semana em que fala para “perdoar o PT”. No novo artigo, ele confirma o que eu havia denunciado em uma polêmica com o primeiro texto: a Globo quer isolar Lula para favorecer a política da frente ampla com setores golpistas.

No artigo publicado no final de semana anterior, Seleme busca defender um “novo PT”, um PT que seria mais moderno, aberto ao diálogo e, principalmente, não fosse liderado pela ala lulista, que ele, mantendo a linha política bolsonarista do jornal, tratou de difamar com o argumento da suposta “corrupção” que Lula, Dilma e outros integrantes, como José Dirceu, teriam cometido.

Por isso, ele afirmou na ocasião: “Os que acreditam e sustentam o PT são a maioria do terço de eleitores perenes do partido, não os que foram flagrados nos dois grandes escândalos de corrupção que marcaram as gestões petistas”.

Naturalmente que alguns setores do PT, como a presidente do partido e deputada federal, Gleisi Hoffmann, a ex-presidente Dilma Rousseff e o próprio Lula, denunciaram o artigo da Globo e reforçaram a denúncia de que o órgão é um canal golpista que esteve na linha de frente do processo de ruptura política. 

A Globo sempre trabalhou como principal promotora de golpes no País, desde o golpe de 1964 até o impeachment ilegal de Dilma. Em seguida, com a prisão farsesca de Lula e a eleição fraudulenta de Jair Bolsonaro. Qualquer pessoa normal não atenderia ao chamado da Globo e, pelo contrário, denunciaria fortemente essa enganação promovida pelo jornal.

Porém, replicando, Seleme trata de atacar novamente os petistas da ala lulista. “Grande parte dos petistas, a começar pela sua presidente, deputada Gleisi Hoffmann, entende que o PT não cometeu crime algum para ser perdoado. Eles afirmam que Dilma Rousseff foi derrubada por um golpe e que Lula foi preso sem provas. Não admitem que houve desvios bilionários da Petrobras, e por segurança nem tocam no assunto, e afirmam que o mensalão foi uma invenção da direita e da mídia”, afirma com todo o cinismo do mundo.

O argumento mantêm-se na mesma linha de o artigo anterior: Lula, Gleisi, Dilma, etc. são corruptos e não querem admitir, não querem fazer autocrítica. Por isso, Seleme trata de defender o “outro PT”, “que entende que é urgente superar a etapa do ‘nós contra eles’ e que um grande entendimento entre as forças políticas democráticas não é apenas necessário, é urgente”, segundo ele.

O articulista d’O Globo denuncia que ala lulista seria uma quadrilha corrupta que busca hegemonismo. “Se o Partido dos Trabalhadores se organiza internamente através de algumas tendências políticas que lutam pelo poder na legenda, do lado de fora se consegue ver apenas dois PTs distintos. Um deles é o de Lula, o que manda, e tem entre seus expoentes Gleisi Hoffmann e José Dirceu. Estes não querem nem ouvir falar de entendimento político, de frente contra Bolsonaro”, critica o colunista.
Quer dizer, o PT de Lula, que é o maior movimento político do Brasil -  o que é um fato, sendo a favor disso ou não - não quer falar “de frente contra Bolsonaro”. Isso porque a única frente que a Globo coloca que existe é a frente com partidos e indivíduos tão salafrários e inimigos do povo quanto Bolsonaro, como o PSDB, Ciro Gomes, Marina Silva, Luciano Huck e assim por diante. Todos esses que estão juntos com Bolsonaro para aprovar medidas antipopulares no Congresso, como as “reformas” da Previdência e trabalhista, a privatização da água etc. e que inclusive já se declararam contra o “Fora Bolsonaro”, como o PDT e o PSDB. O articulista não menciona, por exemplo, que o lulismo realizou diversas frentes nos últimos anos, com diversos partidos e organizações - PCO, PCdoB, MST, CUT, etc. - para lutar contra o impeachment, a prisão de Lula e outras medidas do golpe. Ou seja, não é que os lulistas sejam contra realizar frentes, eles, na realidade, são contra a frente do “fica Bolsonaro” imposta pela burguesia - e com razão.

Cinicamente, o colunista do jornal mais golpista do Brasil - como falei, o maior promotor de golpes - argumenta que o setor lulista aposta “na ruptura como única forma de retomar o poder”. Sobre isso, não tenho nada para comentar além do fato de que o cinismo e a mentira da Globo não têm limites. Primeiro porque são eles que promovem ruptura para chegar ao poder - a História comprovou. Segundo porque estão procurando falar de um lulismo que não existe, como se Lula fosse um revolucionário ou qualquer coisa do tipo. Isso não é verdade, o PT chegou ao poder em aliança com importantes setores da burguesia e realizou um governo extremamente moderado que beneficiou capitalistas. Se os golpistas (incluindo nesse setor, naturalmente, a Globo) deram um golpe foi justamente porque não queriam engolir nem um pouco de política social promovida pelos governos petistas - que falando sinceramente foi muito aquém do que poderia ter sido.

Mas, por outro lado, o colunista tem razão ao falar que estes setores querem promover uma “ruptura”. Neste caso, porém, a ruptura é com o próprio regime golpista. Na realidade, eu nem sei se querem tanto assim. Porém, querendo ou não, a política, ao contrário do que afirma a burguesia para enganar as pessoas, não é uma luta de ideias e projetos, mas uma luta de classes que vai muito além do que as ideologias apresentam. A luta em torno de Lula, contra as condenações, em defesa de sua candidatura, coloca em xeque o projeto dos golpistas. Primeiro porque, para isso, é preciso ter intensas mobilizações, que são a escola da luta de classes, onde os trabalhadores, a juventude e os militantes aprendem a ganhar sua autonomia. Segundo porque, em decorrência dessa mobilizações, começam a surgir dentro dos trabalhadores mobilizados reivindicações próprias (independentemente do que defende ou não Lula) que vão contra a política de terra arrasada e de frente com os inimigos que os setores da burguesia querem promover, com ajuda de parcelas da esquerda.

Mobilizações contra novas condenações contra Lula ou pelo anulamento dos processos fraudados levariam às ruas, necessariamente, reivindicações pelo “Fora Bolsonaro”, contra a frente ampla, pela revogação de todas a medidas feitas após o golpe, por novas eleições, e provavelmente pela candidatura de Lula em 2022. Ou seja, a luta em torno do ex-presidente impulsiona a campanha geral contra o golpe de Estado, uma vez que Lula também é uma vítima direta dele, tendo ficado encarcerado por mais de um ano.

Em 2018, a luta pela candidatura de Lula, contra as decisões da ditadura dos tribunais (que eram apoiados por toda a corja golpista: militares, partidos de direita, monopólio da imprensa etc.), se fosse vitoriosa, levaria a uma crise gigantesca do regime golpista, uma vez que a fraude para colocar Bolsonaro no poder seria dificultada, sendo Lula o principal empecilho para a subida ilegítima do fascista. Sem falar que os gigantesco comícios em torno da candidatura teriam mudado totalmente a correlação de forças favorável ao bolsonarismo do momento.

Por isso, a direita tem tanta preocupação em acabar com a “hegemonia” do lulismo. Para isso, precisam estimular setores burgueses e pequeno-burgueses dentro do PT, que não têm tanta ligação com a luta popular e militante, ao mesmo tempo em que estimulam outra lideranças com apoio da direita, como o caso de Ciro Gomes e Guilherme Boulos (escolhido pela imprensa recentemente como candidato da esquerda para as eleições paulistas de 2020).

Seleme ainda indica que os lulistas “entendem que um alinhamento com as demais forças do campo democrático pode resultar na eleição de um não petista”. Realmente, é isso que está em questão, mas o problema geral não é se será um petista ou não no poder, mas se será alguém que represente uma ruptura com o golpe ou não. Em outros artigos denunciei que a frente ampla com setores da direita geralmente tem como objetivo apenas favorecer o setor da direita, dando, com aval da esquerda, um capital político para grupos falidos, enquanto a esquerda abre mão de seu programa e de suas reivindicações em nome da “unidade”.

Por exemplo, com apoio de setores do Psol e do PT, partidos totalmente golpistas e falidos, como o PSDB (que está - ou estava - em processo de desintegração) e o PDT estão ressurgindo das cinzas. Sem falar nos FHC e Marina Silva da vida.

Lula, entretanto, não se coloca totalmente contra a frente ampla, mas apenas contra esta frente ampla, cuja a proposta é uma risada na cara de todos os militantes que participaram ativamente da luta contra o golpe. Lula é contra a frente proposta porque entende que não se trata de uma frente pelo “Fora Bolsonaro”, pois é formada com os amigos próximos do bolsonarismo, que é o caso do PSDB.

“Mas há um outro PT”, como diria Ascânio, “que entende que é urgente superar a etapa do ‘nós contra eles’ e que um grande entendimento entre as forças políticas democráticas não é apenas necessário, é urgente”. Ao defender o “entendimento entre as forças políticas democráticas”, o articulista deveria explicar em quê, exatamente, partidos que apoiaram o golpe e a prisão de Lula - PDT, PSDB, PSB etc. - são democráticos se o que defenderam foram justamente as medidas mais antidemocráticas do último período, até porque tudo isso foi o processo que colocou Bolsonaro no poder.

Mas, em nome, de acabar com Lula vale tudo, inclusive elogiar um setor do PT contra o outro, sendo que na realidade o que a Globo quer, junto com o resto da burguesia, é proibir o partido - o que seria ideal para eles e por isso batem tanto na tecla de que o partido seria uma organização criminosa.

“Essa turma, liderada pelo ex-ministro, ex-prefeito de São Paulo e ex-candidato a presidente Fernando Haddad, já reconheceu publicamente os erros do PT e se mostrou pronta para reconstruir e reerguer o partido. Esse grupo não tem as amarras populistas de Lula e companhia, é mais moderno, pensa no futuro e não se contenta apenas com o atendimento de interesses imediatistas e corporativistas”. Detalhe, leia-se por “moderno”: mais parecido com o PSDB.

O articulista conclui: “Enquanto o dono da bola [que seria Lula] se recusar a sentar à mesa para trabalhar em conjunto em favor de todos, quem perde é o Brasil”. Ou seja, o Brasil não perde quando a Globo entrega o País para os Estados Unidos e o fascismo, perde justamente quando Lula tenta impedir isso. 

Fica o grito de histeria do colunista golpista que quer virar opinador sobre a esquerda: “Um país como o nosso, com um abismo social que mantém dezenas de milhões de brasileiros à margem do bem estar e do progresso, precisa de um partido de esquerda forte, moderno e eficiente. Coisa que o PT de Lula não é”.

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