O Algoritmo da Ilusão: O Caso Rio-397B
Para construirmos uma verdadeira soberania tecnológica no Brasil, precisamos abrir mão dos heróis de laboratório criados por decreto ou por colagem de software
No dia 13 de junho, o ecossistema de tecnologia brasileiro parecia ter encontrado sua emancipação. O anúncio do Rio-397B — um modelo de inteligência artificial com impressionantes 397 bilhões de parâmetros, desenvolvido pela IplanRio (empresa pública de tecnologia da Prefeitura do Rio de Janeiro) — foi celebrado com o ufanismo típico das grandes conquistas nacionais. O modelo prometia não apenas rivalizar com gigantes globais como o DeepSeek, mas fazê-lo sob um custo quase milagroso: apenas R$ 500 mil, uma fração irrisória do que as corporações do Vale do Silício ou de Xangai gastam para treinar infraestruturas semelhantes.
A narrativa da vanguarda tropical, contudo, durou pouco. Dias após o lançamento, cientistas da empresa chinesa http://01.AI abriram o capô algorítmico do modelo carioca e expuseram uma realidade devastadora. Através de análises matemáticas precisas dos pesos das camadas neurais, provou-se que o Rio-397B não era fruto de um treinamento computacional autoral. Era, em termos técnicos, um merge fixed: uma colagem estática que sobrepunha 60% de um modelo chinês (Yi-34B) e 40% de outro (Yi-XLarge).
O golpe de misericórdia na farsa veio da própria máquina. Ao removerem a instrução de sistema que forçava a IA a repetir "Eu sou o Rio", pesquisadores perguntaram sua real identidade. Em quase 80% das vezes, o sistema respondeu sem hesitar: "Eu sou o Next da http://01.AI", passando a recitar detalhadamente a história institucional da corporação sediada em Xangai.
O constrangimento técnico escalou para uma crise de governança quando a defesa institucional alegou que os arquivos originais do "verdadeiro treinamento" haviam sido perdidos de forma irrecuperável — uma justificativa que a comunidade de engenharia de dados classificou como estatisticamente implacável e inverossímil. O episódio acendeu o alerta vermelho nas redes e nos órgãos de controle: se a técnica consistiu apenas em colar códigos abertos existentes, para onde foi o orçamento anunciado? Teríamos testemunhado um modelo científico ou uma estratégia cenográfica para atração de investimentos e capital político?
O Desvio Ético e a Indústria do "Gato por Lebre" Digital
Para além do escândalo orçamentário e de engenharia, o caso do Rio-397B abre uma ferida ética central no desenvolvimento da civilização digital: o colapso da autoria e a validação do simulacro. Na pressa global por performar inovação, o limite entre o open source e o plágio estrutural foi deliberadamente borrado.
Como bem pondera o Dr. Mariano Pimentel, renomado pesquisador de Sistemas de Informação na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o cerne do problema não habita a engenharia cumulativa em si. O pesquisador esclarece:
"Utilizar modelos de código aberto é uma prática legítima e amplamente adotada pela comunidade científica internacional; o problema está na transparência sobre os processos realizados, nos limites das contribuições originais e nos resultados efetivamente alcançados."
O erro ético inicial, portanto, não reside em utilizar bases estrangeiras, mas na falsificação da origem. Ao envelopar uma tecnologia terceirizada com a bandeira do ineditismo estatal, comete-se um estelionato epistêmico contra a sociedade que financia o projeto. Jean Baudrillard, ao formular a teoria dos simulacros, apontava que a sociedade contemporânea substituiu a realidade pelos seus signos representativos. O Rio-397B operou como o simulacro perfeito: ele não precisava existir como ciência real; bastava que os seus dados de marketing Outdoor produzissem o efeito de que o Rio de Janeiro estava na vanguarda da inteligência artificial. Na era dos algoritmos, a performance do sucesso tornou-se mais valiosa do que o rigor do processo.
A Colonialidade do Código e o "Estrangeiro Interior"
Há uma camada polissêmica ainda mais profunda que liga o episódio às assimetrias globais de poder. Historicamente, o Sul Global é empurrado para o papel de mero consumidor ou montador de tecnologias desenvolvidas no Norte ou no Extremo Oriente. Quando uma instituição pública tenta contornar essa barreira através de um atalho cosmético — colando pesos de modelos internacionais e rebatizando-os com o nome da cidade maravilhosa —, ela atualiza e aprofunda o que teóricos decoloniais chamam de colonialidade do saber.
É o complexo de vira-lata digitalizado: a incapacidade de sustentar o tempo real do desenvolvimento — que exige anos, laboratórios sérios, tentativas e erros — e a opção pelo espetáculo da cópia barata. Ironicamente, ao ser despida de sua máscara, a linguagem da própria IA revelou o seu "estrangeiro interior". O algoritmo, que não tem inconsciente mas carrega o rastro de sua programação original, recusou-se a mentir. Ele lembrou que sua carne matemática pertencia a Xangai, e não à Glória ou a Copacabana.
Diante desse cenário de dependência disfarçada de vanguarda, o Dr. Mariano Pimentel aponta para a urgência de uma mudança estrutural e de fôlego longo, argumentando que:
"A busca por protagonismo brasileiro em IA exige investimentos contínuos em pesquisa, formação de recursos humanos e desenvolvimento tecnológico próprio. Somente assim será possível avançar em direção a uma verdadeira soberania digital, baseada na efetiva capacidade de criar, compreender e governar as tecnologias estratégicas para o nosso país."
Sob a ótica do pesquisador da Unirio, soluções cosméticas não substituem a maturação institucional: "Não precisamos apenas de um modelo de linguagem funcional; precisamos construir a infraestrutura e desenvolver as competências científicas e institucionais capazes de promover a autonomia tecnológica", adverte Pimentel.
A Destruição do Arquivo e o Resgate da Governança Científica
A narrativa do "modelo perdido" também evoca o pensamento do filósofo Jacques Derrida sobre o mal de arquivo. Para Derrida, o controle do arquivo é o controle da verdade política. Dizer que o modelo campeão sumiu de um servidor profissional de Inteligência Artificial é uma tentativa clássica de impor o esquecimento técnico para gerir a impunidade ética. Sem o arquivo original, impossibilita-se a auditoria; sem a auditoria, a farsa é rebaixada a mero "acidente de percurso".
Para romper com esse ciclo de opacidade e simulação, a análise técnica do Dr. Mariano Pimentel prescreve uma aproximação urgente entre a administração pública e o chão de fábrica da ciência nacional. Ele defende que episódios embaraçosos como esses:
"[...] reforçam a necessidade do governo estabelecer parcerias com as universidades públicas e com pesquisadores em Computação capazes de compreender como as tecnologias são produzidas, avaliadas e auditadas, tendo verdadeiro compromisso com o avanço tecnológico sustentável de nosso estado."
O que o caso do Rio-397B deixa como lição ética é que a inteligência artificial não pode ser tratada como um truque de mágica para inflar currículos institucionais ou balanços orçamentários. O desenvolvimento tecnológico exige o que o dramaturgo Samuel Beckett definia como a dignidade do fracasso: "Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor."
Para construirmos uma verdadeira soberania tecnológica no Brasil, precisamos abrir mão dos heróis de laboratório criados por decreto ou por colagem de software. A ética cênica e a ética científica compartilham do mesmo princípio básico: a honestidade diante do vazio da página em branco. Sem ela, conforme o alerta implícito na defesa de Pimentel por uma ciência auditável e sustentável, qualquer inteligência criada será sempre artificialmente falsa, e o progresso, apenas uma piada que a matemática internacional não tardará a desmascarar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




