Partido Digital Bolsonarista e a nova arquitetura do poder político nas redes
"Um dos aspectos que mais chamou atenção durante a entrevista foram os números reunidos pela pesquisa"
As redes sociais deixaram de ser apenas ferramentas de comunicação eleitoral para se tornarem espaços centrais de organização política. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pela pesquisadora Daniela Costanzo durante entrevista ao Tech Talk, ao discutir o livro O Partido Digital Bolsonarista, obra que investiga as transformações da política contemporânea a partir da atuação do bolsonarismo no ambiente digital.
Segundo os autores, o fenômeno não pode ser reduzido a uma simples estratégia de marketing político. A pesquisa sustenta que o bolsonarismo desenvolveu uma forma inédita de organização, funcionando como um verdadeiro “partido digital”, cujas dinâmicas de coordenação, mobilização e tomada de decisão acontecem prioritariamente nas plataformas digitais, com relativa autonomia em relação às estruturas tradicionais dos partidos políticos.
Um dos aspectos que mais chamou atenção durante a entrevista foram os números reunidos pela pesquisa. Entre eles, o alcance de *301 milhões de visualizações* obtido por um único vídeo de uma liderança do movimento em apenas uma semana, desempenho que teria resultado em *2,5 milhões de novos seguidores*. Para os pesquisadores, esses indicadores demonstram a capacidade de determinadas lideranças de produzir mobilização política em escala nacional a partir das plataformas.
A dimensão financeira do fenômeno também aparece de forma significativa. O levantamento identifica *R$ 33,8 milhões investidos por produtoras conservadoras em anúncios na Meta, valor que supera em aproximadamente três vezes os investimentos realizados por grupos progressistas no mesmo ambiente. Em outro exemplo, um único parlamentar teria destinado **R$ 750 mil para cerca de 3.300 anúncios digitais*, voltados à difusão permanente de conteúdos ideológicos fora dos períodos eleitorais.
Durante a conversa, Costanzo destacou que essa estrutura opera de maneira contínua, sem depender exclusivamente do calendário das eleições. Em vez de campanhas episódicas, forma-se uma rede permanente de produção de conteúdo, arrecadação de recursos e engajamento político.
Outro ponto central discutido foi a forma como o poder se organiza dentro desse ecossistema. Diferentemente dos partidos tradicionais, onde cargos e funções são definidos por regras formais, a autoridade no ambiente digital passa a ser medida pela capacidade de mobilizar atenção, impor narrativas e influenciar a base social. A pesquisa aponta que lideranças com cerca de *20 milhões de seguidores* acumulam um capital algorítmico capaz de lhes conferir enorme poder de definição dos rumos do movimento.
O livro também analisa a relação entre as redes e as manifestações de rua. Segundo os autores, os grandes atos públicos funcionam como espaços de validação das hierarquias construídas online. Nesse sentido, as ruas não substituem as plataformas, mas atuam como uma extensão delas. A pesquisa cita ainda mobilizações que chegaram a reunir cerca de *185 mil pessoas na Avenida Paulista, número significativamente superior aos registros anteriores de aproximadamente **45 mil participantes*, evidenciando a capacidade de articulação entre o ambiente digital e a ocupação do espaço público.
Ao longo da entrevista, Daniela Costanzo ressaltou que o conceito de partido digital não se limita ao caso brasileiro. A pesquisa oferece pistas para compreender fenômenos políticos internacionais marcados pela influência das plataformas, pela economia da atenção e pela crescente centralidade dos algoritmos na disputa pelo poder.
Mais do que um estudo sobre o bolsonarismo, a obra lança perguntas sobre o futuro da democracia em uma era em que lideranças políticas, movimentos sociais e grupos organizados passam a disputar não apenas votos, mas também visibilidade, engajamento e capacidade de moldar a percepção pública em tempo real.
A entrevista completa com Daniela Costanzo pode ser assistida nos canais do *Brasil 247*, onde a pesquisadora aprofunda as análises apresentadas no livro e discute os desafios que as novas formas digitais de organização política impõem às democracias contemporâneas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




