Quando a inteligência artificial substitui as esposas dos filósofos! O que Žižek ainda não viu!
"Recentemente, Slavoj Žižek, que sempre me faz pensar alguma coisa relevante, voltou a expressar sua inquietação diante da inteligência artificial"
Uma coisa profundamente reveladora acontece quando intelectuais consagrados começam a lamentar a chegada da inteligência artificial. Eles nem reclamam porque estejam necessariamente errados em suas preocupações, mas porque seus medos costumam expor pressupostos que permaneceram invisíveis durante décadas.
Recentemente, Slavoj Žižek, que sempre me faz pensar alguma coisa relevante, voltou a expressar sua inquietação diante da inteligência artificial. Em tom apocalíptico, descreveu um mundo em que o ChatGPT escreve artigos, outras inteligências artificiais revisam os textos e novos algoritmos produzem resumos para leitores que já não leem. No final da cadeia, argumenta o filósofo esloveno, a máquina trabalha para a máquina enquanto os seres humanos desaparecem do processo.
A imagem é sedutora e é também incompleta. Explico!
O que talvez mais chame atenção não é a crítica à inteligência artificial em si, mas a forma como ela reproduz uma fantasia recorrente na história intelectual ocidental. A fantasia do homem que pensa sozinho.
Ao longo de séculos, a produção do conhecimento foi narrada como obra de indivíduos excepcionais. Filósofos, escritores, cientistas e acadêmicos apareceram como gênios isolados, quase sempre retratados diante de suas escrivaninhas, produzindo ideias originais por força exclusiva de seu intelecto. Pouco se falou sobre a infraestrutura humana que tornava possível essa produção.
O Efeito Matilda, conceito cunhado pela historiadora da ciência Margaret Rossiter em 1993, descreve o padrão sistemático pelo qual contribuições científicas e intelectuais de mulheres são atribuídas a homens — seus colegas, orientadores ou maridos —, apagando autoria e impedindo reconhecimento institucional. Os casos mais emblemáticos são os de Rosalind Franklin, cujos dados de difração de raios X foram usados sem autorização por Watson e Crick para formular o modelo da dupla hélice do DNA, rendendo a eles o Nobel de 1962; de Cecilia Payne-Gaposchkin, que demonstrou em 1925 que o Sol é composto majoritariamente de hidrogênio, foi pressionada pelo orientador Henry Norris Russell a retratar a conclusão e viu ele publicar a mesma descoberta anos depois como própria; e de Lise Meitner, física que contribuiu de forma decisiva para a explicação teórica da fissão nuclear, enquanto seu parceiro Otto Hahn recebeu sozinho o Nobel de Química de 1944 — ela foi indicada ao prêmio 48 vezes ao longo da vida sem jamais recebê-lo.
Esposas corrigiam manuscritos, secretárias organizavam correspondências, assistentes realizavam levantamentos bibliográficos, editoras revisavam argumentos, bibliotecárias localizavam fontes. Mulheres preparavam refeições, cuidavam dos filhos e garantiam as condições materiais para que determinados homens pudessem dedicar horas ao pensamento abstrato.
A história do conhecimento é também a história de um trabalho intelectual invisibilizado.
Quando Žižek afirma que a inteligência artificial está substituindo funções humanas, uma pergunta inevitável emerge. Quem realizava essas funções antes?
Em muitos casos, não eram os próprios autores.
Talvez uma das ironias do presente seja justamente o surgimento da inteligência artificial, que tornou visível uma série de atividades cognitivas que, durante muito tempo, foram consideradas secundárias porque estavam associadas ao trabalho feminino. Revisar textos, organizar informações, produzir sínteses, corrigir erros gramaticais e preparar materiais, falamos da sistematização dos dados.
Durante décadas, essas tarefas foram tratadas como meros apoios técnicos ao trabalho intelectual verdadeiro, supostamente masculino e criativo. Agora, quando algoritmos passam a executá-las, descobre-se repentinamente que elas eram fundamentais para a produção do conhecimento. A inteligência artificial não está apenas substituindo pessoas, está substituindo formas historicamente feminizadas de trabalho cognitivo que fizeram muitos homens parecerem gênios em suas trilhas pavimentadas por cabeças e pensamentos forjados na crença do poder masculinista-cis-aderente.
Há algo de sintomático nisso, e podemos descascar essa cebola. A crítica de Žižek parece sugerir que existia uma época mais autêntica, em que seres humanos produziam conhecimento sem mediações artificiais. Mas essa época nunca existiu, o conhecimento sempre foi mediado por tecnologias, instituições, afetos, relações sociais e trabalho coletivo.
Antes dos algoritmos, havia máquinas de escrever; antes das máquinas de escrever, havia copistas; e antes dos copistas, havia aprendizes, discípulos e redes de transmissão oral. Elas estavam lá! Em silêncio, mas em excelente percepção.
A produção intelectual jamais foi uma atividade puramente individual. A própria metáfora sexual utilizada por Žižek para descrever a contemporaneidade merece atenção. Ao imaginar parceiros que conectam próteses e dispositivos para que as máquinas realizem o ato sexual em seu lugar, o filósofo busca produzir uma sensação de estranhamento. A mensagem implícita é clara, a tecnologia estaria corroendo a autenticidade das relações humanas.
Mas essa oposição entre natureza e técnica já foi amplamente questionada por perspectivas feministas, queer, trans e pós-humanistas.
Corpos nunca foram naturais no sentido imaginado pelos conservadores; eles são produzidos por linguagens, normas, medicamentos, próteses, roupas, imagens, dispositivos e tecnologias. A experiência humana sempre foi mediada.
Talvez por isso a metáfora de Žižek revele mais sobre seus próprios receios do que sobre a inteligência artificial.
Seu desconforto parece menos relacionado à tecnologia e mais à perda de um determinado lugar de autoridade. O lugar do intelectual como figura central do processo de produção do saber.
A inteligência artificial não elimina apenas tarefas. Ela democratiza competências antes concentradas em grupos específicos. Pessoas comuns podem hoje revisar textos, organizar bibliografias, resumir documentos extensos e aprimorar sua escrita sem depender dos antigos guardiões do conhecimento.
Isso não significa que a inteligência artificial seja neutra ou que seus riscos devam ser ignorados. Os problemas envolvendo concentração de poder corporativo, exploração de dados, reprodução de preconceitos e precarização do trabalho intelectual são reais e merecem atenção rigorosa.
Mas talvez a pergunta mais interessante não seja se as máquinas estão substituindo os humanos. Creio que devêssemos perguntar quais humanos sempre estiveram ausentes das narrativas sobre a produção do conhecimento.
Quando um filósofo lamenta que o ChatGPT revise textos, vale lembrar que, durante séculos, essa função foi desempenhada por mulheres cujos nomes raramente apareceram nas capas dos livros. A inteligência artificial não está apenas transformando a forma como produzimos conhecimento.
Ela está expondo a quantidade de trabalho invisível que sempre sustentou aqueles que acreditavam pensar sozinhos, e essa lenda foi mantida até agora. E sobre a IA como apoio de escrita, podemos falar em outro texto, afinal, nem todos têm o corpo tão funcional que não precise de algum apoio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




