O cogumelo que não nasceu pronto
Economia feminista aparece como ruptura teórica e política diante de um sistema que naturaliza desigualdades de gênero, raça e classe, analisa Sara York
Existe uma cena didática que Marilane Teixeira, economista e pesquisadora do Cesit/IE-Unicamp, usa para desmontar séculos de epistemologia econômica dominante. Você passa por um campo, vê um cogumelo e pensa: nasceu pronto, estava lá. É exatamente assim, diz ela, que a economia neoclássica trata os indivíduos — como se chegassem ao mundo já formados, já prontos para maximizar utilidades, já inseridos numa ordem natural do mercado. E esses indivíduos, claro, são homens. E são brancos.
A economia feminista começa onde esse cogumelo apodrece!?
Conversei com Marilane numa entrevista que vai se tornando, à medida que ela fala, um mapa de tudo que o pensamento econômico hegemônico decidiu não ver. A economia neoclássica opera com uma ficção chamada homo economicus — o indivíduo racional, neutro, universal. Neutro que dizer masculino. Universal que dizer branco. Como ela própria define: “a economia feminista surge como uma contraposição à economia predominante, porque ela questiona os pressupostos econômicos que rejeitam, que negam, que ocultam o papel econômico das mulheres, que não reconhecem a diversidade da classe trabalhadora.”
A economia feminista, então, não é um apêndice do pensamento econômico. É sua ruptura.
O que ela coloca no centro é a reprodução social — os cuidados, os afazeres domésticos, a saúde, a educação, tudo aquilo que sustenta a vida e que não aparece no PIB porque está submerso no trabalho das mulheres, das mulheres negras, das pessoas LGBTI+. Marilane é precisa: “o que está no mercado, o que aparece, é sustentado justamente por essa base que está submersa e que está no trabalho reprodutivo.” O chão invisível do mercado visível.
Daí a crise, se o capitalismo paga salários baixos para limitar o consumo e ao mesmo tempo pressiona para que se consuma mais, o conflito não se resolve apenas na linha de produção. Ele explode na esfera da reprodução. Na fila do SUS. No ônibus que não vem. Na escola sem professor. Citando Tithi Bhattacharya, Marilane nomeia: “a gente vive uma crise da reprodução. O conflito se dá não na esfera da produção — ele se dá na esfera da sociedade, na educação, na saúde, nas condições de mobilidade.”
Isso tem tudo a ver com a 6x1.
Uma jornada de trabalho que consome seis dias em sete não é apenas uma questão trabalhista. É uma questão de reprodução social. É a pergunta: quem cuida, quando? Quem dorme, quem descansa, quem cria os filhos, quem sustenta a vida fora do mercado? A resposta, invariavelmente, recai sobre corpos feminizados, racializados, precarizados. A escala 6x1 não é neutra, é generificada e racializada. E é por isso que a economia feminista não é identitária no sentido mesquinho que os conservadores usam como acusação. Marilane rebate diretamente: “somos nós que estamos confrontando esse sistema neoliberal. Quem está indo para a rua somos nós.”
Ela não tem dúvida sobre o futuro: “o futuro é com as mulheres, é com as pessoas negras e é com a população LGBT.” Não como concessão, não como diversidade decorativa. Como sujeitos de um projeto de sociedade que confronta o neoliberalismo onde ele mais dói — na vida que se vive fora e dentro do mercado, no tempo que se tem ou não se tem, no corpo que produz e que reproduz e que, por isso mesmo, nunca coube no cogumelo. Una alusão a produção de Anna Tsing em “O cogumelo do fim do mundo”.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




