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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Psicanalistas denunciam a venda de credenciais e a banalização da clínica

Proposta representa um desvio grave dos fundamentos éticos e clínicos da psicanálise, segundo psicanalistas

Ilustração de IA de Sigmund Freud (Foto: IA)

Nos últimos anos, multiplicaram-se nas redes sociais e plataformas digitais ofertas de “credenciais”, “registros exclusivos” e “certificações internacionais” voltadas a quem deseja atuar como psicanalista. Os pacotes prometem reconhecimento profissional, apoio jurídico, mentoria de marketing, roteiros clínicos, documentos padronizados, grupos exclusivos e até o direito de uso de um suposto registro em redes sociais — tudo mediante o pagamento de uma taxa anual relativamente baixa. Para psicanalistas de orientação freudiana, lacaniana e winnicottiana, esse tipo de proposta representa um desvio grave dos fundamentos éticos e clínicos da psicanálise.

Chama atenção, ainda, a opacidade dessas iniciativas. “A divulgação insiste desde o final do ano passado, mas ninguém sabe quem é o tal ‘presidente’ (que teria 25 anos de trabalho no campo). O nome desse suposto ‘ser iluminado’ simplesmente não aparece em nenhuma comunicação oficial”, relata um psicanalista ouvido pela reportagem. A ausência de responsáveis identificáveis, aliada a uma estética institucional que simula conselhos profissionais, acende alertas não apenas clínicos, mas também jurídicos.

Desde sua fundação por Sigmund Freud, a psicanálise não se constitui como uma profissão regulamentada nos moldes tradicionais, tampouco como uma prática certificável por selos institucionais. Diferentemente de outras áreas da saúde, sua formação não se apoia em registros, números ou autorizações administrativas, mas em um tripé rigoroso: análise pessoal, estudo teórico contínuo e supervisão clínica. Trata-se de um percurso longo, singular e não padronizável.

Para Eduardo Lara, psicanalista e integrante de uma articulação nacional da área, a linguagem usada nessas ofertas não é casual. “Os termos são reveladores: ‘aqui você terá respaldo’, ‘garantia’, ‘reconhecimento’. Tudo isso sustentado por um registro materializado numa carteirinha”, afirma. Segundo ele, cria-se uma lógica circular que distorce o próprio sentido da formação: “Constrói-se uma fórmula perigosa, você é psicanalista porque tem o registro — e só tem o registro quem é psicanalista”.

Become a member - A promessa de credenciais prontas substitui a experiência clínica por uma lógica de consumo. “A psicanálise não se transmite por pacotes, roteiros ou manuais aplicáveis. Ela se constrói na escuta do inconsciente, que é sempre singular e imprevisível”, explica outro analista. Nesse contexto, a oferta de scripts clínicos, planilhas de atendimento e documentos padronizados é vista como incompatível com uma prática fundada justamente no não-saber e na recusa de soluções universais.

Outro ponto sensível é a associação crescente entre psicanálise e estratégias agressivas de marketing. Mentorias de visibilidade, fortalecimento de autoridade e promessa de reconhecimento internacional transformam o analista em uma marca pessoal. Para especialistas, isso ameaça diretamente a ética da transferência. Na clínica psicanalítica, o analista não ocupa o lugar de quem promete resultados, mas o de suporte para a fala do analisando. A autopromoção excessiva tende a produzir o que Donald Winnicott chamou de falso self: uma adaptação performática às exigências do mercado em detrimento da autenticidade clínica.

Há também forte preocupação com a promessa de “apoio jurídico” e “blindagem institucional”. Para analistas experientes, a psicanálise nunca ofereceu garantias de imunidade. Ao contrário, ela implica responsabilidade ética individual, não passível de terceirização. “Essa busca por garantias nasce de uma angústia legítima, a de que não há garantia alguma em ‘ser psicanalista’. Trata-se de um exercício permanente, um a um”, observa Eduardo Lara. Segundo ele, sempre que se tenta definir rigidamente o que “é” ou “não é” psicanálise, corre-se o risco de comprometer o próprio campo.

Maria Teresa Melloni, psicanalista, chama atenção para o uso equivocado de conceitos clássicos e sem a devida profundidade e atenção. Para ela, o essencial é esclarecer ao público que não há garantias externas que sustentem a posição do analista: “O analista é sempre um a um. A ideia de autorização como algo fixo, como ‘cimento’, é perigosa”.

No plano jurídico, as denúncias são ainda mais contundentes. “Apresentam-se como um conselho brasileiro que atua em 15 países, com carimbo e encenação institucional. Mas conselhos de classe que conferem registros profissionais são autarquias criadas por lei específica. Fora disso, trata-se de puro charlatanismo”, afirma a psicanalista Lulu Barbosa. Segundo ela, a gravidade do que está sendo mobilizado extrapola o campo da psicanálise e toca o próprio debate sobre regulação profissional e proteção da população.

O cenário se agrava quando surgem relatos de intimidação judicial. Ronald Lopes, psicanalista, relata que Jairo Carioca, da Escola Psicanalítica da Escuta Periférica, denunciou publicamente a participação de um psicanalista renomado em evento promovido por uma dessas entidades e, em resposta, recebeu duas notificações judiciais. “Há processos em andamento, com audiência marcada para abril. O que está em jogo é o uso do Judiciário como instrumento de silenciamento do debate crítico”, afirma.

Para os entrevistados, o ponto mais crítico é a mercantilização do lugar do analista. Quando a posição clínica passa a ser adquirida por adesão, pagamento e pertencimento a um grupo exclusivo, esvazia-se a própria noção de formação. A psicanálise, lembram, não se funda em selos, mas em um percurso ético sustentado ao longo do tempo.

Diante desse cenário, psicanalistas alertam para a necessidade de distinguir formação de consumo, clínica de marketing e ética de certificação. Em um contexto de crescente precarização das práticas de cuidado, a psicanálise segue sendo um campo que exige rigor, tempo e responsabilidade — elementos que não cabem em anúncios promocionais nem em taxas anuais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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