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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Quem é mulher? Comitê Olímpico Internacional retoma testes genéticos

"O debate contemporâneo sobre atletas trans costuma aparecer como o centro da controvérsia"

Quem é mulher? Comitê Olímpico Internacional retoma testes genéticos (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)

O anúncio desta manhã do International Olympic Committee de restringir a participação na categoria feminina dos Jogos Olímpicos a atletas consideradas biologicamente do sexo feminino, com base em triagem genética envolvendo o gene SRY, recoloca no centro do debate uma história longa e pouco lembrada. Não se trata de uma novidade absoluta. Trata-se do retorno de uma política que acompanha o esporte moderno desde o século XX.

A decisão não pode ser analisada apenas como uma regra esportiva. Ela integra uma tradição histórica de vigilância dos corpos das mulheres no esporte internacional.

A verificação de sexo não começou agora

A verificação do sexo de atletas mulheres existe nos Jogos Olímpicos desde pelo menos a década de 1930, inicialmente em casos considerados "suspeitos". A partir dos anos 1960, tornou-se obrigatória para todas as atletas da categoria feminina, com exames físicos invasivos e posteriormente testes cromossômicos.

Entre 1968 e 1998, mulheres foram submetidas sistematicamente a testes genéticos baseados no chamado corpo de Barr, um marcador cromossômico XX que pretendia distinguir "mulheres verdadeiras" de "impostores". O problema é que esses testes produziram exclusões equivocadas e nunca identificaram nenhum caso comprovado de fraude masculina organizada nas competições olímpicas.

Em outras palavras, historicamente, os testes não protegeram o esporte feminino de homens. Eles selecionaram quais mulheres poderiam continuar sendo reconhecidas como mulheres.

Corpos intersexo sempre estiveram no centro dessa disputa

Desde os anos 1930, atletas intersexo foram alvo privilegiado dessas políticas. Casos como o da velocista polonesa Ewa Kłobukowska, excluída após testes cromossômicos controversos em 1967, mostram como critérios laboratoriais redefiniram identidades esportivas e biográficas inteiras.

Décadas depois, a trajetória da corredora sul-africana Caster Semenya tornou visível uma nova etapa desse conflito. Sua carreira foi atravessada por exigências hormonais e regulações biomédicas que transformaram características corporais naturais em objeto de regulação institucional internacional.

Esses episódios revelam um padrão. Sempre que o esporte feminino redefine suas fronteiras, são os corpos intersexo e dissidentes que primeiro se tornam alvo de escrutínio.

A promessa de neutralidade científica nunca foi neutra

Ao longo do século XX, a verificação de sexo migrou de inspeções físicas para exames cromossômicos, depois para testes hormonais e agora retorna sob a forma de triagem genética do gene SRY. A tecnologia muda. A lógica permanece.

A própria história olímpica mostra que esses métodos produziram falsos positivos e falsos negativos e frequentemente excluíram mulheres que não correspondiam a um ideal biomédico estreito de feminilidade.

Essa trajetória revela algo essencial. O esporte não apenas mede desempenho. Ele define quem conta como mulher.

A categoria feminina sempre foi uma construção política

A presença de mulheres nos Jogos Olímpicos começou apenas em 1900. Durante décadas, sua participação foi limitada por argumentos médicos sobre fragilidade corporal, risco reprodutivo e inadequação fisiológica.

Mais tarde, a exclusão deixou de ser explícita e passou a operar por critérios biomédicos aparentemente neutros.

Hoje, a exigência de triagem genética reapresenta a mesma questão sob nova linguagem científica. Quem decide o que é uma mulher no esporte de alto rendimento.

Mais de oitenta organizações internacionais de direitos humanos e esporte já alertaram que políticas desse tipo tendem a atingir desproporcionalmente mulheres intersexo e atletas do Sul global, reproduzindo desigualdades históricas sob a justificativa de proteção da categoria feminina.

O que está em jogo não é apenas inclusão

O debate contemporâneo sobre atletas trans costuma aparecer como o centro da controvérsia. Historicamente, porém, as políticas de verificação de sexo afetaram primeiro e principalmente mulheres intersexo.

Por isso, a decisão atual não inaugura um conflito novo. Ela reabre um capítulo antigo.

Desde o início do esporte olímpico moderno, a pergunta nunca foi apenas quem pode competir. Mais uma vez é quem pode ser reconhecida como mulher?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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