Soberania e financiamento
O 15º Plano Quinquenal da China e a nova arquitetura do Sul Global
O ano começa com uma mexida no tabuleiro internacional. Enquanto as potências do Norte Global se fecham em um protecionismo defensivo e em sanções unilaterais, a China inicia a execução do seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030). Para o Brasil, este não é um evento de acompanhamento diplomático protocolar. Estamos diante de uma janela de oportunidade para reforçar a soberania financeira e industrial por meio de uma parceria estratégica de alta densidade.
A questão que se impõe ao governo Lula não é “se” devemos aprofundar a relação com Pequim, mas “como” fazê-lo para maximizar a autonomia nacional. A resposta reside na exegese técnica das novas diretrizes chinesas e no uso tático do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) como motor do projeto de país.
Diferente das instituições tradicionais de Bretton Woods, o Banco do BRICS não opera sob a lógica das condicionalidades políticas que historicamente feriram a soberania dos países do Sul Global. Com o anúncio, na última semana, de novos estímulos do PBoC (People’s Bank of China, o Banco Central chinês) focados em inovação e transição energética, abre-se um espaço fiscal sem precedentes.
A liquidez existe, mas exige sincronia. O Brasil precisa alinhar a carteira de projetos estruturantes do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) à lógica das “Novas Forças Produtivas” de Pequim. A desdolarização não é um “desejo ideológico”. É a blindagem contra a volatilidade de um sistema que usa a moeda como arma. Operar mais em moedas locais em 2026 é, antes de tudo, um ato de prudência fiscal e defesa nacional.
A geopolítica da reciprocidade
O tempo em que a relação Brasil-China era resumida à exportação de proteína e minério ficou no século passado. O 15º Plano Quinquenal chinês foca em inteligência artificial, semicondutores e neoindustrialização verde. O Brasil não pode ser apenas o destino de excedentes industriais; precisa ser sócio na transferência tecnológica.
Se a China busca segurança alimentar e estabilidade política na América Latina, o Brasil pode exigir, em contrapartida, a integração das cadeias produtivas. A vinda de montadoras e indústrias de tecnologia chinesas para operar no Brasil precisa ser condicionada à criação de centros de P&D em solo brasileiro. Isso é uma Geopolítica da Reciprocidade.
Para que o Brasil não seja apenas um espectador do crescimento alheio, há espaço para três eixos de atuação imediata:
- Sincronização estratégica PAC/15º Plano: o governo Lula ganha ao instituir uma célula de monitoramento tático para adaptar os projetos de infraestrutura brasileiros às linhas de crédito de inovação do NDB e do Banco Central da China.
- Arquitetura de compensação direta: é hora de aprofundar e acelerar a implementação de mecanismos de liquidação Real-Yuan para reduzir o “custo dólar” e proteger as reservas internacionais brasileiras.
- Exegese de poder no governo: dá para criar uma unidade de inteligência institucional que decodifique os rituais e documentos doutrinários do Partido Comunista da China (PCCh) para prover insumos de decisão em tempo real para o Planalto e o Itamaraty.
A soberania brasileira em 2026 passa, inevitavelmente, por uma leitura correta dos sinais que estão vindo de Pequim. Entender as minúcias do 15º Plano Quinquenal é a diferença entre ser um fornecedor de insumos ou ser um protagonista na construção de uma nova ordem global. O tempo da retórica diplomática acabou; o que o momento exige é Inteligência de Estado aplicada ao desenvolvimento.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



