Carney tenta liderar nova ordem comercial global e reduzir dependência do Canadá dos EUA
Acordo com a China e novos pactos “plurilaterais” avançam após tarifas de Donald Trump
247 – O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, tenta posicionar seu país como um dos articuladores de uma nova ordem comercial global menos dependente dos Estados Unidos, em meio à escalada de tensões geopolíticas e ao impacto das tarifas impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump. A estratégia envolve maior aproximação com a China e a aceleração de acordos menores com diversos parceiros, numa tentativa de reduzir a vulnerabilidade histórica da economia canadense ao mercado norte-americano.
A informação foi publicada pela agência Reuters, que relata que Carney levou a política de diversificação comercial canadense além do que vêm fazendo aliados europeus, ao assinar na semana passada um acordo com a China. A movimentação, segundo a reportagem, busca projetar o Canadá como possível liderança em um novo arranjo do comércio internacional, diante do abalo de relações tradicionais provocado pelo protecionismo norte-americano.
Em viagem pelo Oriente Médio, antes de participar do encontro de Davos, Carney afirmou que o sistema multilateral baseado em regras está sendo corroído por decisões de diversos países — inclusive pelos Estados Unidos. Ele defendeu que, diante do desgaste de instituições e mecanismos multilaterais, países “de pensamento semelhante” devem concentrar esforços em acordos plurilaterais, firmados entre um número menor de nações.
“Uma parte das relações multilaterais, das instituições e dos sistemas baseados em regras está sendo corroída por decisões tomadas por vários países, incluindo os Estados Unidos”, disse Carney em Doha, segundo a Reuters. Na sequência, ele explicou: “Onde há avanço, e onde o Canadá e países com posições semelhantes buscam avançar, é por meio de acordos plurilaterais”, ao sustentar a ideia de tratados mais ágeis e com menos participantes como alternativa ao atual impasse na governança global.
O primeiro-ministro também afirmou que o Canadá já estaria defendendo o papel de “ponte” entre a União Europeia e países do Pacífico. A ministra das Relações Exteriores, Anita Anand, reforçou essa ambição ao afirmar que o Canadá pretende “liderar” no atual cenário de instabilidade.
“Neste momento de volatilidade, o Canadá vai se levantar e liderar. Vamos garantir que estamos trazendo para a mesa países que contribuirão para esse papel”, disse Anand em entrevista à Reuters, em Doha, reforçando o discurso de que Ottawa tenta ocupar um espaço deixado pelo enfraquecimento da liderança tradicional dos EUA no comércio global.
Dependência dos EUA continua esmagadora
O plano de Carney, no entanto, enfrenta limitações concretas. A Reuters destaca que, enquanto a União Europeia destina pouco mais de 20% das exportações de bens aos Estados Unidos, o Canadá ainda envia perto de 70% de suas exportações ao mercado norte-americano, evidenciando um grau de dependência muito maior.
Dados oficiais citados na reportagem mostram que, embora a participação dos EUA nas exportações canadenses tenha caído em outubro para 67,3% — o menor nível fora dos anos de pandemia —, o peso norte-americano continua dominante. Isso significa que qualquer tentativa de reequilíbrio comercial precisará ser profunda, longa e complexa.
O economista Prince Owusu, do Export Development Canada, apresentou um cálculo que ilustra a magnitude do desafio: para reduzir em 10% as exportações canadenses para os EUA, o país teria de dobrar suas vendas para China, Alemanha, França, México, Itália e Índia — ou encontrar mercados equivalentes em tamanho e capacidade de absorção.
Além disso, o Canadá enfrenta dependência estratégica também no setor energético. Apesar da intenção do governo de ampliar vendas de petróleo para a Ásia, a Reuters informa que 90% do petróleo bruto canadense ainda tem como destino os Estados Unidos, consolidando uma relação comercial difícil de romper no curto prazo.
China é peça-chave, mas especialistas pedem cautela
Para cumprir a meta anunciada por Carney de dobrar, em dez anos, as exportações canadenses fora dos EUA, especialistas ouvidos pela Reuters avaliam que o Canadá precisará se apoiar fortemente na China, atual segundo maior parceiro comercial do país. Essa aposta, entretanto, vem acompanhada de alertas sobre os riscos de uma integração acelerada com Pequim.
William Pellerin, sócio e co-chefe de comércio internacional do escritório McMillan, afirmou que o Canadá precisa agir com prudência, porque uma aproximação rápida demais com a China poderia trazer instabilidade econômica no longo prazo. “Precisamos ser muito cautelosos… Avançar rápido demais e integrar-se rápido demais com a China também cria problemas para a estabilidade de longo prazo da economia”, disse ele, segundo a Reuters.
O receio é que a indústria chinesa tenha capacidade de inundar rapidamente o mercado canadense em praticamente todas as categorias de bens, reduzindo espaço para empresas locais e criando pressões internas, num momento em que as exportações chinesas para os Estados Unidos caíram, mas aumentaram de forma expressiva para outras regiões do mundo.
A ofensiva por novos acordos e a disputa por influência global
A Reuters relata que Carney se tornou, na semana passada, o primeiro primeiro-ministro canadense a visitar o Catar e o primeiro a visitar a China desde 2017. Em Pequim, ele disse que a China passou a ser um parceiro mais previsível do que os Estados Unidos — declaração de forte impacto, já que sugere perda de confiança em Washington, que historicamente é o principal eixo econômico e político de Ottawa.
Carney também deve visitar a Índia em breve, após os dois países restabelecerem relações diplomáticas e concordarem em retomar negociações comerciais que haviam sido interrompidas no governo do ex-primeiro-ministro Justin Trudeau. Ao mesmo tempo, o Canadá concluiu acordos com Equador e Indonésia e firmou entendimentos de investimento com os Emirados Árabes Unidos.
O ministro do Comércio do governo Carney, Maninder Sidhu, afirmou que o Canadá agora pretende focar negociações com Filipinas, Tailândia, Mercosul e Arábia Saudita, além da Índia. A ideia é acelerar um processo que, na prática tradicional do país, costuma avançar lentamente.
“Normalmente, o governo do Canadá assina um acordo comercial por ano”, disse Sidhu à Reuters, em entrevista em Dubai. “Queremos garantir que eles sejam concluídos o mais rápido possível.” A fala sintetiza a nova postura do governo: transformar velocidade diplomática e comercial em resposta ao cenário global em transformação.
Uma transição difícil em um mundo mais instável
Apesar da ofensiva comercial, economistas citados pela Reuters consideram improvável que a participação dos EUA nas exportações canadenses diminua muito no curto prazo. Um dos fatores é que muitas empresas aguardam o desfecho das negociações previstas para este ano sobre o acordo comercial entre EUA, México e Canadá, o que pode redefinir as condições de acesso ao maior mercado do mundo.
Assim, Carney se encontra diante de um dilema estratégico: precisa construir alternativas reais para reduzir a dependência do Canadá em relação aos Estados Unidos e enfrentar o impacto do protecionismo de Donald Trump, mas, ao mesmo tempo, corre o risco de acelerar demais a integração com a China e abrir novos pontos de vulnerabilidade.
A tentativa de Carney de impulsionar uma nova arquitetura comercial global mostra que o Canadá busca reposicionar seu papel no mundo, atuando como elo entre blocos e parceiros em um ambiente internacional fragmentado. Resta saber se o país conseguirá diversificar mercados sem trocar uma dependência por outra — e sem agravar disputas econômicas internas em um período já marcado por instabilidade, pressões externas e transformações profundas no comércio mundial.


