Vai Brasil
No país de 200 milhões de treinadores, todos sabem o caminho do Hexa
Já medi em passos e olhares, se abrir um buraco no chão do apartamento em que moro não invado a casa de ninguém. Pela abertura imaginária, jamais surpreenderia o vizinho na intimidade do quarto e muito menos na privacidade do banheiro. Aqui embaixo desses velhos tacos em que piso, não se lava roupa, não se come, não se dorme.
O andar térreo não é moradia de gente é, isso sim, endereço de frutas e legumes; também há secos e molhados, material de limpeza e fartura de bebidas. Aqui embaixo funciona um supermercado.
Algum barulho sempre tem, mas não reclamo. Meu vizinho mata minha fome e me ajuda a cuidar da casa. Faltou algo na despensa? Desço os 29 degraus, pego e pago. Não costuma ser caro.
O mercado é pontual, atende de segunda a domingo, das 7 às 22 horas e só não abre em duas datas: 25 de dezembro e 1 de janeiro. É a regra.
Como as regras têm exceções, há alguns anos, a loja passou a fechar por algumas horas no Carnaval. Quando o bloco do bairro passa, funcionários e funcionárias vêm para calçada ver a folia.
No último sábado, depois de pegar algumas frutas, uma garrafa de água e acertar com a Elizângela, quis saber.
– Onde você vai ver o jogo?
– Aqui mesmo. Vamos fechar por duas horas. Olha lá o que prenderam na parede – ela me mostra com o olhar castanho a enorme televisão instalada em um ponto privilegiado do mercado.
Na hora marcada as portas baixaram. Todos os funcionários na frente da TV.
Mesmo onde as portas estavam abertas não havia o que fazer, a não ser torcer. No plantão médico nenhum doente apareceu. Na delegacia, o sossego foi tanto que o delegado, enquanto elogiava o Vini Jr e xingava o Casemiro, concluiu que os ladrões de celular tinham deixado o serviço para mais tarde.
Voltemos à bola. Para boa parte da torcida e dos comentaristas esportivos, nosso treinador, Carlo Ancelotti, decepcionou. Escalou mal, demorou a mexer, não botou o Endrick!!!
Assisti à estreia na casa de um amigo que convidou outros amigos. Entre gritos e lamentos me surpreenderam a atenção, o conhecimento e a memória dos torcedores.
– Até que ficou de bom tamanho, o Marrocos está entre as dez melhores seleções do mundo – analisa a torcedora resignada.
– Escalou errado. Onde já se viu o Ibañez de lateral? Era zagueiro no Fluminense e continua assim no time em que joga na Arábia – ressalta o informadíssimo Edmílson.
– O Alisson tem que lançar direto pro ataque, pra surpreender o meio de campo do Marrocos. Nenhum goleiro joga melhor com o pé que ele – argumenta a bailarina Cecília, mastigando devagar e de copo na mão.
No dia seguinte, na barraca de flores, Vinícius ainda está inconformado.
– O Endrick ia bagunçar a defesa dos caras. Os zagueiros estavam com a língua de fora, era a hora dele. Pelo menos um gol ele fazia.
O Brasil não é só uma terra de craques é um celeiro de técnicos. Todos temos uma escalação, uma sacada mágica para virar o jogo.
Pintamos ruas, enfeitamos cidades, damos um jeito de vestir nossas cores. Mas, acima de tudo, entendemos do jogo, ou melhor, temos certeza absoluta que dominamos a estratégia e a tática. Soberanos, sabemos o caminho do gol e da goleada.
Nos botequins, nas praças, nas salas de aula, cada um tem seu esquadrão imbatível.
Eu, que também cultivo minhas certezas, sugiro aos “treinadores-torcedores”: se todos temos nossos titulares porque não dar ao Ancelotti o direito de escolher os dele?
Vai Brasil que o Haiti vem aí.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




