Violência contra a mulher, uma luta de todos
"A normalização da violência não ocorre apenas pelo ato físico; começa na linguagem, na piada tolerada, na desqualificação reiterada da vítima"
Tenho quatro irmãs, vinte e seis primas (só estou contando as filhas de irmãos e irmãs dos meus pais), além de uma dúzia de primos; quem comandava essa multidão eram nossas avós, elas eram as capo dei capi, auxiliadas por nossas mães, tias, tias-avós e uma tia-bisavó.
Nós, "os meninos", aprendemos que deveríamos respeitar todas as meninas como gostaríamos que respeitassem as nossas irmãs e primas. Em razão disso, os temas "violência contra a mulher" e "feminicídio" me são muito caros e, a meu juízo, carentes de debate substantivo, especialmente na Câmara Municipal de Campinas.
O debate público tem sido atravessado, nos últimos anos, por uma inquietante questão: até que ponto o bolsonarismo contribuiu para a normalização da violência contra a mulher?
A resposta exige cuidado analítico, mas os argumentos apresentados em artigos recentemente publicados na Revista Fórum e no Instituto Humanitas Unisinos convergem para uma conclusão contundente: houve, no plano simbólico e institucional, um processo de legitimação do machismo como identidade política.
E estão aí os tais "legendários" — um projeto que busca ajudar homens a se reconectarem com seus propósitos, promovendo transformações pessoais que impactam também suas famílias e comunidades; a missão seria: "formar um herói em cada família", como destaca o site oficial —, mas que a associação com templos religiosos neopentecostais, somada ao custo elevado de participação, tem gerado críticas sobre a acessibilidade e a intenção comercial do retiro. Além disso, o movimento enfrenta acusações de hipocrisia. De acordo com relatos, há casos de homens que buscam a imersão após episódios de infidelidade conjugal e violência, na tentativa de "reconstruir" a relação e promover uma transformação pessoal voltada ao casamento.
Estou pesquisando sobre esse movimento, que nasceu na Guatemala; depois escreverei sobre ele.
O primeiro eixo desse artigo sobre a violência e o feminicídio reside no campo discursivo.
Desde a ascensão de Jair Bolsonaro à centralidade da vida política nacional, consolidou-se um estilo retórico marcado por ataques a pautas feministas, ironias dirigidas a mulheres e desqualificação de reivindicações por igualdade de gênero. Esse padrão não se limitou a episódios isolados; tornou-se elemento mobilizador de uma base social que passou a interpretar o enfrentamento ao "politicamente correto" como virtude moral e afirmação de autenticidade. Ao transformar o machismo em bandeira cultural, o movimento político criou um ambiente no qual manifestações misóginas deixaram de provocar constrangimento público e passaram a ser, em certos círculos, motivo de identificação.
O segundo eixo é institucional.
Artigo publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos aponta que, em estados como São Paulo, houve descontinuidade ou enfraquecimento de políticas voltadas à proteção das mulheres, em meio a um cenário de crescimento dos índices de feminicídio. A análise sugere que o desmonte ou subfinanciamento de estruturas especializadas — delegacias da mulher, centros de acolhimento, programas de prevenção — não pode ser dissociado de uma orientação ideológica que minimiza a centralidade da violência de gênero como problema estrutural. Quando políticas públicas são relativizadas, a mensagem transmitida à sociedade é inequívoca: a proteção das mulheres deixa de ser prioridade.
É evidente que a violência contra a mulher no Brasil não nasceu com o bolsonarismo. Trata-se de fenômeno histórico, enraizado em padrões patriarcais que atravessam séculos. Contudo, reconhecer sua natureza estrutural não impede a avaliação de contextos políticos específicos que possam ter agravado ou legitimado tais práticas. Discursos oficiais importam. Políticas públicas importam. Símbolos importam. Quando lideranças nacionais adotam postura hostil às pautas de igualdade e incentivam uma reação cultural contra o feminismo, produzem efeitos concretos na esfera social.
A normalização da violência não ocorre apenas pelo ato físico; começa na linguagem, na piada tolerada, na desqualificação reiterada da vítima, na relativização do agressor. O ambiente político dos últimos anos foi marcado por essa erosão gradual dos freios simbólicos que antes constrangiam manifestações explícitas de misoginia. Ao mesmo tempo, a ampliação do acesso a armas e o enfraquecimento de redes de proteção social criaram condições materiais que potencializam a letalidade da violência doméstica.
Assim, a consolidação das análises mencionadas permite sustentar que o bolsonarismo, enquanto fenômeno político-cultural, contribuiu para naturalizar padrões de dominação masculina e para reduzir o compromisso institucional com políticas de enfrentamento à violência de gênero. Não se trata de afirmar causalidade exclusiva, mas de reconhecer responsabilidade histórica no clima social que se formou.
Superar esse quadro exige mais do que alternância eleitoral. Implica reconstruir políticas públicas de Estado, reafirmar o compromisso com a igualdade de gênero e restaurar, no espaço público, o entendimento de que nenhuma forma de violência contra a mulher é aceitável — nem como prática, nem como discurso, nem como identidade política.
Essas são as reflexões que escrevo em homenagem às minhas avós, Maria Menon Maciel e Maura Toledo Siqueira.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


