Choque do petróleo no Oriente Médio deve acelerar transição energética global
Crise energética provocada pela guerra no Irã pressiona mercados e pode impulsionar energias renováveis e mudanças estruturais no sistema global
247 - A escalada da guerra no Irã desencadeou uma crise energética sem precedentes, considerada a mais grave já registrada, com impactos imediatos sobre preços, abastecimento e mercados globais. O fechamento quase total do Estreito de Ormuz intensifica a instabilidade no fornecimento de energia e amplia os riscos para a economia mundial, em um cenário que pode acelerar a transição energética nos próximos anos, segundo a RFI.
Os mercados financeiros reagiram com cautela ao agravamento do conflito no Oriente Médio. Nesta terça-feira (7), os preços do petróleo apresentaram estabilidade após semanas de alta, enquanto bolsas globais registraram ganhos mesmo diante da intensificação das tensões. O cenário permanece incerto com a continuidade das ofensivas militares e a resistência de Teerã às pressões internacionais
O Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de hidrocarbonetos, segue no centro das preocupações. O Conselho de Segurança da ONU analisa medidas para lidar com a situação da via marítima, que foi praticamente bloqueada pelo Irã desde o início do conflito. A interrupção do fluxo energético tem efeitos diretos sobre cadeias produtivas e setores industriais em escala global
Em entrevista ao jornal francês Le Figaro, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, classificou o momento como o pior choque energético da história. “Esta guerra está bloqueando uma das artérias da economia global. Não apenas petróleo e gás, mas também fertilizantes, produtos petroquímicos, hélio e muitas outras coisas”, afirmou
Birol também alertou para o agravamento da crise no curto prazo. “Março foi muito difícil, mas abril será muito pior”, disse. Segundo ele, caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado durante todo o mês, a perda de petróleo e derivados poderá dobrar em relação ao mês anterior. Desde o início do conflito, 75 infraestruturas energéticas foram atingidas, sendo que mais de um terço sofreu danos graves, dificultando a recuperação da capacidade produtiva
Diante desse cenário, a recomendação imediata da AIE é o uso mais eficiente da energia, com foco em conservação e racionalização do consumo. Ainda assim, o dirigente avalia que a crise pode gerar transformações estruturais no sistema energético global
“A arquitetura do sistema energético global mudará”, afirmou Birol, ao destacar que a geopolítica da energia passará por profundas alterações. Ele apontou que fontes renováveis, como solar e eólica, devem ganhar impulso por sua rápida capacidade de instalação. “As energias solar e eólica podem ser instaladas muito rapidamente. Haverá uma transição para as energias renováveis em questão de meses”, declarou
O executivo também mencionou o possível fortalecimento da energia nuclear, incluindo o uso de pequenos reatores modulares, além da ampliação da vida útil de usinas já existentes. O avanço dos veículos elétricos é outro fator que tende a se intensificar diante do encarecimento dos combustíveis fósseis
Na Europa, a crise reacendeu o debate sobre a dependência energética externa. O Banco Central Europeu (BCE) alertou que essa vulnerabilidade dificulta o controle da inflação. “A dependência energética da Europa está complicando cada vez mais a tarefa de manter a estabilidade de preços”, afirmou Frank Elderson, integrante do Conselho Executivo da instituição, defendendo investimentos em energia limpa produzida localmente
Os efeitos já são sentidos em países como a França, onde 18% dos postos de combustíveis enfrentam falta de ao menos um tipo de produto. Embora o governo negue um colapso no abastecimento, medidas emergenciais estão sendo discutidas para conter os impactos econômicos e sociais
O setor aéreo também sofre com o aumento expressivo dos custos operacionais. Em entrevista ao jornal La Tribune, Pascal de Izaguirre, presidente da Federação Nacional de Aviação Civil Francesa (Fnam) e CEO da Corsair, afirmou que reajustes nas tarifas são inevitáveis. “Os aumentos nos preços das passagens estão se tornando generalizados e são inevitáveis”, declarou
Ele ressaltou que a alta do querosene, aliada a rotas mais longas devido a restrições de sobrevoo, pressiona ainda mais as companhias aéreas. “Podemos esperar novos aumentos de preços nos próximos meses, caso a situação persista”, acrescentou
Dados da Fnam indicam que o preço da tonelada de combustível saltou de US$ 750 antes do conflito para cerca de US$ 1.900 no início de abril. Como resultado, a participação do combustível nos custos operacionais das empresas aéreas subiu de 25% para 45%, evidenciando a dimensão do impacto provocado pela crise
O cenário global segue marcado por incertezas, com a guerra no Oriente Médio afetando não apenas o mercado de energia, mas também cadeias logísticas, transporte e estabilidade econômica em diversas regiões do mundo


