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Conhecer a memória ecológica dos rios é chave para conservar a biodiversidade

Estudo da Unesp revela como mudanças antigas no uso do solo ainda moldam a saúde de riachos e a diversidade de insetos aquáticos

Foz do Rio Doce em Regência, distrito de Linhares (ES) (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

247 - A água doce cobre menos de 1% da superfície do planeta, mas sustenta uma parcela desproporcional da biodiversidade global. Rios, riachos, lagos e áreas alagadas abrigam cerca de 10% de todas as espécies animais conhecidas, com destaque para os insetos aquáticos, grupo que reúne mais de 200 mil espécies descritas e responde por grande parte da diversidade desses ecossistemas. Além de seu papel ecológico, esses organismos tornaram-se ferramentas essenciais para avaliar a qualidade ambiental dos cursos d’água.

É nesse contexto que se insere uma pesquisa conduzida por cientistas do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Rio Claro, divulgada em reportagem de Malena Stariolo no Jornal da Unesp. O estudo demonstra que compreender o histórico de transformações da paisagem — o que os pesquisadores chamam de “memória ecológica” — é fundamental para planejar ações eficazes de conservação em rios e riachos tropicais.

Os insetos aquáticos são amplamente utilizados como bioindicadores porque respondem de forma sensível às alterações ambientais. “Como há uma diversidade muito grande de insetos, existem aqueles que são mais tolerantes às condições adversas e aqueles que são mais sensíveis”, explica Tadeu Siqueira, docente do Instituto de Biociências da Unesp e pesquisador principal do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima). Segundo ele, esse conhecimento permitiu criar métricas capazes de detectar mudanças nos ecossistemas aquáticos. “Nosso conhecimento dessa variedade permitiu-nos criar métricas de sensibilidade para entendermos as mudanças ambientais nos ecossistemas aquáticos”, afirma.

No artigo científico The ecological memory of landscape complexity shapes diversity of freshwater communities, a equipe analisou três décadas de transformações na bacia do rio Corumbataí, no interior paulista, que reúne 101 riachos. O objetivo foi entender como alterações no uso do solo ao longo do tempo influenciam a diversidade atual desses ambientes e deixam marcas que persistem mesmo após novas mudanças na paisagem.

Para isso, os pesquisadores combinaram análises históricas do uso da terra, coletas de campo e métodos estatísticos avançados. Foram examinados insetos aquáticos reconhecidos como bioindicadores, além de parâmetros físico-químicos da água, como transparência, condutividade elétrica e oxigênio dissolvido. Os resultados confirmaram a existência de uma memória ecológica mensurável, capaz de revelar quando, no passado, ocorreram mudanças mais críticas para a biodiversidade.

Um dos achados centrais foi o desenvolvimento de um novo método estatístico que identificou 2012 como um ano decisivo. Alterações na composição da paisagem naquele período tiveram relação causal direta com a diversidade de insetos observada em 2015. “Se ignorarmos essa memória ecológica, podemos atribuir erroneamente as causas da perda de biodiversidade a fatores atuais. Ou simplesmente não entender o que está acontecendo”, alerta Siqueira.

O pesquisador ressalta que o termo “memória” é usado de forma metafórica. “Obviamente os ecossistemas não têm memória. Usamos esse termo para nos referir aos rastros do passado que podem ser identificados na paisagem”, explica. Ele também utiliza o conceito de “legado” para descrever impactos que atravessam gerações e continuam influenciando os ecossistemas aquáticos anos depois das mudanças iniciais no uso do solo.

Outro resultado que surpreendeu a equipe foi a constatação de que a composição da paisagem — ou seja, a proporção de diferentes tipos de cobertura do solo — teve mais influência sobre a biodiversidade dos riachos do que a localização espacial dessas coberturas. “Em geral, os ecossistemas aquáticos são muito influenciados pelo que está acontecendo próximo deles”, observa Siqueira. “Como sabemos disso a partir de outras pesquisas, tínhamos a expectativa de que a configuração espacial se mostraria a mais importante também neste estudo. Mas isso não ocorreu, e foi um resultado inesperado.”

Segundo os pesquisadores, esse efeito pode estar relacionado à presença relativamente bem preservada de matas ciliares em muitos trechos da bacia do Corumbataí. Essa vegetação atua como um amortecedor natural, reduzindo a erosão, filtrando sedimentos e protegendo a qualidade da água. “A mensagem aqui é, neste caso, o que existe na paisagem importa mais do que como está disposta”, resume o biólogo.

A pesquisa também dialoga com outros estudos conduzidos pelo grupo em diferentes regiões do Brasil, que mostram que a memória ecológica não é infinita. Em áreas onde a conversão do uso da terra ocorreu há mais de um século, como no noroeste paulista, os ecossistemas já passaram por tantos ciclos de alteração que restam poucos vestígios das condições originais. Em contrapartida, regiões com mudanças mais recentes, como partes de Rondônia e do Mato Grosso, ainda apresentam sinais claros desse legado histórico.

“Isso significa que o legado histórico é mais detectável em riachos onde as primeiras alterações do solo ocorreram há não muito tempo”, afirma Siqueira. Para ele, integrar a história do uso da terra às estratégias de conservação é essencial, especialmente em áreas que ainda estão nas fases iniciais de transformação. Esse entendimento pode orientar decisões mais precisas e aumentar a eficácia do monitoramento e da proteção da biodiversidade em ecossistemas de água doce.

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