Interpretação ambiental amplia a experiência de visitação em unidades federais
Estratégia do ICMBio transforma trilhas e exposições em ferramentas educativas, aproximando visitantes da conservação da biodiversidade no Brasil
247 - A visita a uma unidade de conservação pode ir muito além da contemplação da paisagem. Trilhas, placas informativas e centros de visitantes vêm sendo planejados para criar experiências que conectem o público à ciência, à história e à cultura presentes em áreas protegidas. Essa abordagem, conhecida como interpretação ambiental, tem se consolidado como uma das principais estratégias do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para tornar a visitação mais educativa e fortalecer o compromisso social com a preservação.
De acordo com o ICMBio, a interpretação ambiental funciona como uma ponte entre o visitante e o patrimônio natural, ajudando a traduzir elementos do território em linguagem acessível. A coordenadora substituta da Coordenação de Estruturação da Visitação (Coest), Serena Turbay, define a prática como “um conjunto de estratégias de comunicação destinadas a revelar os significados dos recursos ambientais, históricos e culturais, a fim de provocar conexões pessoais entre o público e o patrimônio protegido”.
Na prática, as ações podem assumir diferentes formatos, incluindo sinalização interpretativa ao longo das trilhas, exposições, materiais educativos, conduções guiadas e iniciativas de atendimento ao público. O objetivo não é apenas transmitir informações, mas criar oportunidades para sensibilização e engajamento, fortalecendo a percepção do valor ambiental e cultural das áreas protegidas.
Nos últimos anos, essa diretriz deixou de ser aplicada apenas em experiências pontuais e passou a integrar o planejamento institucional do ICMBio. Cursos, projetos e orientações técnicas vêm sendo elaborados e implementados em diversas regiões do país, buscando integrar comunicação, educação ambiental e gestão da visitação em todas as unidades federais.
Experiências em parques nacionais fortalecem a estratégia
Um exemplo dessa política pode ser observado no Parque Nacional do Pau Brasil, no sul da Bahia. Lá, a experiência interpretativa começa antes mesmo do visitante entrar na floresta. No centro de visitantes, uma exposição permanente apresenta o contexto da Mata Atlântica, a biodiversidade local e aspectos históricos da ocupação humana na região.
A proposta é preparar o olhar do público para compreender o território desde o início, ampliando a percepção do significado ambiental e cultural do parque. A sinalização também se estende pelas trilhas, permitindo que visitantes sem acompanhamento de condutores tenham acesso às informações distribuídas ao longo do percurso.
A servidora responsável pela área de uso público na unidade, Dayse de Souza, afirma que a meta é garantir entendimento já no primeiro contato com o espaço. “Logo na chegada, a pessoa já consegue entender um pouco do que aquele lugar vai contar para ela, que sentido ele tem”, explica.
Segundo o Instituto Chico Mendes, iniciativas como essa vêm sendo ampliadas por meio de capacitação de servidores, condutores e monitores, além da produção de diretrizes voltadas especificamente à interpretação ambiental. A intenção é que essa abordagem seja incorporada ao planejamento de todas as unidades de conservação federais.
Planejamento detalhado busca evitar excesso de informações
A implementação das ações exige um processo técnico cuidadoso. No Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, por exemplo, o projeto de interpretação ambiental está em desenvolvimento há cinco anos. A proposta envolve desde estudos de conteúdo até definição de narrativas, contratação de empresas especializadas e avaliação do comportamento do público diante dos materiais apresentados.
O chefe do parque, Ulisses dos Santos, destaca que o foco é trabalhar com mensagens objetivas e acessíveis, evitando sobrecarregar o visitante com excesso de dados. “A gente trabalha com a ideia de uma mensagem principal por placa. Se tentar dizer tudo ao mesmo tempo, o visitante não leva nada.”
A ideia, segundo o ICMBio, é garantir que cada elemento interpretativo cumpra sua função como ferramenta de comunicação estratégica e não como simples acúmulo de informações ao longo do caminho.
Visitação como ferramenta de conservação ambiental
Ao transformar trilhas e espaços expositivos em ambientes de aprendizagem, o ICMBio reforça a interpretação ambiental como parte do esforço de preservação. A proposta é que a visitação se torne também um momento de reflexão e construção de corresponsabilidade, estimulando o público a reconhecer a importância da biodiversidade e respeitar as regras de proteção.
Nesse contexto, interpretar a paisagem passa a ser mais do que explicar o que está ao redor. A prática se integra à missão institucional de proteger o patrimônio natural brasileiro, incentivando o visitante a enxergar detalhes que poderiam passar despercebidos e a compreender o papel ecológico de cada elemento do território.
Com esse modelo, a experiência de caminhar por uma trilha deixa de ser apenas um percurso turístico e se transforma em oportunidade de aprendizado e vínculo com a natureza, reforçando a percepção de que conservação também depende do envolvimento direto da sociedade.


