Leilão de baterias atrai fábricas e mira R$ 8 bilhões
Primeiro leilão de BESS deve ampliar fábricas, atrair investimentos e reforçar a segurança energética
247 - O primeiro leilão de baterias do Brasil, previsto para dezembro, já começa a reorganizar o mercado de sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos pela sigla BESS, ao estimular novas fábricas, projetos industriais e uma expectativa de R$ 8 bilhões em investimentos, em um movimento visto como decisivo para ampliar a segurança energética e reduzir desperdícios na geração renovável, informa o jornal O Globo.
As regras do certame foram divulgadas pelo Ministério de Minas e Energia na semana passada e abriram caminho para que empresas do setor acelerem planos de expansão no país. A aposta das companhias é que a contratação em escala torne os sistemas de armazenamento mais competitivos e ajude o Brasil a lidar com o chamado curtailment, termo usado para descrever o corte forçado da geração de usinas solares e eólicas quando há excesso de oferta de eletricidade.
As baterias podem armazenar a energia excedente gerada em determinados períodos e devolvê-la ao sistema elétrico em momentos de maior consumo. Esse uso é considerado estratégico para melhorar a flexibilidade da rede, reduzir riscos de sobrecarga e contribuir para evitar apagões, especialmente diante do avanço das fontes renováveis intermitentes na matriz brasileira.
O diretor-executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia, Fabio Lima, afirma que o leilão cria um ambiente mais favorável para decisões de investimento no país.
“Além do impacto econômico, o leilão cria previsibilidade e acelera o desenvolvimento tecnológico. O setor trabalha com diferentes tecnologias de baterias e modelos de negócio, e a expectativa de contratação em escala naturalmente aumenta o interesse industrial no país”, observa Fabio Lima.
“O certame tende a posicionar o Brasil como um hub regional relevante para soluções de armazenamento na América Latina”, acrescenta.
WEG prepara maior fábrica de BESS do país
Uma das empresas que já anunciaram investimentos é a WEG, especializada em soluções de engenharia elétrica. Em fevereiro, a companhia recebeu financiamento de R$ 280 milhões do BNDES para modernizar uma unidade dedicada à produção e integração de sistemas BESS e construir uma nova fábrica em Itajaí, Santa Catarina. A estrutura será a maior do tipo no Brasil.
Com a conclusão das obras, a capacidade produtiva da empresa poderá chegar a 2 gigawatts-hora por ano. A nova unidade tem início de operação previsto para o fim de 2027 e será voltada à fabricação de BESS para aplicações comerciais, industriais e de grande porte, incluindo usinas renováveis e projetos de infraestrutura de rede.
O vice-presidente de Automação e Sistemas da WEG, Manfred Peter Johann, afirma que a companhia avalia novas frentes de expansão industrial, desenvolvimento tecnológico e nacionalização gradual da cadeia produtiva. Atualmente, a fabricação de sistemas BESS no Brasil ainda depende de componentes importados da China, sobretudo células de bateria, apontadas como o elemento central desses sistemas.
“O armazenamento deve se tornar cada vez mais estratégico para o setor elétrico brasileiro ao longo dos próximos anos”, diz Johann.
BNDES vê espaço para financiar novos projetos
O BNDES também se movimenta para apoiar a expansão da cadeia de armazenamento de energia no país. Segundo o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do banco, José Luis Gordon, a nova unidade da WEG deve inaugurar a produção de BESS em larga escala em território nacional.
O banco conta com três programas distintos, que somam R$ 54 bilhões em orçamento, acessíveis a empresas com projetos ligados a sistemas de armazenamento em baterias.
“As empresas também vão poder financiar os investimentos do leilão de baterias”, afirma Gordon.
Anodox escolhe o Ceará para primeira fábrica no Brasil
A sueca Anodox, que atua no mercado de BESS e está presente no Brasil desde o fim de 2024, também foi contemplada com financiamento do BNDES na mesma chamada pública da WEG, voltada a planos de negócios relacionados à transformação de minerais estratégicos.
A companhia, que hoje opera no Brasil por meio da importação de sistemas de baterias produzidos pela cadeia industrial internacional do grupo, escolheu o Ceará para instalar sua primeira fábrica no país. A unidade deve iniciar as atividades em 2028 e gerar 590 empregos diretos e indiretos. A capacidade prevista poderá chegar a 2 gigawatts-hora por ano.
No primeiro momento, a Anodox pretende concentrar a operação na montagem modular e na integração de sistemas BESS, em parceria com um sócio chinês. A estratégia, porém, prevê avanço gradual para etapas produtivas locais.
“A fase inicial ancora o negócio, estabelece a marca no país e cria o fluxo de receita que sustenta os investimentos seguintes”, detalha o CEO e sócio da Anodox no Brasil, Cristiano Braga.
“À medida que o mercado se consolidar, temos a opção de avançar progressivamente na cadeia, incorporando etapas de maior valor agregado, como a montagem de células e, no médio e longo prazo, o processamento de minerais estratégicos em território nacional, com parceiros do setor”, acrescenta.
Brasol aposta em BESS como serviço
A Brasol, empresa de soluções de infraestrutura para a transição energética controlada pelo fundo americano BlackRock e pela Siemens, entrou no mercado de armazenamento há dois anos. A companhia trabalha tanto com sistemas prontos vindos da China quanto com equipamentos cuja montagem final é feita por parceiros fabris no Brasil.
A empresa adotou o modelo BESS as a Service, voltado a indústrias e comércios. Nessa modalidade, a Brasol assume todo o investimento no projeto, incluindo desenvolvimento, estruturação, implantação, operação e manutenção. O cliente firma um contrato de leasing e paga mensalidades pelo uso do ativo.
“O cliente não precisa investir e nós assumimos todos os riscos”, destaca o diretor da unidade de BESS da Brasol, Diogo Zaverucha.
A empresa também pretende disputar o leilão previsto para dezembro.
“Com o leilão, toda a cadeia nacional se estrutura, o produto fica mais barato e o interesse pela solução aumenta”, afirma Zaverucha.
Leilões terão regras de conteúdo nacional
As diretrizes publicadas pelo Ministério de Minas e Energia criam dois leilões de reserva de capacidade voltados exclusivamente a sistemas de armazenamento em baterias. Um deles será reservado a projetos com conteúdo nacional, enquanto o outro será aberto a fornecedores em geral.
O certame destinado a projetos que atendam aos requisitos mínimos de nacionalização definidos pelo BNDES está marcado para 2 de dezembro. Dois dias depois, em 4 de dezembro, será realizado o leilão aberto aos demais sistemas de armazenamento.
A publicação das diretrizes ocorreu um dia depois de a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovar a regulamentação para sistemas de armazenamento de energia. A medida consolidou o marco regulatório aguardado pelo setor para viabilizar os primeiros projetos em escala comercial no país.
Pelas regras do MME, os empreendimentos vencedores terão contratos de reserva de capacidade com prazo de 15 anos. O início de suprimento está previsto para 1º de agosto de 2028.
Os sistemas contratados precisarão entregar a potência definida por quatro horas consecutivas a cada ciclo completo. Eles poderão realizar até dois ciclos por dia, com limite de 366 ciclos por ano. O Operador Nacional do Sistema Elétrico poderá, no entanto, despachar os sistemas por até 12 horas.
Pesquisadora aponta urgência para a rede elétrica
Para Luiza Masseno Leal, pesquisadora do Grupo de Estudos do Setor Elétrico, do Instituto de Economia da UFRJ, os leilões serão importantes para reforçar a segurança da rede elétrica brasileira em um momento de crescimento das fontes renováveis.
“A urgência (de acelerar a integração de baterias ao Sistema Interligado Nacional) é real e crescente”, afirma Luiza.
A pesquisadora lembra que países como Estados Unidos, Alemanha e Chile já utilizam baterias para ampliar a flexibilidade e a segurança de seus sistemas elétricos. Ela também destaca o avanço chinês nesse mercado.
“A China é, com folga, o mais avançado e concentra mais da metade da capacidade global de BESS em escala de rede. O Brasil está atrasado”, afirma.
A expectativa do setor é que o primeiro leilão de baterias marque uma nova etapa para o armazenamento de energia no Brasil, combinando expansão industrial, financiamento público, atração de empresas estrangeiras e maior capacidade de integração das fontes renováveis ao Sistema Interligado Nacional.



