Plástico reciclado vira aliado na captura de CO2 da atmosfera, aponta estudo
Nova técnica transforma resíduos de PET em material capaz de reter dióxido de carbono e pode ser aplicada em processos industriais para reduzir emissões
247 - Cientistas desenvolveram uma técnica capaz de transformar resíduos de plástico PET — amplamente utilizados em garrafas, tecidos e embalagens — em um material inovador que captura dióxido de carbono (CO2) diretamente da atmosfera. A descoberta abre caminho para enfrentar, de forma conjunta, dois dos maiores desafios ambientais da atualidade: o excesso de lixo plástico e o avanço das mudanças climáticas, informa o G1.
A pesquisa tem como base um estudo publicado na revista científica Science Advances. O trabalho descreve um processo químico de “upcycle” que converte o PET descartado em um novo material em pó chamado BAETA, que pode ser compactado em pequenos pellets. A superfície do material é quimicamente modificada para se ligar ao CO2 de maneira eficiente, permitindo a captura do gás presente no ar.
Quando o BAETA atinge sua capacidade máxima de absorção, ele pode ser aquecido para liberar o dióxido de carbono em alta concentração. Esse CO2 pode então ser armazenado com segurança ou reaproveitado em processos industriais, como na produção de combustíveis sintéticos. “A beleza desse método é resolver um problema sem criar outro. Transformamos lixo em um recurso que ajuda a reduzir gases de efeito estufa”, afirma a autora principal do estudo, Margarita Poderyte.
Segundo os pesquisadores, o material apresenta elevada resistência e pode operar em uma ampla faixa de temperaturas, desde condições ambientais até cerca de 150 °C. Essa característica permite sua aplicação direta em ambientes industriais, inclusive com a instalação de unidades de captura nas chaminés das fábricas, filtrando o CO2 antes que ele seja liberado na atmosfera.
Coautor da pesquisa, Jiwoong Lee ressalta que o BAETA mantém sua eficiência por longos períodos e se adapta a diferentes contextos operacionais. “Com essa tolerância ao calor, ele pode ser usado até no final do processo industrial, onde os gases estão mais quentes”, diz.
Além do potencial climático, a tecnologia também oferece uma nova alternativa para o reaproveitamento de resíduos plásticos de baixa qualidade, que normalmente não são aceitos na reciclagem tradicional. O PET corresponde a uma parcela significativa do lixo plástico global e, quando descartado de forma inadequada, pode se fragmentar em microplásticos e contaminar oceanos e ecossistemas.
Para os cientistas, o reaproveitamento desses resíduos cria um benefício ambiental duplo: reduz a quantidade de plástico na natureza e amplia a eficiência no combate às emissões de gases de efeito estufa. “Nosso material pode criar um incentivo econômico concreto para limpar os oceanos”, afirma Lee.
O processo de captura funciona a partir da composição química do PET, que contém cerca de 60% de carbono. O plástico é tratado com etilenodiamina, uma substância conhecida por sua alta capacidade de ligação ao CO2, e decomposto em partículas menores, formando uma estrutura que atrai o gás. Após a saturação, o aquecimento libera o dióxido de carbono para armazenamento ou reutilização.
O próximo desafio, segundo a equipe, é levar a tecnologia do laboratório para o ambiente industrial. Os pesquisadores já buscam investidores para produzir o BAETA em escala de toneladas e implementar os sistemas em fábricas. “A tecnologia é sustentável e pode ser ampliada. O ponto decisivo será convencer autoridades e empresas a investir”, conclui Poderyte.


