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Agência oferecia contrato milionário por ofensiva digital em defesa do Master

Documentos indicam pagamento de até R$ 2 milhões a influenciadores para atacar processo do Banco Central contra instituição de Daniel Vorcaro

Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master (Foto: Divulgação)

247 - Contratos com valores milionários, cláusulas rígidas de confidencialidade e uma estratégia desenhada para aparentar espontaneidade nas redes sociais compõem o pano de fundo de uma ofensiva digital em defesa do Banco Master, instituição controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Documentos, registros de mensagens e comprovantes de depósitos bancários indicam que influenciadores alinhados à direita foram procurados para questionar publicamente o processo de liquidação conduzido pelo Banco Central, informa Malu Gaspar, do jornal O Globo. Os acordos faziam parte de uma iniciativa chamada internamente de “projeto DV”, referência direta às iniciais de Daniel Vorcaro.

Os valores oferecidos variavam conforme o alcance dos perfis nas redes sociais. Um influenciador com mais de 1 milhão de seguidores recebeu proposta de R$ 2 milhões por três meses de trabalho, com a obrigação de publicar oito postagens mensais. Já para um perfil com menos de 500 mil seguidores, o cachê proposto foi de R$ 250 mil pelo mesmo período e número de publicações. Em ao menos um dos casos, o pagamento teria sido realizado antes mesmo da divulgação do conteúdo contratado.

De acordo com dois influenciadores que avançaram nas negociações, a contratante final seria a Agência MiThi, controlada por Thiago Miranda, ex-CEO e sócio do Grupo Leo Dias, detentor de 10% da empresa. Comprovantes bancários indicam que pelo menos um dos pagamentos partiu diretamente da conta de Miranda. O empresário Flávio Carneiro aparece como sócio majoritário do grupo, com 60% de participação.

Procurado, o jornalista Leo Dias afirmou que a Agência MiThi não possui qualquer vínculo com o portal que leva seu nome e declarou que Thiago Miranda deixou o comando do grupo em junho. Miranda, por sua vez, não respondeu às tentativas de contato.

Entre os abordados esteve o deputado estadual Leo Siqueira (Novo-SP), conhecido por críticas à gestão do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. O parlamentar afirmou que interrompeu as conversas assim que suspeitou da origem da proposta. “Quando me dei conta de que a única figura do mercado que poderia estar em busca de uma gestão de crise naquela data era o Daniel Vorcaro, eu imediatamente cortei contato”, relatou. Segundo ele, a confirmação veio apenas após a divulgação das propostas pela imprensa. “Só tive a confirmação de que se tratava do Banco Master com a divulgação das propostas na imprensa, que eram idênticas e envolviam os mesmos interlocutores”.

Prints apresentados por Siqueira mostram que, em 21 de dezembro, ele recebeu uma mensagem pelo Instagram do publicitário André Salvador, ligado à UNLTD Brasil, empresa especializada em perfis de direita. “Oi, Leo, tudo bem? Me chamo André e trabalho com o Thiago Miranda da Agência Mithi e sócio do Grupo Leo Dias”, escreveu o publicitário na abordagem inicial.

Outro nome citado como intermediário nas propostas é Junior Favoreto, do Portal Group BR, que atua no mesmo segmento. Segundo a apuração, o método de contato seguia um padrão: primeiro, sondava-se o interesse em participar de um “projeto de comunicação” voltado à gestão de crise de um executivo do mercado financeiro. Informações mais sensíveis, como a identidade do banqueiro e os valores envolvidos, só seriam reveladas após a assinatura de um acordo de confidencialidade, o chamado NDA.

Questionado, André Salvador afirmou que retornaria os contatos, mas não o fez. Já Junior Favoreto declarou que sua empresa foi acionada por “outra agência” para indicar influenciadores, sem especificar qual, e disse que nenhum contrato chegou a ser assinado. Ele também negou conhecer a Agência MiThi e afirmou que nunca teve contato com alguém chamado Thiago.

Os documentos analisados apontam que o serviço oferecido aos influenciadores era formalmente denominado “projeto DV”. Daniel Vorcaro foi preso em 18 de novembro, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, durante a Operação Compliance Zero da Polícia Federal, sob suspeita de tentativa de fuga para Malta. Onze dias depois, ele foi solto por decisão da Justiça Federal de Brasília, mediante o uso de tornozeleira eletrônica. À época das abordagens aos influenciadores, Vorcaro cumpria medidas cautelares que incluíam a proibição de contato com outros investigados.

Thiago Miranda, de 39 anos, é proprietário da Agência MiThi, registrada como Miranda Comunicação na Receita Federal. Ele se tornou sócio do Grupo Leo Dias em uma operação anunciada em 2023, mas que, segundo documentos apresentados pela defesa do jornalista, foi formalizada apenas no ano seguinte. Leo Dias afirmou ainda que Vorcaro não possui qualquer participação societária no grupo. Atuante no mercado de comunicação, Miranda e sua agência mantêm contratos com celebridades, marcas de luxo e instituições financeiras, como a XP, mas ele não esclareceu quais seriam suas ligações com o dono do Banco Master.

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