Aprendizado em matemática cai após pandemia e afeta jovens em todo o país
IEE mostra queda nacional no desempenho em matemática no ensino médio entre 2019 e 2023, com impacto em todas as regiões do país
247 - O percentual de jovens que concluem o ensino médio até os 18 anos com aprendizado considerado adequado em matemática caiu de forma significativa no Brasil no intervalo entre 2019 e 2023, período que engloba os anos anteriores e posteriores à pandemia de Covid-19. Os dados revelam um retrocesso generalizado no domínio da disciplina, indicando que apenas uma parcela reduzida dos estudantes atinge o nível mínimo esperado ao fim da educação básica, segundo reportagem da Folha de São Paulo.
A conclusão faz parte do IEE (Índice de Inclusão Educacional), indicador que mede a proporção de jovens que finalizam a educação básica na idade adequada e com desempenho satisfatório em avaliações de proficiência. Desenvolvido pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura, o índice aponta que a média nacional de estudantes com aprendizagem adequada em matemática caiu de 25,5% em 2019 para 21,4% em 2023, uma redução de 4,1 pontos percentuais. Na prática, isso significa que apenas dois em cada dez jovens formados demonstram o conhecimento esperado na disciplina.
O índice combina informações do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), do Censo Escolar e da Pnad Contínua. No caso do Saeb, o patamar considerado adequado em matemática corresponde a 300 pontos em uma escala que vai até 500. Abaixo desse nível, os estudantes apresentam dificuldades para resolver problemas com porcentagens, interpretar gráficos e lidar com situações numéricas do cotidiano.
No cenário posterior à pandemia, nenhum estado brasileiro conseguiu garantir que ao menos 30% dos jovens alcançassem esse nível de aprendizado em matemática na idade correta. A queda atingiu todas as regiões do país, inclusive aquelas que apresentavam os melhores resultados antes da crise sanitária.
São Paulo, que liderava o ranking em 2019 com 35,2% dos jovens incluídos em matemática, registrou apenas 24,7% em 2023, uma queda de 10,5 pontos percentuais. Goiás, então o segundo melhor desempenho, recuou de 34,2% para 27,0%. Outros estados que figuravam entre os mais bem posicionados também sofreram perdas expressivas. O Paraná passou de 33,6% para 28,1%, o Distrito Federal caiu de 33,4% para 22,5%, e o Espírito Santo recuou de 32,8% para 27,7%. Minas Gerais apresentou redução semelhante, de 29,5% para 22,6%.
No restante das regiões Sul e Sudeste, os percentuais permaneceram abaixo de 30% em 2023. Santa Catarina caiu de 26,4% para 24,2%, o Rio Grande do Sul passou de 25,5% para 23,0%, e o Rio de Janeiro teve uma retração mais acentuada, de 23,6% para 17,1%.
Alguns estados apresentaram variações menores, mas ainda em patamares considerados baixos. A Paraíba passou de 21,5% para 16,0%, enquanto o Piauí recuou de 20,9% para 18,1%. As piores taxas concentraram-se no Norte e no Nordeste nos dois anos analisados. Em 2023, o Amapá registrou apenas 8,2% dos jovens com aprendizado adequado em matemática. O Pará ficou com 10%, o Amazonas com 10,2%, o Maranhão com 10,4% e a Bahia, que possui uma das maiores redes de ensino do país, atingiu 11,5%.
Para David Saad, diretor-presidente do Instituto Natura e cocriador do IEE, os números revelam um problema estrutural. “Tivemos uma geração excluída do aprendizado em matemática”, afirma. Segundo ele, embora o impacto da pandemia seja evidente, os dados indicam desafios mais profundos. “Esses jovens formados em 2023 foram muito impactados pela pandemia, claro, mas os dados indicam um problema maior”, avalia.
Saad também aponta a ausência de políticas públicas específicas para a área. “O Brasil faz isso muito bem com alfabetização, por exemplo. Foi criado um programa e estabelecido aonde queremos chegar”, diz. Em seguida, questiona: “Que política pública temos focada em matemática? É preciso um trabalho nessa direção”.
Em contraste com o desempenho em matemática, os indicadores de língua portuguesa mostraram maior resiliência no período analisado. A média nacional de jovens formados com aprendizado adequado na disciplina subiu levemente, de 27,2% em 2019 para 27,9% em 2023. O avanço foi impulsionado por estados como Espírito Santo, Ceará e Paraná, onde o índice passou de 34,5% para 35,7%.
Ainda assim, nem todos os estados escaparam de retrocessos em língua portuguesa. São Paulo, que detinha a maior porcentagem no período pré-pandemia, com 39,1%, caiu para 34,5% em 2023. Reduções semelhantes também foram registradas em Minas Gerais, Bahia e no Distrito Federal, indicando que, embora mais resistente, o aprendizado na área também sofreu impactos ao longo dos últimos anos.


