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Assédio atinge 74% das mulheres em capitais brasileiras, revela pesquisa

Levantamento mostra alta incidência de assédio em espaços públicos e transporte coletivo e aponta desigualdades de gênero no cotidiano

Campanha contra assédio a mulheres (Foto: Fernando Frazão/Ag.Brasil)

247 - Três em cada quatro mulheres brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio ao longo da vida, segundo dados da pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026, realizada em dez capitais do país. O levantamento indica que os episódios ocorrem principalmente em espaços públicos, como ruas, praças e transporte coletivo, informa a Folha de São Paulo.

O estudo foi conduzido pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pelo Ipsos-Ipec, com apoio do Sesc-SP e da Fundação Grupo Volkswagen, e ouviu 3,5 mil pessoas com mais de 16 anos residentes em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. As entrevistas foram realizadas online entre 2 e 27 de dezembro, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Espaços públicos concentram maior número de casos

De acordo com a pesquisa, 74% das mulheres afirmaram já ter sido vítimas de assédio em algum momento da vida. A maioria relatou que os episódios ocorreram em ruas ou outros espaços públicos, como praças, parques ou praias, cenário citado por 56% das entrevistadas.

O transporte público aparece logo em seguida, mencionado por 51% das participantes. Outros ambientes também foram apontados: 38% disseram ter sofrido assédio no local de trabalho, enquanto 28% afirmaram que a violência ocorreu dentro do ambiente familiar.

Casos também foram registrados em ambientes de lazer e deslocamento privado. Segundo o levantamento, 33% das mulheres relataram episódios em bares ou casas noturnas, e 17% disseram ter sido assediadas em transportes particulares, como táxis ou carros por aplicativo.

Subnotificação pode tornar cenário ainda mais grave

Para especialistas envolvidos na pesquisa, o número real de casos pode ser ainda maior do que o identificado. A supervisora da área de gestão da Fundação Volkswagen, Jennifer Caroline Luiz, afirmou que fatores emocionais e sociais podem dificultar o relato das vítimas.

"Existe a dor, a vergonha em admitir ter sido vítima dessa situação. Então, pode ser que o número seja maior, mas o formato da pesquisa, com entrevistas online, pode diminuir esse risco".

A pesquisadora também destacou que o grupo etário que mais relatou episódios de assédio foi o de 45 a 59 anos. Segundo ela, aspectos culturais podem explicar esse resultado.

"Se por um lado, mulheres mais jovens, da faixa de 16 a 24 anos, podem ter mais facilidade em reconhecer as situações de assédio e denunciá-las, por outro, as mulheres com mais idade vivem em um contexto em que o mais machismo é mais presente e foi mais naturalizado. Por isso, podem ter sofrido mais com esse tipo de situação".

Punição mais rigorosa é medida mais defendida

O levantamento também investigou quais políticas públicas os entrevistados consideram mais eficazes para combater a violência doméstica e familiar. Entre as mulheres, 59% apontaram como principal medida aumentar as penas para quem comete violência contra mulheres.

Outra iniciativa amplamente citada foi ampliar serviços de proteção e apoio às vítimas em todas as regiões das cidades, opção escolhida por 52% das entrevistadas.

Entre os homens, as duas propostas também apareceram como as mais mencionadas, com 48% defendendo o aumento das penas e 45% apoiando a expansão da rede de proteção.

Diferenças na percepção sobre igualdade de gênero

A pesquisa revelou ainda contrastes significativos entre homens e mulheres sobre a divisão de responsabilidades dentro de casa. 51% dos homens afirmaram que os afazeres domésticos são divididos igualmente entre os gêneros em seus lares.

Entre as mulheres, no entanto, apenas 29% consideram que existe divisão equilibrada das tarefas. Outros 43% afirmaram que elas acabam assumindo a maior parte das responsabilidades domésticas.

Também entre os homens, 28% reconheceram que o trabalho doméstico deveria ser compartilhado, mas admitiram que as mulheres acabam realizando a maior parte das tarefas.

Jennifer Caroline Luiz avaliou que essa diferença de percepção evidencia desigualdades persistentes.

"A sobrecarga feminina é mais percebida pelas próprias mulheres. Há uma tendência de alguns homens aumentarem a percepção de que o trabalho doméstico é uma responsabilidade compartilhada, mas eles acham que está sendo dividido igualmente, enquanto elas não percebem o mesmo. Isso traduz a desigualdade de gênero".

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