Auditores de fundos ligados à Reag e ao Banco Master alertavam desde 2019 sobre falta de documentos
Pareceres apontaram dificuldades para comprovar ativos, ausência de informações societárias e inconsistências em fundos citados pelo Banco Central
247 – Firmas de auditoria responsáveis por verificar as demonstrações financeiras de fundos de investimento ligados ao Banco Master emitiram, desde 2019, sucessivos pareceres indicando problemas de documentação, com indícios de irregularidades e fragilidades de controle.
A apuração foi publicada pela Folha de S.Paulo, que analisou relatórios de auditoria de fundos citados pelo Banco Central como parte de uma rede sob suspeita relacionada ao Master, em meio a investigações que incluem também a Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no mercado financeiro.
Relatórios apontaram obstáculos para comprovar ativos e estrutura de investimentos
Nos pareceres, os auditores relataram dificuldade para obter documentos capazes de atestar, por exemplo, o valor de ativos investidos e a inexistência de dados com detalhes societários de outros fundos que compunham as carteiras.
Para o levantamento, foram analisados relatórios de cinco dos seis fundos apontados pelo Banco Central como ligados ao Master: Hans 95, Maia 95, Olaf 95, Astralo 95 e Reag Growth. O fundo Anna, também citado na teia, não apresenta balanço auditado. O fundo Arleen, incluído na análise, não está entre os investigados, mas integra a cadeia de investimentos com relação com o Master.
Nos sistemas da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), os auditores adotaram principalmente dois tipos de conclusão: abstenção de opinião e opinião com ressalvas.
A abstenção ocorre quando o auditor não consegue obter evidências apropriadas e suficientes para emitir uma conclusão sobre as demonstrações. Já a opinião com ressalvas mantém um parecer positivo, mas sinaliza possíveis distorções, inconsistências ou descumprimento de normas contábeis.
Hans 95 concentrou o caso mais extremo, com 13 irregularidades citadas
O caso mais grave descrito nos relatórios envolve o Hans 95, auditado pela Next Auditores nos exercícios fiscais de 2019 a 2021. Em todos os relatórios houve apontamentos, mas no último a auditoria se absteve e listou 13 irregularidades na composição da carteira.
Entre os problemas, constaram cotas sem comprovação de aquisição — o que poderia indicar que elas não existiam —, ativos avaliados sem evidência suficiente e dependência de laudos antigos ou não auditados para sustentar os pareceres.
Maior entre os fundos que entraram no radar do Banco Central por fraudes envolvendo o Master, o Hans 95 possui mais de R$ 34,9 bilhões em ativos. Procurada, a Next afirmou que, por confidencialidade e regras de independência, não comenta trabalhos específicos, nem eventuais interações com reguladores. Em nota, declarou: “De forma geral, quando há limitações no acesso a informações ou evidências apropriadas e suficientes, o tema é tratado nos canais formais e, quando aplicável, refletido nos relatórios emitidos, em conformidade com as normas profissionais”.
Olaf 95 teve alerta sobre concentração em fundo não auditado
Em dezembro de 2024, a auditoria YPC Auditun comunicou à CVM que o Olaf 95, com R$ 19,4 bilhões em ativos, apresentava inconsistências. Segundo o relatório, o fundo mantinha 97% do patrimônio líquido alocado no fundo Hans 95 FIM IE CP, que não era auditado.
No ano anterior, o mesmo escritório já havia apontado ausência de demonstrações contábeis auditadas em outros dois fundos investidos pelo Olaf.
Para investigadores, o uso de camadas sucessivas de fundos teria servido para mascarar empréstimos do Master a empresas suspeitas de desviar dinheiro e inflar patrimônio. A lógica descrita é a de ativos supervalorizados circulando de um fundo para outro, com suspeita de que os destinatários finais seriam laranjas ligados a Daniel Vorcaro.
Procurada, a defesa de Vorcaro e do Banco Master não quis comentar.
Arleen, em liquidação, acumulou apontamentos sobre documentos e lastro
Atualmente em liquidação, o Arleen teve irregularidades indicadas em quatro relatórios da Next Auditores entre 2022 e 2025. Entre as faltas citadas estão evidências para conclusão sobre saldos finais do fundo, documentação societária atualizada, laudos de avaliação e demonstrações contábeis auditadas.
Embora não seja investigado formalmente, o Arleen passou a ser observado pelas autoridades por manter uma extensa relação de investimentos em fundos relacionados a Vorcaro e sócios do Master. Segundo a apuração, o Arleen investia em empreendimentos de familiares do ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal).
Reag é o elo administrativo e entrou no foco por suspeita de lavagem
O ponto de conexão entre os fundos é a Reag, que administra os veículos por meio de dois braços de sua holding: Reag Trust Administradora e Reag Distribuidora de Títulos.
A empresa é investigada na Operação Carbono Oculto por suspeita de lavagem de dinheiro do PCC e teve sua liquidação decretada pelo Banco Central nesta quinta-feira (15). Além de administradora, a Reag também atua como gestora e, em alguns casos, como custodiante dos fundos. Procurada, a companhia não se manifestou.
CVM, deveres fiduciários e o limite da fiscalização
A CVM é a autarquia responsável por acompanhar e fiscalizar o mercado de fundos de investimento. De acordo com advogados ouvidos na apuração, os relatórios de auditoria são reportados ao órgão, que pode acionar administradores e exigir explicações sobre divergências e inconsistências, avaliando depois possíveis implicações caso sejam detectadas ilegalidades.
Os deveres e obrigações dos fundos estão previstos na Resolução CVM 175. Em linhas gerais, o administrador atua como guardião do interesse do cotista, garantindo legalidade, informação e auditabilidade; o gestor decide investimentos e assegura documentação adequada; e o custodiante zela pelo lastro e controles independentes do funcionamento do fundo.
Caso a CVM comprove irregularidades na contrapartida dessas funções, pode instaurar processos sancionadores e aplicar medidas como troca de administrador ou custodiante, suspensão de captações e até liquidação.
Fontes ouvidas afirmaram que, em situações de irregularidade, a CVM deve acionar imediatamente os administradores, mas que o órgão enfrenta limitações de estrutura frente ao tamanho do mercado. O advogado Guilherme Champs, sócio do Champs Law, disse: “Infelizmente, a CVM não tem braço suficiente para investigar todo o mercado. É um órgão que age quase que por provocação. Os fundos prestam informações nos formulários de referência, mas geralmente casos de análise de irregularidades acontecem mais por denúncia do investidor ou de um administrador fiduciário que reporta”.
Procurada, a CVM informou que não comentaria casos específicos, mas afirmou que acompanha e analisa movimentações no mercado, tomando medidas cabíveis quando necessário. Em resposta citada na reportagem, declarou: “Sem prejuízo do acima exposto, ressaltamos que os fundos de investimento devem observar o disposto na Resolução CVM 175, que estabelece as regras aplicáveis à constituição, funcionamento e divulgação de informações dos fundos de investimento. No que se refere aos auditores independentes, estes devem cumprir as normas técnicas e profissionais emitidas pelo Conselho Federal de Contabilidade, bem como as normas específicas editadas pela CVM”.
WNT também aparece na cadeia e cita saída da gestão em 2024
Além da Reag, outra gestora mencionada nos fundos analisados é a WNT Gestora de Recursos, responsável por investimentos e desinvestimentos do Maia 95 e do Astralo 95 — fundo no qual Vorcaro tem participação na SAF do Atlético Mineiro.
Conhecida por atuar com empresas em dificuldades, a WNT tornou-se, em 2023, a maior acionista da Light. Em nota, informou que não teve acesso ao conteúdo das apurações em curso, disse permanecer à disposição das autoridades e afirmou: “A empresa esclarece ainda que deixou a gestão dos fundos desde 2024 e que nunca manteve nenhuma relação societária com os citados”.


