Cunhado de Daniel Vorcaro é apontado como cotista de fundos que compraram fatia da família Toffoli em resort no Paraná
Documentos indicam que Fabiano Zettel foi o único cotista do fundo Leal, que controlava o Arleen, usado para adquirir participação de R$ 6,6 milhões
247 – Uma apuração do jornal Estado de S. Paulo informa que o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, aparece como dono dos fundos de investimento que compraram parte da participação dos irmãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli no resort Tayayá, no interior do Paraná. Segundo a reportagem, a participação negociada valia R$ 6,6 milhões à época.
De acordo com documentos obtidos pelo jornal, a movimentação financeira de um fundo chamado Leal indicaria que Zettel foi seu único cotista entre 2021 e 2025. A partir desse fundo, e de outro veículo, o pastor teria se tornado sócio do empreendimento, com aportes de R$ 20 milhões destinados ao resort. A família do ministro é descrita como principal acionista do Tayayá no período em que os fundos passaram a integrar o negócio.
Como os fundos teriam chegado ao resort Tayayá
A reportagem descreve uma estrutura em cadeia dentro da Reag Investimentos. Zettel seria o único cotista do fundo Leal, que por sua vez seria o único cotista do fundo Arleen, ambos ligados à gestora. Segundo os documentos citados, o Arleen foi o fundo utilizado para comprar a participação da família Toffoli no resort, ao entrar, em setembro de 2021, como sócio de empresas responsáveis pelo empreendimento no Paraná.
Ainda conforme os registros mencionados, os R$ 20 milhões aportados por Zettel nos fundos teriam sido investidos na mesma cifra no Tayayá, estabelecendo uma parceria de negócios com os familiares do ministro por meio das empresas Tayayá Administração e Participações e DGEP Empreendimentos, além da Maridt S.A., empresa dirigida por José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, irmãos do ministro.
Compra de metade da participação e saída da sociedade em 2025
Segundo documentos da Junta Comercial do Paraná mencionados pelo jornal, o fundo Arleen teria comprado metade da participação societária da empresa dos irmãos do ministro nas duas companhias do resort, participação avaliada em R$ 6,6 milhões. O fundo e a família Toffoli teriam permanecido como sócios até 2025.
Entre fevereiro e julho de 2025, os irmãos, o primo do ministro e o fundo de investimentos teriam se retirado da sociedade para vender suas participações ao advogado Paulo Humberto Barbosa, que, segundo a reportagem, hoje aparece como único sócio e dono do empreendimento.
Relação com investigações e papel de Toffoli no STF
A apuração afirma que Dias Toffoli é relator, no STF, do inquérito ligado ao caso Master, que envolve também a Reag Investimentos, gestora dos fundos citados na transação. O ministro teria assumido a condução após aceitar um pedido da defesa de Daniel Vorcaro para que o caso fosse analisado no Supremo.
O texto também relata que Fabiano Zettel foi preso e depois solto no âmbito da mesma investigação, e que a prisão na segunda fase da Operação Compliance Zero ocorreu na terça-feira, 14, com soltura no mesmo dia após a deflagração da operação, “autorizada por Toffoli”, segundo a reportagem.
O que dizem Zettel e a defesa de Vorcaro
Ao jornal Estado de S. Paulo, Zettel confirmou vínculo com o fundo, mas afirmou ter se desligado do investimento antes do período final apontado nos documentos. Segundo o texto, ele declarou que “foi cotista do fundo e disse ter deixado o investimento em 2022; e que este foi liquidado em 2025”.
A defesa de Daniel Vorcaro, por sua vez, negou envolvimento com os fundos e com o resort. Em nota reproduzida pela reportagem, afirmou que não tem “qualquer conhecimento a respeito dos negócios dos referidos fundos” e que nunca foi cotista ou “participou de sua gestão”. Disse ainda que “não tem nem nunca teve informação ou participação em negócios relacionados ao resort ou quaisquer outros investimentos realizados por esses veículos” e acrescentou que “A defesa permanece colaborando com as autoridades e reitera que associações entre essas estruturas e o Sr. Vorcaro não correspondem à realidade”.
“Sem auditoria” e dúvidas sobre demonstrações financeiras
A reportagem destaca que o fundo Arleen teria sido aberto em 2021, com prazo de 20 anos, e que possuiria apenas um cotista, o fundo Leal, também gerido pela Reag. No início de novembro de 2025, uma assembleia de cotistas decidiu pela liquidação do Arleen, após a deflagração de uma operação policial que, segundo o texto, investiga o uso de fundos da gestora para lavagem de dinheiro.
O jornal afirma ainda que pareceres de auditoria entregues à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) registraram abstenção de opinião sobre a veracidade das demonstrações financeiras do Arleen por falta de documentos necessários para escrutinar ativos, citando o caso do próprio Tayayá. Também aponta que o fundo Leal não teria apresentado documentação suficiente a auditores independentes, impedindo a avaliação do valor justo de ativos.
Silêncio de citados e ausência de manifestação do resort
Procurados, Dias Toffoli, seus irmãos José Carlos e José Eugênio, a administração do resort e a Reag não se manifestaram, segundo a reportagem. O texto também ressalta que o ministro não teria participação direta no Tayayá, embora frequente o resort.
A apuração joga luz sobre um ponto sensível para a confiança pública nas instituições. Quando negócios privados, fundos sob investigação e relações empresariais se cruzam com a esfera de decisões no topo do Judiciário, a transparência e a pronta prestação de esclarecimentos passam a ser exigências básicas, sob pena de ampliar suspeitas e alimentar a percepção de conflitos de interesse.


