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Banco Central decreta liquidação do Banco Pleno, ex-Voiter, ligado ao grupo Master

Decisão do BC atinge instituição que enfrentava crise de liquidez e já esteve no centro de investigações no caso Master

Banco Pleno (Foto: Divulgação)

247 - O Banco Central decretou nesta quarta-feira (18) a liquidação extrajudicial do Banco Pleno, instituição que anteriormente operava sob o nome Voiter e que já integrou o conglomerado Master, alvo de investigações por suspeitas de fraudes financeiras. A medida representa mais um capítulo na sequência de intervenções recentes do BC em instituições associadas ao grupo. As informações são da Folha de São Paulo.

O Banco Pleno enfrentava dificuldades de liquidez e vinha buscando um investidor para conseguir manter suas operações. O banco, inclusive, estava impedido pelo BC de emitir novos CDBs (Certificados de Depósito Bancário), instrumento utilizado para captação de recursos.

Segundo a reportagem, a instituição atualmente pertence ao empresário Augusto Lima, que assumiu o controle após deixar a sociedade com Daniel Vorcaro em julho de 2025. Ambos foram presos no contexto da Operação Compliance Zero, mas posteriormente liberados com uso de tornozeleira eletrônica.

A proibição de emitir novos CDBs agravou a situação financeira do banco, dificultando o cumprimento de obrigações. Ainda de acordo com dados do mercado secundário citados no texto, os papéis do banco chegaram a ser negociados a 165% do CDI no fim de 2025, sinalizando forte desconfiança dos investidores.

Dados disponibilizados pelo Banco Central, referentes a junho de 2025, indicavam que o então Voiter possuía patrimônio líquido de R$ 672,6 milhões e lucro líquido de R$ 169,3 milhões. No entanto, o passivo era muito superior: R$ 6,68 bilhões, sendo R$ 5,4 bilhões concentrados em CDBs.

Em nota, o Banco Central afirmou que o conglomerado do Pleno detém apenas 0,04% do ativo total e 0,05% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional, o que sugere impacto limitado no sistema bancário como um todo, apesar da relevância do caso no contexto das investigações recentes.

A liquidação do Banco Pleno ocorre em meio a uma série de ações semelhantes adotadas pelo BC. Em 18 de novembro, foram anunciadas as liquidações do Master, do Master de Investimento, da Master Corretora e do Letsbank. Já em janeiro, a autoridade monetária liquidou a administradora de fundos Reag, no dia 15, e o Will Bank, no dia 21.

A crise do Banco Pleno, no entanto, não é recente. Conforme relatado, os problemas se arrastam desde o período em que a instituição operava com o nome Indusval, sob outros controladores. Com foco no financiamento empresarial e do agronegócio, o banco passou por reestruturações sucessivas em meio a prejuízos.

Em 2019, a instituição foi rebatizada como Voiter, como parte de uma estratégia de transformação digital, mas o plano não avançou como esperado. Em 2023, a Capital Consig chegou a apresentar uma oferta de compra, mas o negócio não se concretizou. Em fevereiro de 2024, o Master assumiu o controle.

Já em julho de 2025, o Banco Central autorizou a transferência do Voiter para Augusto Lima, que então rebatizou a instituição como Banco Pleno. A operação ocorreu no mesmo período em que o BC analisava a venda do conglomerado Master para o BRB (Banco Regional de Brasília), banco estatal do Distrito Federal.

Quatro meses depois, Lima foi preso. A autorização da transferência, segundo a reconstrução dos fatos apresentada na reportagem, foi concedida mais de um ano após sua saída formal do Master, ocorrida no fim de abril de 2024, quando ele vendeu sua participação na holding para Daniel Vorcaro.

Quem é Augusto Lima

A trajetória de Augusto Lima, conhecido como “Guga” entre amigos, é descrita como uma ascensão acelerada no setor financeiro. Em menos de dez anos, a partir da criação do Credcesta em 2018, ele saiu da Bahia, conquistou espaço no mercado da Faria Lima e expandiu operações de crédito consignado para 24 estados e 176 municípios.

Em novembro de 2025, Lima foi preso no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes em carteiras de crédito que o conglomerado Master teria vendido ao BRB.

Documentos e relatos de pessoas próximas apontam para uma trajetória marcada por estruturas empresariais complexas, relações societárias consideradas opacas e articulações políticas que o colocaram no centro do que descreve como um dos maiores escândalos financeiros das últimas décadas.

Nesse percurso, Lima teria utilizado diversos fundos para alavancar seus negócios e estabelecido laços com a Reag, instituição voltada ao setor de fundos de investimento. A Reag foi alvo, em agosto de 2025, da Operação Carbono Oculto, sob suspeita de atuar para o PCC, e acabou liquidada pelo Banco Central.

A PKL One, empresa proprietária do Credcesta, recebeu aumento de capital por meio do fundo Reag 34, posteriormente rebatizado de Diamond. Esse fundo passou a deter o controle da empresa e é administrado pela WNT, que foi citada na segunda fase da Compliance Zero.

Ainda segundo o material reunido pela reportagem, Augusto Lima declarou ganhos milionários em uma operação envolvendo ações da Akaa Empreendimentos e cotas do Murrien 41, que receberam investimentos do fundo Hans 95 — um dos alvos da Operação Carbono Oculto.

Nascido em Salvador, em uma família de classe média, Lima cursou economia em uma universidade particular. Antes de ingressar no mercado financeiro, trabalhou com venda de abadás. Sua entrada no setor ocorreu por meio da Terra Firme da Bahia, fundada em 2001 para atuar como correspondente de instituições financeiras. Nos anos seguintes, ele criou outras empresas no segmento e ajudou a estruturar associações de servidores como Asteba e Asseba, que ofereciam serviços, inclusive financeiros, a funcionários públicos.

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