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MP junto ao TCU pede investigação de festas de Vorcaro com "altas autoridades da República"

Ministério Público junto ao Tribunal de Contas quer apurar presença de autoridades em eventos de Vorcaro e citados em investigações sobre o Master

MP junto ao TCU pede investigação de festas de Vorcaro com "altas autoridades da República" (Foto: Divulgação)

247 - O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) apresentou representação para que seja instaurado procedimento destinado a identificar autoridades federais que teriam participado de eventos realizados na casa de veraneio do então banqueiro Daniel Vorcaro, em Trancoso, na Bahia. O pedido, revelado pela Folha de São Paulo, aponta indícios de que integrantes dos Três Poderes estiveram presentes nas celebrações.

De acordo com documento datado de 29 de janeiro, os encontros, chamados de “Cine Trancoso”, “teriam contado com a presença de altas autoridades dos Três Poderes da República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico”. A representação menciona reportagem da revista digital Liberta sobre os eventos no litoral baiano e também cita apuração publicada pela própria Folha de São Paulo em setembro de 2025.

Os registros indicam que Vorcaro alugou o imóvel por temporadas entre 2021 e 2022, quando a propriedade ainda pertencia à empresária Sandra Habib, esposa de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil. Posteriormente, empresas ligadas ao banqueiro adquiriram a casa. A venda passou a integrar processo judicial que descreve conflitos ocorridos no período em que ele ainda era locatário.

Mensagens de WhatsApp anexadas ao processo revelam a indignação da então proprietária com os acontecimentos na residência. Em conversa com o corretor responsável pela intermediação do aluguel, Sandra escreveu em 5 de outubro de 2022: “O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas! Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior”. Segundo ela, o número de convidados ultrapassava 30 pessoas, apesar de o contrato estabelecer limite de 20. A empresária também afirmou que houve apresentação de grupo de pagode com som elevado, o que teria provocado queixas de vizinhos e acionamento de autoridades locais e ambientais.

A apuração da Folha de São Paulo junto a 13 executivos, empresários e integrantes de órgãos públicos indica que os eventos não se restringiram à Bahia. Relatos apontam que celebrações semelhantes ocorreram em diferentes cidades do Brasil e no exterior. Em São Paulo, encontros regulares teriam ocorrido em área reservada de um hotel. Nos bastidores políticos e financeiros, as festas tornaram-se tema recorrente, especialmente com o avanço das investigações relacionadas ao caso Master.

Segundo interlocutores ouvidos, os eventos eram descritos como sofisticados e restritos a grupos selecionados, com presença de políticos de diferentes partidos e executivos de instituições públicas, como bancos e fundos de previdência. Há relatos de que celulares não eram permitidos nos ambientes. Ainda assim, a denominação “Cine Trancoso” alimentou a percepção de que imagens teriam sido registradas pelo anfitrião. Circularam rumores de que a Polícia Federal teria acessado conteúdos no celular de Vorcaro, mas a corporação não se manifestou.

Pessoas que afirmam ter presenciado ou ouvido relatos sobre as festas mencionam recepção feita por mulheres descritas como modelos, algumas delas estrangeiras. As descrições citam nacionalidades como croata, ucraniana e russa. Também são relatados serviços de alto padrão, com cardápio que incluía caviar e bebidas de elevado valor comercial, como vinhos Petrus, La Tâche e Armand Rousseau, além de uísque Macallan.

Entre os episódios mais comentados está um encontro realizado durante a Semana do Brasil, em Nova York, tradicional agenda de empresários e autoridades. A festa promovida por Vorcaro teria ocorrido após compromissos oficiais. 

O noticiário sobre o caso Master também revelou transações envolvendo empresa ligada a Vorcaro e uma autodeclarada “sugar baby”, termo usado para designar jovem que mantém relacionamento com parceiro mais velho e financeiramente estável. Foi mencionado o caso de Karolina Trainotti, que recebeu apartamento avaliado em quase R$ 4,4 milhões, doado pela Super Empreendimentos em 2024.

Em nota enviada à Folha de São Paulo, a defesa de Daniel Vorcaro declarou que “repudia as informações e alegações apresentadas, que se baseiam em fonte não fidedigna e em relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresário”. Os advogados acrescentaram que “as afirmações divulgadas não correspondem à realidade dos fatos e reproduzem versões descontextualizadas, já anteriormente apontadas à imprensa como parte de tentativa de extorsão e de constrangimento público”.

A defesa também afirmou que “a divulgação de conteúdos carregados de juízo moral, dissociados de qualquer relevância jurídica, contribui apenas para a criação de ilações e para a indevida invasão da esfera privada, reforçando um ambiente de pré-julgamento incompatível com o devido processo legal, com o porte deste veículo de imprensa e com os jornalistas envolvidos”. Segundo a nota, “a defesa, que não teve acesso a nenhum documento até agora, entende que esse tipo de abordagem integra um movimento mais amplo de difamação, voltado à tentativa de influenciar a percepção pública antes da conclusão das apurações”.

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