Ex-presidente do BRB quer novo depoimento à PF no caso Master
Paulo Henrique Costa diz que segue colaborando e nega irregularidades
247 – O ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo Henrique Costa mantém conversas com a Polícia Federal e já pediu para prestar um novo depoimento no caso que apura suspeitas de fraudes envolvendo o banco Master e a instituição pública do Distrito Federal.
A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo, que ouviu três pessoas a par das investigações sob condição de anonimato. Segundo esses relatos, as tratativas não configuram, até agora, uma colaboração oficial, mas estariam em estágio avançado.
Pressão por esclarecimentos e hipótese de delação premiada
Investigadores avaliam que Costa pode ampliar o nível de cooperação, inclusive por meio de uma eventual delação premiada, instrumento pelo qual um investigado fornece informações às autoridades em troca de benefícios legais, como redução de pena ou até perdão judicial.
No centro do inquérito está a apuração sobre possível falsificação de documentos para sustentar que não teria havido irregularidades na compra, pelo BRB, de carteiras de crédito consignado sem lastro do Master, no valor de R$ 12,2 bilhões. A PF também investiga a entrega de outros bens em troca desses ativos apontados como fraudados.
A apuração inclui ainda a suspeita de participação do banqueiro Daniel Vorcaro e de sócios na compra de ações do BRB por meio de fundos vinculados à gestora Reag.
O que diz Paulo Henrique Costa: “colaborando integralmente” e negação de irregularidades
Procurado, Costa afirmou que permanece à disposição das instituições e disse que sua atuação busca contribuir para o esclarecimento do caso no menor tempo possível.
"Minha colaboração é no estrito sentido de confiar nas instituições, no devido processo legal e fornecer todas as informações ao meu alcance para que tudo seja esclarecido o mais breve possível", respondeu ele, por mensagens.
O ex-presidente também negou irregularidades e sustentou que atuou dentro das atribuições do cargo e em defesa dos interesses do BRB, apontando decisões colegiadas e procedimentos internos como base de suas ações.
"Tenho convicção de que sempre atuei no estrito papel que me cabia como presidente do BRB e na defesa dos interesses do BRB, com base em decisões colegiadas, boas práticas e cumprindo o planejamento estratégico do banco", declarou.
Costa informou ainda que está reunindo documentos para apresentar em novo depoimento, inclusive sobre uma comunicação feita ao Banco Central a respeito dos fundos que passaram a se tornar acionistas do BRB.
Sobre a possibilidade de delação, ele rechaçou a necessidade.
"Nunca nem falamos sobre isso."
Suspeita sobre fundos, Vorcaro e a operação Compliance Zero
A defesa de Costa sustenta à PF que seu papel foi técnico e que ele poderia ajudar não apenas a compreender as operações envolvendo o BRB, mas também eventuais desdobramentos investigativos. Ainda assim, Costa figura como um dos investigados.
De acordo com a apuração jornalística, um dos pontos que ampliaram a suspeita sobre a antiga gestão do BRB foi a “participação oculta” de Daniel Vorcaro na instituição, o que colocou em xeque a atuação de gestores anteriores, incluindo Costa.
Após a nova administração do BRB entregar à PF o resultado de uma auditoria externa, foi aberto um inquérito neste mês para apurar se a gestão anterior sabia quem estava por trás dos fundos e se teria facilitado, ou agido de alguma forma, para que pessoas investigadas na operação Compliance Zero se tornassem acionistas do banco do Distrito Federal.
Cronologia do caso: liquidação do Master, afastamento e STF
Costa foi afastado do comando do BRB no mesmo dia em que ocorreram dois marcos centrais do caso, a liquidação do Master pelo Banco Central e a deflagração da operação Compliance Zero pela Polícia Federal, que prendeu o dono do banco, Daniel Vorcaro, em 17 de novembro.
No fim de dezembro do ano passado, Costa, Vorcaro e o diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, tiveram de depor no STF (Supremo Tribunal Federal) por determinação do então relator do processo, o ministro Dias Toffoli.
Depois dos depoimentos, ocorreu uma acareação entre o ex-presidente do BRB e o banqueiro. O sigilo foi levantado em 30 de janeiro, permitindo a divulgação de trechos e pontos de divergência.
Divergência central: de onde vinham os créditos considerados falsos
Durante a acareação, Costa e Vorcaro não concordaram sobre a origem dos créditos classificados como falsos, calculados em R$ 12,2 bilhões.
Vorcaro afirmou que o BRB tinha conhecimento de que as carteiras eram originadas por terceiros, e não pelo Master.
"A gente chegou a conversar por algumas vezes que a gente começaria um novo formato de comercialização [de carteiras de crédito], que seria de terceiros, carteiras originadas por terceiros e não mais originação própria", declarou Vorcaro.
Costa apresentou versão diferente, sustentando que, pelo seu entendimento, os créditos teriam sido originados no próprio Master.
"Meu entendimento é que eram carteiras originadas pelo Master que haviam sido vendidas ou negociadas a terceiros e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente", disse o ex-presidente do BRB.
Ainda segundo Costa, a ligação direta com a Tirreno só teria sido identificada entre abril e maio do ano passado, após análises técnicas apontarem um padrão documental distinto nos contratos. Ele explicou que a detecção tardia ocorreu porque a identificação do originador final do crédito não costuma integrar os documentos usados nas análises de risco.
PF mantém silêncio e caso segue em apuração
Até a publicação da reportagem, a Polícia Federal não respondeu ao pedido de informações. Enquanto isso, o caso avança sob forte pressão por responsabilizações e com foco em dois eixos, a cadeia documental que teria sustentado as operações e a estrutura de participação acionária, via fundos, que colocou sob suspeita a governança do banco público do Distrito Federal.
Com a intenção declarada de depor novamente e com a promessa de apresentar documentos, Paulo Henrique Costa tenta se reposicionar no tabuleiro da investigação, ao mesmo tempo em que reafirma publicamente sua negativa de irregularidades e sua disposição de colaborar com as autoridades.


