Boulos enfrenta reação no governo após revogação de decreto sobre hidrovias na Amazônia
Anúncio feito por Boulos gerou queixas de Casa Civil, AGU e pastas ligadas à infraestrutura e agricultura
247 - O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, tornou-se alvo de críticas internas no governo federal após atuar diretamente pela revogação de um decreto presidencial que tratava do programa de concessão de hidrovias na região amazônica. A decisão foi negociada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se encontra em viagem à Ásia, em meio ao aumento da pressão de comunidades indígenas contrárias ao projeto.
As informações foram publicadas pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo, que relatou o desconforto de diferentes áreas do governo diante do recuo. Segundo a reportagem, ministérios como Casa Civil, Advocacia-Geral da União (AGU), Portos e Aeroportos e Agricultura manifestaram insatisfação com a condução do processo.
O decreto previa a concessão de hidrovias na Amazônia como parte de um programa voltado ao escoamento de produção, especialmente agrícola. No entanto, o projeto enfrentava resistência de povos indígenas da região do Tapajós, no Pará, que afirmam que a ampliação do uso dos rios para transporte de cargas ameaça seus territórios e seu modo de vida.
Nos últimos dias, os protestos ganharam força. Indígenas realizaram manifestações em instalações da multinacional Cargill, gigante do agronegócio, em Santarém (PA), e também em São Paulo. A mobilização elevou a tensão política em torno do tema e pressionou o governo a rever sua posição.
De acordo com a coluna, na segunda-feira (23), Boulos tratou diretamente com Lula sobre a revogação do decreto. O anúncio oficial ocorreu em reunião no Palácio do Planalto, com a presença da ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, além de lideranças indígenas e representantes de movimentos sociais.
A decisão provocou reação imediata entre ministérios que atuam nas áreas jurídica, de infraestrutura e de produção agrícola, que teriam sido impactados pela mudança. Ainda segundo a publicação, houve queixas formais de integrantes dessas pastas quanto à revogação do decreto.
Apesar da insatisfação interna, prevaleceu no governo o entendimento de que a escalada do conflito poderia aprofundar a tensão com uma base social estratégica, especialmente em ano eleitoral. O cálculo político, conforme relatado pela Folha, considerou o risco de desgaste com setores que historicamente compõem a sustentação do governo.


