Brasil não deve entrar em pacto dos EUA sobre minerais críticos
Tema será discutido por Lula e Donald Trump em março, mas Planalto rejeita “camisa de força” e quer dominar processamento
247 - O governo brasileiro avalia que o Brasil não deve aderir à aliança proposta pelos Estados Unidos para tratar de minerais críticos e estratégicos, considerados fundamentais para a economia global e para setores como tecnologia de ponta e transição energética. A iniciativa estadunidense prevê a criação de um bloco comercial voltado a influenciar a produção, o refino e os preços desses recursos.
Segundo o G1, o Brasil sinalizou sua posição ao enviar um diplomata de baixo escalão para participar de uma reunião convocada pelo governo estadunidense com 54 países e a União Europeia. De acordo com fontes do Palácio do Planalto, a participação brasileira ocorreu principalmente para acompanhar o debate e entender os objetivos da proposta.
Proposta dos EUA mira controle global e disputa com a China
Na reunião realizada na quarta-feira (4), os Estados Unidos apresentaram o plano de estruturar uma aliança internacional voltada ao controle do mercado de minerais críticos. A intenção, segundo o governo americano, seria reduzir a influência da China, que hoje domina parte expressiva da cadeia produtiva global desses materiais.
O tema é considerado estratégico por envolver minerais usados em chips de celulares e computadores, além de insumos essenciais para a transição energética. A pauta também deve entrar na agenda do encontro que está sendo articulado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, previsto para março na Casa Branca.
Planalto vê riscos e evita papel de fornecedor de matéria-prima
No entendimento de integrantes do governo brasileiro, a proposta estadunidense representa uma limitação excessiva à autonomia do Brasil no setor. Internamente, o Palácio do Planalto avalia que o pacto seria uma “camisa de força”, desenhado para atender principalmente aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.
O Brasil possui a segunda maior reserva de minerais críticos e terras raras do mundo, atrás apenas da China. Por isso, a avaliação do governo Lula é de que não há vantagem em assumir um papel restrito de fornecedor de matéria-prima, ou de manter reservas disponíveis para exploração futura conforme a conveniência de Washington.
A cautela brasileira também busca evitar a repetição de um padrão histórico em que o país exporta recursos naturais sem processamento e sem agregação de valor, limitando ganhos industriais e tecnológicos.
Brasil aposta em negociações bilaterais com múltiplos parceiros
Outro ponto levantado por fontes do Planalto é que a proposta dos EUA contraria a estratégia brasileira de ampliar interlocuções com diversos atores internacionais. Segundo o governo, o Brasil pretende manter espaço para negociar não apenas com os Estados Unidos, mas também com União Europeia, China e Índia.
Apesar da disposição para dialogar com diferentes blocos e potências econômicas, o governo Lula considera que, num primeiro momento, essas tratativas devem ocorrer de forma bilateral, sem a adesão imediata a estruturas multilaterais que restrinjam a liberdade de negociação.
Tema deve avançar em reunião Lula-Trump e viagens internacionais
A expectativa do governo brasileiro é de que o debate sobre minerais críticos ganhe destaque nas próximas agendas internacionais do presidente Lula. O tema deve ser tratado durante viagens previstas para este mês à Índia e à Coreia do Sul.
Apesar da decisão de não integrar a aliança proposta por Washington, integrantes do governo avaliam que a negativa não deve comprometer a relação entre Lula e Donald Trump, mantendo aberto o diálogo político e econômico entre os dois países sobre o tema.


