Ciro Nogueira vira fator de desgaste para bolsonarismo, diz Miguel Paiva
No Giro das Onze, comentarista avaliou que o avanço do caso Banco Master sobre Ciro Nogueira pode abalar alianças da direita e afetar 2026
247 - O avanço das investigações sobre o Banco Master e seus possíveis reflexos sobre o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, pode alterar o cenário político da direita e atingir diretamente a articulação bolsonarista para 2026, avaliou o cartunista e comentarista Miguel Paiva no Giro das Onze, da TV 247, nesta sexta-feira (8).
Miguel afirmou que a chegada do caso Banco Master a Ciro Nogueira representa uma mudança relevante no ambiente político, por envolver uma figura central do Centrão, ligada ao campo bolsonarista e com influência nas alianças nacionais e regionais.
Segundo o cartunista, o escândalo envolvendo o Banco Master surpreendeu pela dimensão, mas não pelo tipo de relação que, em sua avaliação, sustenta parte da política brasileira. Ele afirmou que a crise revela estruturas de financiamento e poder que agora começam a aparecer de forma mais clara.
“O Banco Master foi uma surpresa para todos nós. O noticiário foi surpreendente, nós todos ficamos boquiabertos com as notícias, com a dimensão do escândalo”, disse Miguel. “Mas é óbvio que o escândalo era o grande sustentáculo desta república deles, porque é muito dinheiro para sustentar essa gente toda.”
Para o comentarista, a investigação tende a avançar sobre personagens próximos ao núcleo político do caso. Ao comentar a situação de Ciro Nogueira, Miguel ressaltou que o senador tem direito à defesa e a ser representado por um advogado de sua escolha, mas avaliou que o cenário político se tornou mais difícil para o presidente do PP.
“É evidente que vai envolver todo mundo, começando pelos próceres da República, como o Ciro Nogueira”, afirmou. “É um direito do Ciro Nogueira e do Kakai se defenderem, e é direito que o Ciro Nogueira tem um advogado do porte do Kakai para defender, porque vai ser um problema.”
Miguel Paiva também associou o avanço do caso a uma possível inflexão no quadro político nacional. Para ele, a sucessão de denúncias, investigações e desgastes envolvendo lideranças da direita pode enfraquecer a capacidade de mobilização do bolsonarismo.
“Uma hora a casa cai e começou a cair”, declarou. “Não é possível se sustentar tanta mentira, tanta corrupção, tanto roubo, tanta prepotência deles em relação ao país, em relação à população, em relação ao projeto Brasil.”
Ao tratar dos efeitos eleitorais, Miguel afirmou que o impacto pode alcançar a candidatura de Flávio Bolsonaro. No programa, ele disse perceber uma postura mais contida do senador diante do novo cenário.
“Eu acho que vai ter um impacto na candidatura do Flávio. Considerável”, disse. “Você vê que ele está miudinho, miudinho.”
O comentarista também analisou a atuação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou medidas no âmbito da investigação. Miguel avaliou que Mendonça pode estar buscando construir uma imagem própria no tribunal, distanciando-se do papel de ministro indicado por Jair Bolsonaro.
“Eu acho que ele está querendo construir uma imagem mais forte para ele”, afirmou. “Como ele vai continuar no Supremo ainda por muitos anos, eu acho que ele está querendo construir uma imagem mais forte.”
Na avaliação de Miguel, a condução do caso pode funcionar como um reposicionamento institucional de Mendonça. Ele lembrou que, uma vez no Supremo, ministros tendem a buscar trajetória própria, independentemente de quem os indicou.
“Depois que ele está lá dentro, ele tem que construir a vida própria dele”, disse. “Você não é mais puxa-saco de ninguém, você é um ministro do Supremo.”
Miguel também comentou a rejeição de Jorge Messias pelo Senado para uma vaga no STF. Para ele, o episódio foi uma demonstração de força política contra o governo Lula e revelou um comportamento truculento de setores da oposição.
“Essa rejeição ao Messias foi uma exibição de nulidades, de truculência, festejando como gol”, afirmou. “Só não vê quem é trouxa, ou quem não quer ver, que aquilo ali foi uma rejeição política.”
O encontro entre o presidente Lula e Donald Trump também foi abordado na entrevista. Miguel avaliou que a reunião teve importância diplomática e política, especialmente porque impediu que a direita brasileira explorasse Trump contra Lula.
“Os dois têm que se encontrar e têm que se dar bem para o bem da relação diplomática e comercial entre Brasil e Estados Unidos”, disse. “Quem faz uso político disso é a direita. Então, que bom que a direita não pode fazer uso político disso, porque foi justamente o contrário do que eles esperavam.”
Para Miguel, Lula soube conduzir a reunião com sobriedade, sem transformar o encontro em espetáculo. Ele destacou que a conversa de três horas demonstrou disposição de diálogo entre os dois presidentes.
“A reunião dos dois demorou três horas, o que é muito importante, porque uma reunião em que você não gosta de estar, você vai embora”, afirmou. “O fato de o Trump não ter dado entrevista depois é porque ele não tinha muito a dizer.”
Na entrevista, Miguel também discutiu o mau humor social no Brasil e o endividamento das famílias. Ele afirmou que o fenômeno precisa ser observado em várias dimensões, incluindo custo de vida, juros, consumismo, precarização e o crescimento das apostas online.
“Eu fico querendo saber se a grande responsável por esse endividamento do brasileiro são as apostas, as bets”, disse. “Se as bets viraram um fenômeno nesse país, que participação tem isso nesse endividamento?”
O comentarista avaliou que as bets não explicam sozinhas o problema, mas têm impacto relevante sobre a vida de uma população já pressionada por dificuldades econômicas. Segundo ele, a aposta funciona como uma promessa ilusória de solução rápida.
“As apostas refletem sempre esse vício que o brasileiro tem na solução divina, na solução fora de você”, afirmou. “A população se endivida e paga o que não tem para essa solução divina.”
Miguel também associou o desânimo social a um projeto político de desmobilização coletiva. Para ele, a direita atua para afastar a população da política e reduzir a participação popular nas decisões sobre o país.
“Eu acho que esse mau humor do brasileiro tem a ver um pouco com o projeto da direita, que está dando certo, que é o projeto da demonização da política”, disse. “O brasileiro está de saco cheio da política.”


