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Dark Horse precisaria superar recordes históricos para recuperar suposto investimento milionário

Filme teria de arrecadar mais de R$ 300 milhões para compensar aporte

Dark Horse precisaria superar recordes históricos para recuperar suposto investimento milionário (Foto: Divulgação )
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247 - O filme Dark Horse, produção inspirada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, precisaria alcançar uma bilheteria sem precedentes no cinema brasileiro para recuperar o suposto investimento milionário atribuído ao banqueiro Daniel Vorcaro. A informação foi publicada pela BBC News Brasil, que ouviu produtores, distribuidores e executivos do setor audiovisual sobre a viabilidade econômica do longa.

O senador Flávio Bolsonaro admitiu ter solicitado milhões de reais a Vorcaro para financiar o projeto. Já a produtora Go Up Entertainment e o deputado federal Mario Frias (PL-SP), roteirista do filme, negam ter recebido recursos diretamente do banqueiro, que está preso e não comentou o caso.

As versões apresentadas pela família Bolsonaro e pelos envolvidos na produção divergem. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, inicialmente afirmou que apenas cedeu os direitos de uso de sua imagem, mas posteriormente reconheceu ter firmado contrato para atuar na gestão financeira do longa.

De acordo com Flávio Bolsonaro, em entrevista à GloboNews, Vorcaro entrou no projeto como investidor em busca de retorno financeiro. Especialistas ouvidos pela BBC, porém, consideram extremamente improvável que o filme consiga gerar receita suficiente para compensar um aporte estimado em R$ 134 milhões.

Filme teria de superar maiores sucessos da história nacional

Na avaliação de profissionais da indústria cinematográfica consultados pela reportagem, Dark Horse precisaria arrecadar mais de R$ 300 milhões apenas para devolver o valor supostamente investido pelo banqueiro. O cálculo considera um cenário considerado “generoso” pelo setor, em que a distribuidora ficaria com apenas 15% da receita das bilheterias.

Ainda assim, a conta não incluiria os custos totais de produção, como cachês de atores, equipe técnica, pós-produção e marketing. Caso essas despesas sejam incorporadas, o filme teria de superar marcas históricas do cinema nacional.

Para efeito de comparação, todos os filmes brasileiros lançados em 2025 arrecadaram juntos cerca de R$ 215 milhões. Já Minha Mãe É uma Peça 3, estrelado por Paulo Gustavo, somou R$ 143,8 milhões em bilheteria, enquanto Divertida Mente 2 ultrapassou os R$ 400 milhões no Brasil.

Indústria vê dificuldades comerciais

Especialistas entrevistados pela BBC afirmam que o projeto apresenta fragilidades comerciais importantes. Um dos principais obstáculos seria a necessidade de uma campanha de divulgação extremamente robusta, semelhante às realizadas pelos grandes estúdios de Hollywood.

O mercado cinematográfico opera com divisões rígidas de receita. Tradicionalmente, cerca de metade da arrecadação fica com os cinemas. Da parcela restante, distribuidoras costumam absorver entre 20% e 30%, especialmente quando investem em campanhas de marketing de grande escala.

Segundo profissionais do setor, é comum que os gastos com divulgação sejam equivalentes — ou até superiores — ao custo de produção do filme.

Além disso, o longa ainda não possui previsão oficial de estreia, nem registro público na Agência Nacional do Cinema (Ancine) ou classificação indicativa no Ministério da Justiça.

Público potencial enfrenta limitações estruturais

Outro desafio apontado pela reportagem envolve a distribuição das salas de cinema no país. O Brasil possui atualmente cerca de 3.553 salas em 890 cinemas, concentrados principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

A BBC destaca que muitas cidades onde Bolsonaro obteve forte desempenho eleitoral sequer possuem salas de exibição. Entre os dez municípios em que o ex-presidente teve proporcionalmente mais votos no segundo turno de 2022, nenhum conta com cinema.

Nos Estados considerados mais bolsonaristas, a estrutura também é limitada. Roraima possui apenas três cinemas em funcionamento, Rondônia conta com nove complexos e o Acre tem somente duas salas.

Na avaliação de produtores e diretores ouvidos pela reportagem, isso demonstra que popularidade política não garante automaticamente sucesso comercial nas telonas.

Streaming também não resolveria equação financeira

A possibilidade de lançamento em plataformas digitais ou no streaming também é vista com cautela pelo mercado. Embora possa ampliar o alcance da produção, especialistas afirmam que a receita obtida nesses formatos costuma ser muito inferior à do circuito tradicional de cinemas.

Em plataformas gratuitas, como o YouTube, a monetização depende de publicidade e gera receitas consideradas baixas. Já serviços de streaming pagos normalmente adquirem os direitos de exibição por valores fixos, independentemente do número de visualizações.

Segundo os profissionais consultados pela BBC News Brasil, o streaming costuma funcionar apenas como uma “segunda janela” de exploração comercial, complementando a arrecadação dos cinemas, licenciamento para TV e venda de produtos derivados.

Produção aposta em astro de Hollywood

Dark Horse é estrelado pelo ator americano Jim Caviezel, conhecido mundialmente por interpretar Jesus Cristo em A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson em 2004.

Embora o filme tenha sido gravado em inglês e tenha um protagonista internacional, especialistas consideram improvável que a produção alcance grande impacto no mercado externo. A avaliação é que o projeto não se encaixa no perfil normalmente buscado por festivais e distribuidores internacionais.

Para os analistas ouvidos pela BBC, transformar um longa-metragem em fenômeno de público exige uma combinação complexa de fatores, incluindo distribuição ampla, marketing agressivo, calendário estratégico de lançamento e forte presença comercial — algo muito diferente da lógica de viralização das redes sociais.

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