Digimais trocou auditoria após alertas de suspeita de fraude contábil
Banco Central identificou irregularidades e determinou correções nos balanços
247 - O banco digital Digimais, alvo da Operação Miragem da Polícia Federal, substituiu sua auditoria independente após sucessivos alertas sobre inconsistências na avaliação de cotas de fundos registradas em seus balanços. As informações, segundo o jornal O Globo, integram o conjunto de evidências analisadas pelas autoridades em uma investigação que apura possíveis fraudes contábeis.
De acordo com a Polícia Federal, o banco controlado por empresas ligadas ao grupo do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, é suspeito de ter supervalorizado ativos para melhorar artificialmente seus resultados financeiros e ocultar dificuldades patrimoniais.
Em nota, o Digimais afirmou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as investigações. A instituição declarou que mantém compromisso com "a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes".
Manobra apontada pelo Banco Central
Um dos principais elementos da investigação é um relatório de supervisão bancária do Banco Central encaminhado ao Ministério Público Federal. O documento aponta uma suposta manobra contábil de aproximadamente R$ 670 milhões relacionada à valorização de cotas de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs).
De acordo com as apurações, ativos avaliados em cerca de R$ 71 milhões teriam sido registrados nos resultados financeiros do banco por R$ 741,3 milhões por meio de uma estrutura envolvendo fundos de investimento.
O Banco Central identificou a operação ainda em 2023 e determinou a correção dos demonstrativos financeiros da instituição. Segundo a representação apresentada pela Polícia Federal à Justiça, o Digimais solicitou que os efeitos dos ajustes fossem distribuídos ao longo de cinco anos.
Ressalvas da auditoria
A auditoria das demonstrações financeiras de 2023 foi realizada pela Grant Thornton, que registrou ressalvas ao afirmar não ter conseguido verificar adequadamente a mensuração das cotas de fundos registradas pelo banco.
No relatório, a consultoria informou que não conseguiu concluir se os ativos estavam contabilizados por valor justo devido à ausência de parâmetros de mercado que permitissem validar as premissas utilizadas pela instituição financeira.
Naquele período, o Digimais informou possuir R$ 855,5 milhões em cotas de fundos de direitos creditórios avaliadas a valor justo, operação que gerou receitas superiores a R$ 520 milhões.
Além disso, a auditoria destacou que o banco havia apresentado ao Banco Central um plano de recomposição de capital e de reestruturação da governança corporativa, incluindo aumento de capital de R$ 250 milhões e provisões prudenciais de R$ 200 milhões para cobrir possíveis perdas.
Mudança de auditoria
As ressalvas da Grant Thornton foram repetidas na análise do primeiro semestre de 2024. A empresa voltou a informar que não possuía elementos suficientes para validar os valores atribuídos aos fundos.
Posteriormente, o Digimais substituiu a auditoria pela CLA Brasil. Os relatórios relativos ao encerramento de 2024 e ao primeiro semestre de 2025 não apresentaram ressalvas sobre a mensuração dos ativos, embora tenham registrado a existência dos apontamentos feitos pela auditoria anterior.
Questionamentos voltaram em 2025
Os problemas reapareceram no balanço referente ao encerramento de 2025. A CLA Brasil informou ter encontrado limitações relevantes para verificar investimentos em diferentes classes de fundos.
Segundo a auditoria, dos R$ 4,233 bilhões aplicados nesses ativos, cerca de R$ 3,098 bilhões estavam sujeitos a restrições que impediram a obtenção de evidências consideradas suficientes para validar os registros contábeis.
No parecer, a empresa afirmou que não foi possível concluir sobre eventuais ajustes necessários nas demonstrações financeiras do banco devido à insuficiência de informações e documentos.
Operação com controladora entrou na mira
A investigação também analisa uma operação de compra e venda a prazo de cotas de FIDCs no valor de R$ 741,349 milhões para a controladora B.A. Empreendimentos e Participações.
Segundo a Polícia Federal, a transação teria sido utilizada para contornar determinações do Banco Central relacionadas à correção de ativos considerados artificialmente inflados.
A CLA Brasil destacou ainda a reversão líquida de aproximadamente R$ 126 milhões em provisões constituídas anteriormente e observou que a operação poderia não refletir condições usuais de mercado.
No relatório, a auditoria registrou que não obteve evidências suficientes para concluir sobre a correta classificação da operação, a mensuração dos ativos envolvidos e os efeitos contábeis decorrentes da transação.


