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Em acareação, Vorcaro e ex-presidente do BRB divergem sobre origem de carteiras de crédito

Confronto na Polícia Federal expõe versões contraditórias sobre papéis vendidos pelo Banco Master ao banco público

Em acareação, Vorcaro e ex-presidente do BRB divergem sobre origem de carteiras de crédito (Foto: Divulgação)

247 - A acareação realizada no âmbito do inquérito que investiga operações entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) evidenciou contradições centrais sobre a origem das carteiras de crédito vendidas ao banco público. De um lado, o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Master, afirmou que não sabia que os papéis negociados pertenciam à empresa Tirreno. Do outro, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, sustentou que a informação recebida era de que os ativos eram do próprio Master.

A divergência foi registrada durante o confronto de versões conduzido pela Polícia Federal e divulgada inicialmente pelo G1, que acompanha o caso envolvendo suspeitas de falhas de governança e possível auxílio irregular ao Banco Master em meio a dificuldades de liquidez.

Segundo Vorcaro, o que foi comunicado ao BRB, durante as negociações, foi apenas uma mudança no modelo de negócios do Master, com a venda de carteiras originadas por terceiros, sem referência específica à Tirreno. Ele afirmou não ter conhecimento, naquele momento, de que os papéis vendidos eram da empresa, que posteriormente se mostraram desvalorizados.

“Na verdade a gente anunciou que a gente faria vendas naquela ocasião de originadores terceiros. A Tirreno, nem eu mesmo sabia naquela ocasião, se eu não me engano, que existiu o nome Tirreno. Acho que a gente chegou a conversar por algumas vezes que a gente começaria um novo formato de comercialização, que seria de terceiros, carteiras originadas por terceiros e não mais originação própria”, declarou Vorcaro.

A investigação da Polícia Federal aponta uma série de operações consideradas suspeitas entre o Banco Master e o BRB. Os investigadores apuram se houve omissão por parte da diretoria do banco público e falhas nos mecanismos de prudência e governança na aquisição de carteiras de crédito que chegaram a representar cerca de 30% dos ativos totais da instituição. Para a PF, esse volume pode indicar uma tentativa de socorro irregular ao Master, que enfrentava problemas para honrar títulos com vencimento em 2025.

De acordo com o inquérito, o Banco Master teria adquirido créditos da empresa Tirreno sem efetuar pagamento e, em seguida, revendido esses mesmos ativos ao BRB, que desembolsou aproximadamente R$ 12 bilhões na operação.

Durante a acareação, Vorcaro foi questionado se havia informado explicitamente que se tratava de créditos de terceiros. Ele respondeu afirmativamente, embora tenha dito não se recordar da data exata em que a comunicação ocorreu.

“A gente chegou a conversar em algum momento que teria essa comercialização desse novo tipo de carteira”, afirmou.

Paulo Henrique Costa, porém, apresentou entendimento distinto. Segundo ele, o BRB foi informado de que as carteiras haviam sido originalmente originadas pelo Master, depois negociadas com terceiros e, posteriormente, recompradas para revenda ao banco público.

“O entendimento que eu coloquei é que eram carteiras originadas pelo Master, negociadas com terceiros, e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente”, disse o ex-presidente do BRB.

Vorcaro contestou essa versão e negou que tenha havido recompra por parte do Master. Segundo ele, os créditos vinham de empresas que já atuavam no mesmo ambiente de negócios do banco, mas não tinham sido originados pela instituição.

“Eram carteiras dos mesmos originadores que faziam originação para o Master, mas não especificamente originadas por nós”, declarou.

Outro ponto de discordância diz respeito à documentação apresentada na venda das carteiras. Questionado se os documentos entregues ao BRB identificavam o originador dos créditos, Vorcaro afirmou não ter conhecimento detalhado do procedimento e avaliou que essa informação não era relevante para a análise de risco.

Paulo Henrique Costa, por sua vez, afirmou que a documentação normalmente inclui planilhas com dados detalhados — como CPF, data de originação, valor e taxa — além de amostras de contratos e comprovantes de averbação, mas sem a identificação explícita do originador. Para Vorcaro, o critério central sempre foi o risco do tomador final.

“O risco final é o cliente na ponta. Quem originou não é relevante no processo de risco”, afirmou.

Em nota divulgada posteriormente, a defesa de Paulo Henrique Costa afirmou que as aquisições de carteiras de crédito do Banco Master tiveram início em julho de 2024, no curso regular das atividades bancárias, antes de qualquer discussão societária. Segundo os advogados, as operações seguiram o planejamento estratégico e os ritos de governança do BRB.

A defesa sustenta que, ao identificar ativos com padrão documental distinto, o banco público atuou de forma técnica e diligente, adotando medidas de contenção, comunicando a autoridade supervisora, exigindo garantias adicionais e substituição de ativos, com acompanhamento do Banco Central.

Sobre a operação societária anunciada em março de 2025, os advogados afirmam ser incorreta a classificação como tentativa de salvamento do Master. De acordo com a nota, a transação envolveu áreas técnicas e assessores externos independentes, foi submetida às instâncias colegiadas de governança e condicionada à segregação de ativos e passivos não alinhados à estratégia do banco, que totalizaram R$ 51,2 bilhões. A defesa também afirma que o depoimento de Paulo Henrique Costa foi prestado com “clareza, consistência e compromisso com a verdade” e que sua atuação sempre esteve orientada “exclusivamente pelo interesse do BRB”.

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