Entenda como funcionava o Will Bank, liquidado pelo BC
Banco digital criado para ampliar a inclusão financeira chegou a 9 milhões de clientes, mas acabou atingido pela liquidação do Banco Master
247 - O Banco Central anunciou nesta quarta-feira (21) a liquidação do Will Bank, banco digital que havia se destacado nos últimos anos por sua atuação voltada à população de baixa renda e pela forte presença no Nordeste. Criada em 2017, a instituição apostou em operações totalmente digitais e em produtos como cartão de crédito sem anuidade para atrair clientes historicamente excluídos do sistema bancário tradicional.
O Will Bank integrava o conglomerado do Banco Master e chegou a alcançar cerca de 9 milhões de clientes no ano passado, impulsionado por campanhas intensas na televisão e nas redes sociais. A liquidação ocorre após o agravamento da situação financeira do Master, considerado irrecuperável pelo órgão regulador.
Com a decisão do Banco Central, o Will Bank passa a enfrentar o desafio de honrar aproximadamente R$ 6,5 bilhões em CDBs (Certificados de Depósito Bancário), conforme dados mais recentes do BC, referentes a setembro de 2025. Esses investimentos, no entanto, são elegíveis à cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), respeitado o limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
O banco digital foi adquirido pelo Banco Master no início de 2024. Naquele momento, o Will já somava cerca de 6 milhões de clientes e havia registrado um faturamento de R$ 2,8 bilhões no ano anterior. Pouco depois, em março de 2025, o BRB (Banco de Brasília) anunciou a compra do Banco Master, com a estratégia de usar a instituição como porta de entrada no mercado de serviços digitais e ampliar sua atuação junto às classes C e D. A operação, no entanto, acabou rejeitada pelo Banco Central em setembro do mesmo ano.
Em novembro, o BC deu início ao processo de liquidação do Banco Master, medida adotada quando a autoridade conclui que a situação de uma instituição financeira não tem possibilidade de recuperação. Nesses casos, o funcionamento do banco é interrompido e ele é excluído do Sistema Financeiro Nacional. Durante a intervenção, o Will Bank chegou a ser preservado diante do interesse de investidores em adquirir a fintech, numa tentativa de reduzir parte do passivo do Master, controlado por Daniel Vorcaro.
Como revelou a Folha de S.Paulo, nomes como o apresentador Luciano Huck e o fundo Mubadala Capital, braço de investimentos alternativos do fundo soberano de Abu Dhabi, chegaram a avaliar a compra do Will Bank ao longo do ano passado. Desde então, a instituição operava sob um regime especial de administração temporária do Banco Central, mecanismo que permite a continuidade das atividades enquanto se buscam alternativas para minimizar perdas ao FGC e a outros credores, além de autorizar a venda do banco mediante aprovação do interventor.
Apesar disso, as negociações avançaram lentamente, mesmo após a liquidação do Banco Master. Nesta semana, um novo obstáculo surgiu quando a bandeira Mastercard decidiu suspender a aceitação de cartões emitidos pelo Will Bank, após a instituição deixar de honrar pagamentos. A suspensão ocorreu depois que transações realizadas por consumidores não foram liquidadas pelo banco na segunda-feira (19), junto a diferentes participantes da indústria de cartões. A medida busca impedir o aumento do valor devido pela instituição.
De acordo com dados do Banco Central, o Will Bank encerrou setembro do ano passado com R$ 14,2 bilhões em ativos e um patrimônio líquido negativo de R$ 76,2 milhões. Ainda assim, no terceiro trimestre de 2025, a instituição registrou lucro líquido de R$ 408,3 milhões, o que evidencia o contraste entre o crescimento operacional e os problemas estruturais que culminaram na liquidação.


