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“Faria Lima foi fiadora da irresponsabilidade no caso Master”, diz José Dirceu

Ex-ministro afirma que colapso expõe falhas estruturais da regulação financeira e um modelo que transfere riscos ao investidor comum

“Faria Lima foi fiadora da irresponsabilidade no caso Master”, diz José Dirceu (Foto: Lula Marques/ Agência Brasil)

247 - O ex-ministro José Dirceu afirmou em artigo publicado na Folha de São Paulo que o caso Master não pode ser tratado como um episódio isolado ou um simples erro de gestão, mas como o resultado direto de uma arquitetura financeira baseada em baixa regulação, elevada opacidade e incentivos permanentes à irresponsabilidade no mercado.

Segundo Dirceu, o colapso envolvendo o Master, inicialmente associado ao BRB (Banco de Brasília) e posteriormente também ao Will Bank, ambos liquidados, “revela, de forma contundente, as fragilidades de um sistema regulatório que falhou em sua missão básica”. Para o ex-ministro, a crise expôs a incapacidade do Estado de proteger investidores, preservar a estabilidade financeira e impedir a recorrente socialização de prejuízos privados.

No artigo, Dirceu sustenta que o problema ultrapassa um banco específico e assume caráter estrutural. Ele afirma que o país vive “uma crise estrutural da regulação do mercado financeiro e de capitais”, marcada pela tolerância — e até estímulo — à captura da poupança popular por meio de “produtos de alto risco disfarçados de investimentos seguros”.

Ao analisar o papel das autoridades, o ex-ministro aponta para a flexibilização adotada durante a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central. Segundo ele, prevaleceu uma visão dogmática de mercado autorregulado, acompanhada da redução deliberada da supervisão substantiva. Esse ambiente teria permitido a proliferação de estruturas societárias opacas, ativos de difícil mensuração e níveis excessivos de alavancagem.

Dirceu também critica o esvaziamento progressivo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Para ele, a autarquia perdeu capacidade operacional, autonomia política e instrumentos eficazes para fiscalizar um mercado cada vez mais complexo, concentrado e financeirizado. “Em ambos os casos, trata-se de um modelo defendido, articulado e protegido pela Faria Lima”, afirma no texto.

Na avaliação do ex-ministro, plataformas digitais de investimento tiveram papel central nesse processo. Ele escreve que essas empresas passaram a atuar como “verdadeiros canais de distribuição de risco sistêmico”, promovendo CDBs como produtos “seguros” e explorando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como um selo de confiabilidade absoluta. Segundo Dirceu, consolidou-se a falsa ideia de que “risco elevado e segurança plena podem coexistir”.

Para o autor, essa construção não foi acidental. “A Faria Lima foi a principal fiadora desse modelo”, afirma, ao lembrar que o discurso dominante classificava qualquer reforço regulatório como atraso, intervencionismo ou ameaça à inovação. O resultado, diz ele, foi um mercado que “premia a irresponsabilidade” e se sustenta na expectativa implícita de que o Estado sempre intervirá para evitar um colapso sistêmico.

Dirceu também atribui responsabilidade a auditores, entidades autorreguladoras e agentes financeiros. Segundo ele, esses atores “sabiam — ou tinham todas as condições técnicas para saber — dos riscos envolvidos”, mas optaram pelo silêncio, que define como “uma escolha política e econômica” funcional a um modelo lucrativo para poucos e perigoso para muitos.

No texto, o ex-ministro afirma ainda que o Banco Central não pode se eximir de responsabilidade ao priorizar uma leitura restrita da estabilidade monetária e indicadores formais de solvência, negligenciando riscos sistêmicos fora de seu radar convencional. Paralelamente, a CVM teria passado a atuar de forma reativa, sempre a reboque dos acontecimentos, enquanto a Receita Federal permaneceu isolada de informações estratégicas.

Esse quadro de fragmentação institucional, segundo Dirceu, favoreceu a exploração de brechas regulatórias e a arbitragem institucional por grandes grupos financeiros. O Estado, afirma, chega sempre tarde, pressionado pelo fato consumado e pelo risco de contaminação do sistema.

Diante desse cenário, o ex-ministro defende uma reforma profunda do Fundo Garantidor de Créditos, argumentando que o mecanismo não pode continuar funcionando como “fiador silencioso da irresponsabilidade privada”. Ele sustenta que o FGC precisa ter sua governança revista, com contribuições proporcionais ao risco assumido, limites mais rigorosos por instituição e a proibição explícita de seu uso como instrumento de marketing.

Ao concluir, Dirceu afirma que o caso Master-BRB-Will deve ser encarado como um ponto de inflexão. Para ele, a financeirização descontrolada da economia brasileira não fortaleceu o desenvolvimento nacional, não ampliou o crédito produtivo nem democratizou o acesso à riqueza, mas criou bolhas, fragilizou instituições e aprofundou desigualdades, evidenciando a necessidade de um Estado regulador forte e integrado.

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