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Faria Lima lavou R$ 26 bilhões para o PCC, aponta o Ministério Público

MP aponta uso de fintechs, contas-bolsão e empresas de fachada em esquema bilionário de lavagem ligado ao PCC

Faria Lima lavou R$ 26 bilhões para o PCC, aponta o Ministério Público (Foto: Gerada por IA)
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247 - Fintechs da Faria Lima voltaram ao centro das investigações sobre lavagem de dinheiro ligada ao PCC após o Ministério Público de São Paulo apontar movimentações suspeitas de quase R$ 26 bilhões em um esquema que envolvia empresas de fachada, adulteração de combustíveis, fundos de investimento e plataformas de pagamento digital, informa o G1

Segundo o Ministério Público de São Paulo, mesmo após a deflagração da Operação Carbono Oculto, em 2025, o grupo investigado não teria interrompido suas atividades. Pelo contrário, os promotores afirmam que houve expansão das operações, aumento no desvio de nafta, solvente petroquímico importado, e criação de novas empresas usadas para ocultar recursos de origem ilícita.

A nova fase da operação, batizada de Fluxo Oculto, foi deflagrada nesta quinta-feira (28) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Receita Federal. A ação cumpre 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Os principais alvos são empresários, operadores logísticos e pessoas apontadas como laranjas do esquema. De acordo com a investigação, eles teriam continuado a atuar mesmo depois de operações policiais anteriores, reorganizando empresas, alterando quadros societários e migrando recursos entre fintechs para dificultar o rastreamento financeiro.

O MP afirma que a organização vinculada ao PCC manteve um modelo sofisticado de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, com atuação em diferentes etapas da cadeia econômica. O esquema, segundo os promotores, envolvia desde a adulteração de gasolina com solventes até o uso de instituições financeiras digitais e fundos de investimento para ocultar patrimônio.

Como funcionava o uso das fintechs

Um dos focos da operação desta quinta-feira foi o acesso às chamadas contas gráficas, registros internos mantidos pelas fintechs para identificar os verdadeiros donos dos valores movimentados em contas centralizadoras abertas em bancos tradicionais.

Essas contas centralizadoras são conhecidas como “contas-bolsão”. Elas funcionam como uma única conta bancária em nome da fintech, usada para reunir e movimentar recursos de diversos clientes. Para o banco tradicional, o titular formal é apenas a fintech, e não cada pessoa física ou jurídica que depositou dinheiro.

De acordo com o MP, esse modelo criou uma zona de opacidade no sistema de prevenção à lavagem de dinheiro. Quando o dinheiro entrava na “conta-bolsão”, o banco via apenas a fintech como titular. A identificação do CPF ou CNPJ de cada cliente ficava registrada no sistema interno da instituição de pagamento, por meio da “conta gráfica”.

Com o acesso a esses registros internos, os investigadores afirmam ter conseguido mapear origem, destino, remetente e beneficiário de transações relacionadas ao esquema. Para os promotores, as fintechs e plataformas de pagamento funcionaram como “dutos financeiros” do grupo criminoso.

Investigação aponta reestruturação do esquema

Segundo a apuração, a organização investigada teria se reestruturado rapidamente após as operações anteriores. Uma das estratégias citadas pelo MP foi a concentração das movimentações de dezenas de postos de combustíveis em uma única conta. Em um dos casos identificados, as operações de 56 postos eram feitas por meio da mesma conta bancária.

Os investigadores também apontam que o grupo passou a substituir empresas expostas por novas pessoas jurídicas e a transferir valores entre diferentes fintechs. O objetivo, segundo o MP, era manter a lavagem de dinheiro e a ocultação de patrimônio mesmo após o avanço das investigações.

A apuração atribui a liderança do esquema a Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, chamado de “Beto Louco”. Os dois estão foragidos desde agosto do ano passado, em razão da Operação Tank, deflagrada pela Polícia Federal no mesmo dia da Carbono Oculto.

Os dois tentaram fechar acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo, mas a proposta foi rejeitada pelos promotores. Para o MP, eles teriam omitido informações sobre lavagem de dinheiro, conexões com o PCC e corrupção policial.

Fintechs e movimentações suspeitas

A investigação cita diferentes instituições de pagamento e empresas associadas à movimentação dos recursos. Entre elas estão BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group.

Segundo os relatórios de inteligência financeira, a Smart Solutions Group movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de metade desse valor direcionada apenas à GGX Global, holding de postos apontada como integrante do grupo criminoso. A Ceopag, por sua vez, registrou movimentações atípicas em curto período: R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos.

No total consolidado desta frente financeira, relatórios de inteligência apontaram movimentações atípicas de cerca de R$ 3,86 bilhões. Já no conjunto mais amplo da investigação, o MP menciona movimentações suspeitas próximas de R$ 26 bilhões.

A investigação também aponta conexões entre algumas empresas e pessoas já investigadas por supostos vínculos com o PCC. A Yaw teria se ligado ao esquema por meio da Shelby Holdings, associada a Ricardo Romano, investigado por ligações com a facção. A Sispay, segundo a apuração, teria vínculos com Luiz Sérgio Ferreira da Mota, alvo de operações anteriores relacionadas à chamada máfia dos ônibus.

A "máfia do nafta" e a adulteração de combustíveis

Outra frente da operação mira o desvio de nafta, solvente petroquímico importado usado de forma irregular para adulterar gasolina automotiva. De acordo com o MP, empresas do setor emitiam notas fiscais falsas para simular a venda do produto a indústrias químicas de fachada.

Essas empresas de fachada, segundo a investigação, eram registradas em nome de laranjas, muitas vezes pessoas vulneráveis ou beneficiárias de programas sociais, e em endereços fictícios. Na prática, o produto não chegava às supostas empresas compradoras.

Os caminhões, conforme apontam os promotores, desviavam a rota e entregavam o solvente diretamente em distribuidoras e terminais terrestres. Depois, o produto era misturado à Gasolina Tipo A e revendido ao consumidor final em postos de combustíveis.

A investigação afirma que o esquema desviou mais de 135 milhões de litros de nafta em pouco mais de dois anos. Apenas a Petrodansk, segundo o MP, teria emitido mais de 10.076 notas fiscais falsas, em operações que somaram R$ 1,49 bilhão.

O prejuízo estimado com sonegação fiscal supera R$ 200 milhões, considerando a diferença tributária entre os solventes petroquímicos e a gasolina automotiva.

Empresas, operadores e laranjas na cadeia do combustível

Na frente da adulteração de combustíveis, a investigação cita Raffaele Vestenius Masi e Aldo Antônio Masi como titulares e gestores de fato da Petrodansk. João Eduardo de Albuquerque é apontado como gestor operacional. A empresa SMAX também aparece na apuração como emissora de notas relacionadas à fraude.

O MP também menciona Ítalo Giovanni Bergamo como responsável por coordenar o recrutamento de laranjas e a emissão de documentos de transporte. Igor de Souza Amorim e Gilmar Amorim são citados na área logística.

Michele Gomes Vieira Silva e Simone Alves de Oliveira, segundo a investigação, atuaram na abertura de dezenas de empresas de fachada, entre elas MGK, Zurk e Kore Transportes. Entre os destinos reais do produto, o MP aponta a Distribuidora Saara, a Petroriente Distribuidora e os terminais terrestres Tercom, em Paulínia, e Arujá Terminais.

Fundos de investimento na ocultação patrimonial

A terceira frente da operação investiga o uso de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados, os FIDC-NP, para mascarar beneficiários e dar aparência formal a pagamentos relacionados à cadeia de combustíveis adulterados.

Segundo o MP, empresas de fachada emitiam boletos que eram pagos pelos fundos. As cessões de crédito, contudo, teriam ocorrido sem deságio e com prazos muito curtos, em alguns casos de apenas um dia. Para os investigadores, essa dinâmica indicaria operações fictícias usadas como camada adicional de lavagem de dinheiro.

Os fundos citados na investigação são Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global. Também aparecem na apuração Guilherme Mourão Vaz, diretor da Actual DTVM/Gran Capital; Edward Bertelli Júnior, da Libertas Asset; e Luis Roberto Zaratin Soares, da Ello Gestora.

Na ponta dos beneficiários, a investigação menciona Gledson Pacheco e Antônio Correa de Freitas Junior, ligados à Nova Rubília Instituição de Pagamento e à Distribuidora Saara, além de Guilherme Ali de Paula, da Pix Card e da Atena FIP.

Bloqueio de bens mira patrimônio dos fundos

Para fins de bloqueio de bens, a operação mirou o patrimônio líquido dos fundos apontados como instrumentos do esquema. Segundo as informações da investigação, os valores são de R$ 85 milhões no Zeus FIDC-NP, R$ 72 milhões no Gran Capital FIDC-NP e R$ 47 milhões no FIDC DB Crédito Global.

A defesa dos citados não foi localizada, conforme informado no material original. A nova fase da operação busca aprofundar o rastreamento do dinheiro, identificar os beneficiários finais das operações e interromper os mecanismos financeiros usados para ocultar recursos ligados à adulteração de combustíveis, à sonegação fiscal e à lavagem de dinheiro.

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