Flávio Bolsonaro decepciona investidores e aumenta dúvidas sobre plano econômico
Apresentação no BTG é vista como vaga e sem equipe econômica definida
247 - O senador Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para conquistar a confiança do mercado financeiro no início de sua tentativa de se consolidar como principal candidato da direita na eleição presidencial deste ano. Investidores e participantes de eventos recentes avaliam que o parlamentar ainda não apresentou um projeto econômico consistente nem demonstrou capacidade de reunir uma equipe de peso para sustentar suas promessas.
As informações foram publicadas pela Bloomberg, que ouviu quatro participantes da conferência de CEOs do BTG Pactual nesta semana. Segundo esses relatos, a participação do senador — realizada por vídeo, e não presencialmente — foi vista como um momento decisivo perdido, marcada por falta de detalhamento e por propostas consideradas genéricas.
Falta de detalhes e promessas vagas frustram o mercado
De acordo com pessoas presentes no encontro do BTG, Flávio Bolsonaro apresentou um discurso baseado em promessas amplas de redução de impostos e ajustes na política fiscal, mas sem explicar como pretende executar essas medidas. Para investidores, a ausência de um plano estruturado reforçou a percepção de que não há, até o momento, uma ruptura clara com as diretrizes econômicas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A avaliação de parte do público que acompanhou a conferência é que o senador não conseguiu aproveitar o espaço para construir credibilidade junto ao setor financeiro, que busca alternativas consideradas mais alinhadas ao mercado para disputar a eleição de outubro.
Flávio cita Guedes e Campos Neto, mas enfrenta resistências
Nos bastidores, o senador tem mencionado nomes associados à agenda econômica do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro como possíveis aliados. Segundo a Bloomberg, Flávio Bolsonaro tem citado o ex-ministro da Economia Paulo Guedes como conselheiro informal e, em conversas privadas, chegou a levantar a possibilidade de atrair o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o economista Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro e ex-economista-chefe do BTG.
No entanto, fontes próximas aos citados afirmaram que a articulação encontra obstáculos. Guedes estaria disposto a permanecer distante do cenário político, enquanto Campos Neto, atualmente no setor privado, estaria confortável em sua nova função no Nubank. Já Mansueto Almeida não mantém contato com Flávio Bolsonaro há cerca de cinco anos, segundo pessoas familiarizadas com a relação entre ambos.
Senador diz que prepara “plano de Brasil” com “Tesouraço”
Procurado para comentar as críticas, Flávio Bolsonaro afirmou que trabalha em um projeto mais amplo, que chama de “plano de Brasil”. Em resposta enviada à Bloomberg, declarou estar “organizando não um plano de governo, mas um plano de Brasil, com foco em modernização do Estado, digitalização e simplificação de processos e de burocracia, forte compromisso com o fiscal e redução da carga tributária — um conjunto de ações que está reunido sob o símbolo do Tesouraço”.
Segundo a publicação, Guedes, Campos Neto e Mansueto não responderam aos pedidos de comentário.
Ataques a Lula marcaram tom e pioraram impressão no evento
Em vez de apresentar uma plataforma econômica detalhada, Flávio Bolsonaro adotou um discurso agressivo contra Lula durante sua participação na conferência do BTG. Segundo a Bloomberg, o senador chamou o presidente de “produto vencido” e comparou Lula a um carro que “não te leva a lugar nenhum e ainda bebe muito”.
A abordagem foi interpretada por parte do público como um sinal de fragilidade política e ausência de propostas estruturadas, agravando a percepção negativa entre investidores.
Mercado preferia Tarcísio e vê candidatura ainda sem estrutura
Ainda conforme o relato da Bloomberg, muitos integrantes do mercado financeiro preferiam que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, fosse o principal representante da direita. Mesmo assim, acabaram aceitando Flávio Bolsonaro como alternativa após ele receber, em dezembro, o apoio do pai para disputar a Presidência.
A publicação destaca que, nas semanas seguintes ao anúncio de sua candidatura, o senador viajou ao exterior em busca de interlocução com líderes da extrema direita e maior projeção internacional. Mesmo no evento do BTG, ele teria afirmado que ainda era cedo para definir quem seria seu futuro ministro da Fazenda.
Comparação com 2018 expõe fragilidade atual
Investidores também enxergam uma diferença relevante em relação à campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018. Naquele ano, Paulo Guedes já havia sido apresentado como principal formulador econômico do projeto bolsonarista ainda no início da corrida eleitoral, oferecendo ao mercado uma referência clara sobre a condução da política fiscal e o programa de privatizações.
No caso de Flávio Bolsonaro, o cenário é descrito como incerto. Segundo a Bloomberg, cresce entre investidores o receio de que o candidato, apesar de ser visto como principal adversário de Lula, não tenha estrutura, equipe nem propostas suficientes para cumprir o que promete.
Um dos participantes do evento do BTG resumiu a percepção afirmando que Flávio Bolsonaro se parece fisicamente com o pai, mas não apresenta o mesmo carisma e habilidade política, além de não ter conseguido sustentar uma narrativa econômica forte o bastante para atender às expectativas do mercado.
Pesquisa mostra disputa apertando no segundo turno
Apesar das dúvidas do setor financeiro, Flávio Bolsonaro aparece em crescimento nas pesquisas. Um levantamento Genial/Quaest divulgado na quarta-feira (12) apontou Lula na liderança com 43%, contra 38% do senador em um cenário de segundo turno.
A diferença, no entanto, diminuiu em relação aos dois meses anteriores, quando o presidente tinha vantagem de 10 pontos percentuais, sinalizando que o candidato da direita vem reduzindo a distância.


