Fundo da Reag que recebeu R$ 450 milhões em operação do Master multiplicou patrimônio em 30 mil vezes em 20 dias
O Fundo Brain Cash recebeu R$ 450 milhões oriundos de uma operação de crédito do Banco Master
247 - Com apenas 20 dias de existência, um fundo administrado pela gestora Reag chamou a atenção de autoridades financeiras ao registrar uma multiplicação patrimonial considerada fora de qualquer parâmetro de mercado. O Fundo Brain Cash recebeu R$ 450 milhões oriundos de uma operação de crédito do Banco Master e, em um curto intervalo de tempo, ampliou seu patrimônio em cerca de 30 mil vezes. As informações foram reveladas em reportagem de O GLOBO e passaram a ser apuradas pelo Banco Central (BC) e pelo Ministério Público Federal (MPF).
Segundo a apuração, a suspeita central é de que a valorização extraordinária decorreu de reavaliações indevidas de ativos de baixa liquidez, sem correspondência com ganhos econômicos reais. O Brain Cash teve apenas uma operação registrada em seu balanço e contava com um único cotista: uma empresa comandada por uma ex-funcionária da própria Reag.O fundo foi registrado em 5 de abril de 2024 com patrimônio inicial de apenas R$ 15 mil. Seu regulamento previa investimentos em crédito privado, incluindo dívidas corporativas e títulos de renda fixa emitidos por bancos. O único investidor era a Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, empresa que, até poucos meses antes, tinha capital social praticamente simbólico.
Em 24 de abril, às 15h22, apenas 20 dias após a criação do fundo, o Brain Cash recebeu um aporte de R$ 450 milhões do seu cotista único. Dois dias antes, a empresa havia contratado um empréstimo de R$ 459 milhões junto ao Banco Master. O valor do crédito representava 0,43% do capital social da empresa, que havia passado de R$ 100 para R$ 2,2 milhões cerca de quatro meses antes da operação.
A movimentação dos recursos ocorreu em ritmo acelerado. Cerca de uma hora e meia após o aporte, o dinheiro foi transferido integralmente para o Fundo D Mais, também administrado pela Reag. Esse fundo detinha em sua carteira títulos considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).A sequência de transações seguiu em questão de minutos. Três minutos após receber os recursos, o Fundo D Mais repassou os mesmos R$ 450 milhões ao FIDC High Tower para liquidar parte da aquisição de papéis do Besc. De acordo com a investigação, esses ativos de baixíssima liquidez teriam sido reavaliados para um valor de R$ 10,8 bilhões, o que resultou em uma rentabilidade declarada de 10.502.205,65% em 2024.
Para efeito de comparação, no mesmo período, a principal criptomoeda do mundo apresentou valorização próxima de 120% em dólar, enquanto o ouro teve alta de 61,6% em reais. A discrepância reforçou as suspeitas de que os ganhos registrados pelos fundos não refletiam a realidade econômica dos ativos.
A partir dessa operação inicial, investigadores identificaram uma cadeia de transações consideradas atípicas, com recursos circulando por diferentes fundos ligados à Reag, muitas vezes de forma fracionada. A hipótese é de que essa estrutura em camadas teria como objetivo inflar artificialmente o valor dos ativos, gerando resultados extraordinários apenas no papel.
Outro ponto sob investigação é o possível retorno dos recursos ao próprio Banco Master. Segundo as apurações, após passarem por diversos fundos, os valores teriam sido reaplicados em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal instrumento de captação do banco no mercado financeiro.
Procurada, a Reag afirmou “que os recursos mencionados decorrem de operações de crédito estruturadas cujos desembolsos estavam vinculados ao avanço de projetos específicos” e que, “por determinação contratual, a liberação das parcelas só poderia ocorrer após a confirmação de marcos de execução e aprovação técnica desses projetos”. A gestora acrescentou que, “enquanto tais condições não eram verificadas, os valores não podiam ser utilizados e deveriam permanecer aplicados em instrumentos financeiros vinculados ao próprio credor”.
Segundo a Reag, esse tipo de estrutura seria “amplamente utilizado no mercado de crédito estruturado, assegura que os recursos permaneçam alocados e preservados até que os projetos atinjam suas fases de implementação e autorização formal”. O Banco Master foi procurado, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem.A gestora também está no radar da Operação Carbono Oculto, deflagrada no ano passado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. A investigação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) envolvendo o setor de combustíveis e empresas financeiras.
Ao menos três fundos administrados pela Reag que mantiveram operações com o Banco Master — Hans 95, Reag Growth e Anna FIC — constam na lista de investigados da operação, conforme revelou reportagem do UOL em novembro de 2025. Segundo a Polícia Federal, a dinâmica de repasses relâmpagos entre fundos se assemelha a estruturas já identificadas em esquemas de lavagem de dinheiro atribuídos à facção criminosa.
A Reag nega qualquer irregularidade e afirma que a associação com atividades ilícitas “não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”. As investigações seguem em curso.


