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Empresas ligadas à família de Toffoli tiveram como sócio fundo ligado ao caso Master

Fundo Arleen teve participação em empresas de parentes do ministro e manteve ligação indireta com estrutura investigada no caso Banco Master

Dias Toffoli (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

247 - Duas empresas que tiveram participação de parentes do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli contaram, até 2025, com a presença de um fundo de investimentos que integra a cadeia financeira relacionada às suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master. A conexão aparece em registros oficiais e documentos societários que detalham a atuação do Arleen Fundo de Investimentos em negócios ligados à família do magistrado e, ao mesmo tempo, sua relação indireta com fundos investigados por autoridades. As informações são da Folha de São Paulo.

Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da Receita Federal e balanços financeiros, o fundo Arleen manteve participações tanto na Tayayá Administração e Participações, responsável por um resort em Ribeirão Claro, no Paraná, quanto na DGEP Empreendimentos, incorporadora imobiliária da mesma cidade que teve como sócio um primo de Toffoli.

O elo com o chamado caso Master se dá por meio de uma cadeia de fundos de investimento. O Arleen figurava como cotista do RWM Plus, que também recebeu aportes de fundos associados ao Maia 95 — um dos seis apontados pelo Banco Central como integrantes da suposta estrutura usada para fraudes atribuídas ao banco controlado por Daniel Vorcaro. Embora o Arleen não seja alvo direto das investigações, todos esses fundos tinham a mesma administradora: a Reag.

A Reag, além de gerir o Arleen, administrava fundos ligados a Vorcaro e é investigada na operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). Procuradas, a administradora e o Banco Master não se manifestaram. A assessoria do STF foi questionada sobre se o ministro tinha conhecimento das conexões e se elas poderiam gerar impedimentos para a condução do inquérito, mas não houve resposta até a publicação da reportagem. Parentes de Toffoli também não comentaram.

Com apenas um cotista, o Arleen foi encerrado no fim de 2025, apesar de ter sido criado em 2021 com prazo inicial de duração de 20 anos. No balanço de maio daquele ano, último disponível, o fundo mantinha quatro investimentos: participação na Tayayá, na DGEP, no fundo RWM Plus e em uma holding que não aparece em bases públicas oficiais.

Investigadores apontam que uma rede de fundos administrados pela Reag teria sido usada para desviar recursos emprestados pelo Banco Master. Segundo as apurações, os valores circulavam por meio de aplicações financeiras que envolviam a compra de ativos de baixa qualidade, inflando artificialmente patrimônios e mascarando prejuízos.

Dias Toffoli é o relator do inquérito que apura as fraudes atribuídas ao Banco Master. Ele assumiu o caso no início de dezembro, após advogados de Daniel Vorcaro recorrerem ao STF sob o argumento de que a investigação deveria ficar concentrada na Corte, devido à citação de um negócio imobiliário envolvendo o banqueiro e o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA). Desde então, o ministro determinou que o inquérito tramitasse sob sigilo e tomou decisões que geraram questionamentos no meio político e no mercado financeiro.

Entre essas decisões, Toffoli convocou uma acareação entre investigados e um diretor do Banco Central responsável pela fiscalização do sistema bancário. Parte das perguntas elaboradas por seu gabinete, segundo a apuração, sugeria possível precipitação do BC na liquidação do Banco Master, linha defendida pela defesa de Vorcaro.

O resort Tayayá, inaugurado em 2008 às margens do rio Itararé — divisa natural entre Paraná e São Paulo —, teve participação acionária de diversos integrantes da família Toffoli ao longo dos anos. Em 2017, o ministro foi homenageado pela Câmara de Vereadores de Ribeirão Claro por ter “colaborado para o desenvolvimento e incremento turístico do Município de Ribeirão Claro, notadamente por meio do apoio decisivo na implantação da empresa Tayayá Aquaparque Hotel e Resort”.

Registros da Junta Comercial do Paraná mostram que, em 2020, a empresa administradora do resort era controlada por Mario Umberto Degani, primo do ministro, e pelo advogado Euclides Gava Junior. Em dezembro daquele ano, a Maridt Participações, aberta meses antes pelos irmãos de Toffoli, José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, ingressou na sociedade. Cada um dos três grupos passou a deter um terço da empresa, movimento que foi noticiado à época pelo site O Antagonista.

A composição societária mudou novamente nos anos seguintes. Dados da Receita Federal de abril de 2025 indicam que os sócios remanescentes eram Mario Umberto Degani e a PHB Holding, do empresário goiano Paulo Humberto Barbosa. Posteriormente, Degani deixou a sociedade, e hoje a administradora da Tayayá é controlada por Barbosa e por empresas ligadas a ele. Barbosa não respondeu aos questionamentos da reportagem, e Euclides Gava Junior, que se apresenta como diretor do resort em seu perfil no LinkedIn, optou por não comentar.

As participações do fundo Arleen nessas empresas estão documentadas em registros da CVM. Em novembro de 2021, um investimento de R$ 20 milhões no Tayayá representava 99% da carteira do fundo. Em maio de 2025, esse valor havia sido reduzido para R$ 4,4 milhões. Já na DGEP Empreendimentos, o Arleen detinha uma participação de R$ 16,1 milhões em maio de 2022, montante que subiu para R$ 16,4 milhões três anos depois.

A DGEP, especializada em incorporação imobiliária, tem sede registrada no mesmo endereço do resort Tayayá e utilizou, na abertura da empresa, um e-mail corporativo associado ao empreendimento. As conexões entre os fundos e as empresas aparecem em documentos oficiais compilados por plataformas de dados empresariais e por investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Banco Central.

As apurações também mostram que, em novembro de 2025, poucos dias antes da prisão de Daniel Vorcaro ao tentar deixar o país, uma assembleia do Arleen decidiu pela liquidação do fundo. Uma auditoria registrada na CVM no mesmo período revelou que a empresa responsável pela análise das contas, a Next Auditores, se absteve de emitir parecer, alegando ausência de documentação societária, confirmações de saldo e demonstrações contábeis suficientes para a verificação dos dados financeiros.

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