Gigante global das criptomoedas cobra R$ 1,6 bilhão de holding de Daniel Vorcaro na Justiça
Tether afirma que emprestou US$ 300 milhões à Titan Holding, ligada ao dono do Banco Master, e pede bloqueio de ativos após calote
247 – Uma das maiores empresas globais do setor de criptomoedas, a Tether, entrou na Justiça contra a Titan Holding, de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para cobrar uma dívida que já chega a cerca de R$ 1,6 bilhão, com juros.
A informação foi revelada pelo jornal Estado de S. Paulo, que teve acesso ao contrato de financiamento firmado em março do ano passado. O empréstimo original foi de US$ 300 milhões, o equivalente a R$ 1,5 bilhão.
A Tether é conhecida por emitir o USDT, o chamado “dólar digital”, uma das criptomoedas mais negociadas do mundo. Segundo a empresa, o financiamento foi concedido pela Tether Investments, seu braço de investimentos, e não teve relação com as reservas do dólar digital.
“A Tether Investments concedeu o empréstimo de boa-fé e, assim como diversos outros credores, ainda não recebeu o respectivo pagamento”, afirmou a companhia, em nota ao Estadão.
A defesa de Daniel Vorcaro não se pronunciou.
Contrato previa vencimento antecipado da dívida
Segundo a Tether, os recursos foram liberados em duas parcelas. A primeira ocorreu em 28 de março do ano passado, no mesmo dia em que o Banco de Brasília (BRB) anunciou a intenção de comprar o Banco Master. A operação acabou barrada pelo Banco Central.
A segunda parcela teria sido paga cerca de quatro dias depois. Pelo contrato, a Titan Holding deveria quitar a dívida, com juros, em até 12 meses após o uso do capital, ou seja, em 28 de março deste ano.
O acordo também previa que, em caso de rebaixamento da nota de crédito do Banco Master, a Tether poderia cobrar o valor de forma antecipada e integral.
De acordo com a empresa, essa condição foi acionada em setembro, quando a Fitch Ratings rebaixou a classificação de risco do Master. A liquidação do banco, decretada em 18 de novembro pelo Banco Central, também teria ativado outra cláusula de vencimento antecipado.
Garantias envolvem consignados do Master
O Banco Master ofereceu como garantia operações de crédito consignado originadas pela instituição. Entre elas estava a carteira ligada ao Credcesta, linha de empréstimos a aposentados e servidores públicos que cresceu na Bahia sob denúncias e reclamações de fraude.
Esses contratos também integravam a carteira de consignados vendida ao BRB, operação que se tornou um dos principais focos das investigações contra o Master e Daniel Vorcaro.
Na ação, a Tether pede que valores dessas carteiras sejam bloqueados e direcionados ao pagamento da dívida. Caso sejam insuficientes, a empresa requer a penhora de outros ativos.
“Seja determinado o bloqueio (...) de ativos financeiros depositados em contas bancárias, aplicações financeiras, investimentos e quaisquer outros ativos financeiros de titularidade das Executadas Titan, Master Holding e Master Participações”, diz a Tether no processo.
Vorcaro é investigado por gestão fraudulenta
Daniel Vorcaro é investigado pela Polícia Federal por gestão fraudulenta no Banco Master. Ele foi preso em 17 de novembro do ano passado, um dia antes da liquidação do banco pelo Banco Central, sob suspeita de venda de R$ 12,2 bilhões em títulos de crédito considerados podres ao BRB.
Em 4 de março deste ano, Vorcaro voltou a ser preso, desta vez sob acusação de planejar atos violentos contra opositores. Desde então, permanece encarcerado na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
O processo movido pela Tether não cita diretamente Vorcaro. A ação aponta Luiz Antônio Bull e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, diretores da Titan e antigos parceiros do dono do Banco Master, como representantes da holding.
A Master Holding Financeira e a Master Participações também aparecem como devedoras solidárias. A defesa de Antônio Bull não respondeu aos questionamentos do Estadão, e a defesa de Ribeiro da Silva não foi localizada.


