Governo firma acordo com China para desenvolver inteligência artificial nacional
Parceria idealizada pelo Serpro e MCTI estabelece cooperação para desenvolvimento de modelos de linguagem sob controle público
247 - O governo brasileiro formalizou um acordo de cooperação com a China para desenvolver inteligência artificial nacional, com foco em ampliar a soberania digital e fortalecer a infraestrutura tecnológica voltada ao funcionamento do Estado. A iniciativa envolve o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Serpro e a empresa chinesa iFlytek.
A parceria foi oficializada na última sexta-feira (10) e integra a estratégia de cooperação tecnológica entre Brasil e China, com o objetivo de posicionar a inteligência artificial como uma infraestrutura crítica para o setor público.
O ministro interino do MCTI, Luis Fernandes, destacou o caráter estratégico da iniciativa diante das transformações globais impulsionadas pela tecnologia. “Este protocolo se insere na cooperação estratégica entre Brasil e China em ciência e tecnologia. Estamos diante de uma revolução baseada em inteligência artificial, e os países que não desenvolverem capacidade própria ficarão dependentes de tecnologias externas, em um contexto em que o acesso pode ser limitado”, afirmou.
De acordo com o ministro, o acordo também prevê transferência de conhecimento e desenvolvimento conjunto de tecnologias. “O Serpro tem um papel central nesse processo, por ser o operador da infraestrutura nacional de dados públicos e reunir sistemas que sustentam serviços essenciais do Estado, onde essa inteligência será aplicada para melhorar a prestação de serviços à população”, acrescentou.
IA como eixo estruturante do Estado
O protocolo estabelece diretrizes para pesquisa, desenvolvimento e capacitação em inteligência artificial, com foco na criação de modelos de linguagem adaptados ao português brasileiro, sistemas de tradução, soluções de acessibilidade e aplicações em cibersegurança.
A articulação da iniciativa contou com a atuação da Casa Civil. Segundo o secretário-adjunto de Desenvolvimento Produtivo e Inovação, Rodrigo Rodrigues da Fonseca, o projeto tem caráter estratégico para o país. “Essa parceria resulta de um esforço coordenado de construção de sinergias entre os processos de desenvolvimento do Brasil e da China. Aqui estamos estruturando um projeto para o futuro do Brasil, voltado à capacitação de pesquisadores e empresas no desenvolvimento de modelos de linguagem e sistemas de inteligência artificial”, disse.
Papel do Serpro na execução
A implementação técnica ficará sob responsabilidade do Serpro, empresa pública que opera sistemas estruturantes e a infraestrutura de dados do governo. O presidente da instituição, Wilton Mota, destacou a função estratégica da estatal no processo. “O Serpro atua como quem executa a tecnologia no Estado brasileiro, fazendo a ligação entre a pesquisa, a política pública e a entrega para o cidadão”, afirmou.
Segundo ele, a empresa já conta com mais de 300 soluções baseadas em inteligência artificial. “Esse acordo cria condições para avançar de forma acelerada no desenvolvimento dessas soluções, ampliar o uso da inteligência artificial nos serviços oferecidos à população e garantir que a empresa atenda à necessidade do Estado no que se refere à soberania digital no campo da IA”, completou.
Infraestrutura e formação de especialistas
O acordo também prevê a criação de uma infraestrutura nacional de inteligência artificial, incluindo data centers, nuvem segura e plataformas interoperáveis de dados. Além disso, estão previstos programas de capacitação, como intercâmbio de pesquisadores, cursos, visitas técnicas e concessão de bolsas de estudo.
Para o responsável pelo Centro de Excelência em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do Serpro, Carlos Rodrigo Lima, o domínio completo da tecnologia é essencial. “Não se trata apenas de utilizar modelos prontos, mas de dominar todo o ciclo de desenvolvimento, da curadoria de dados ao treinamento, avaliação e operação em ambiente de produção. É isso que garante que a inteligência artificial esteja, de fato, a serviço do Estado”, explicou.
Cooperação internacional e autonomia tecnológica
No cenário internacional, a parceria com a iFlytek reforça a cooperação já existente entre Brasil e China na área de ciência e tecnologia. O vice-presidente da empresa, Ji Lin, destacou a importância do acordo. “A inteligência artificial está no centro da transformação tecnológica global, e é importante que os países desenvolvam capacidades ao longo de toda a cadeia. A parceria com o Brasil é uma cooperação importante para avançarmos em pesquisa e acelerar o desenvolvimento de soluções”, afirmou.
O Ministério das Relações Exteriores acompanha a iniciativa. O embaixador Eugênio Vargas Garcia ressaltou a importância do desenvolvimento nacional na área. “A inteligência artificial está no centro da revolução tecnológica, e o Brasil precisa desenvolver capacidades não apenas em IA generativa, mas em toda a cadeia associada a essa tecnologia. No caso dos modelos de linguagem, esse protocolo é importante para fortalecer a cooperação e ampliar a autonomia estratégica do país”, declarou.


