HOME > Brasil

Governo Lula muda percepção e espera neutralidade de Trump nas eleições

Diplomatas avaliam que relação mais estável entre Lula e o presidente dos Estados Unidos reduz risco de interferência externa

Lula e Trump se reúnem na Malásia 26/10/2025 REUTERS/Evelyn Hockstein (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

247 - A avaliação de integrantes do governo brasileiro é de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tende a adotar uma postura mais discreta em relação às eleições presidenciais de 2026 no Brasil. Diplomatas que acompanham as tratativas bilaterais consideram que o atual momento de estabilidade entre Brasília e Washington diminui o risco de uma atuação direta do Executivo americano no processo eleitoral brasileiro. As informações são do G1.

Apesar do cenário visto como favorável, o entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém cautela diante do histórico de imprevisibilidade de Trump. Segundo uma fonte do governo, “acho que a tendência até a eleição é de uma postura mais recatada do lado do Executivo americano”.

Relação pessoal entre Lula e Trump é vista como fator de contenção

De acordo com diplomatas, a redução do risco de interferência estaria ligada à relação construída nos últimos meses entre Lula e Trump. Fontes citadas na reportagem relatam que o presidente dos Estados Unidos tem mantido um comportamento cortês e, em alguns momentos, até carinhoso no trato com o líder brasileiro.

Para integrantes do Itamaraty e assessores próximos ao Planalto, essa relação pessoal passou a funcionar como uma espécie de blindagem diante de pressões internas e externas para que a Casa Branca favoreça um candidato alinhado à direita brasileira.

Tarifaço e suspeitas de tentativa de pressão política

O clima de desconfiança em torno das intenções do governo americano ganhou força em julho do ano passado, quando Trump anunciou um tarifaço contra o Brasil. Na época, ministros e diplomatas brasileiros interpretaram a medida como uma tentativa de forçar uma mudança de rumo político no país, seja para reabilitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, seja para enfraquecer Lula em um contexto pré-eleitoral.

Mesmo após Washington relaxar as tarifas e recuar na aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, ainda havia receio no entorno do presidente brasileiro de que a gestão Trump pudesse voltar a agir mais adiante para favorecer um candidato mais alinhado aos interesses da Casa Branca.

Nesse período, Lula e Trump já haviam conversado por telefone e se encontrado pessoalmente na Malásia, durante agenda internacional.

Doutrina americana reforça lógica de “zonas de influência”

A preocupação brasileira também aumentou após a divulgação, em dezembro, de uma nova doutrina de segurança nacional pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. O documento prevê um cenário internacional organizado por zonas de influência, no qual a América Latina ficaria subordinada aos interesses estratégicos de Washington.

Na avaliação de diplomatas citados na reportagem, essa orientação reforça a percepção de que os Estados Unidos poderiam se atribuir o direito de interferir em processos internos de países considerados parte de sua área de influência.

Um diplomata próximo ao governo brasileiro afirmou, naquele contexto, que não haveria espaço para ilusões diante do comportamento americano: “Os americanos querem uma zona de influência totalmente subordinada. Não podemos achar que todas as nossas preocupações se dissiparam.”

Planalto quer cooperação em segurança 

Até a eleição, a estratégia do governo brasileiro deve ser manter a proximidade com a Casa Branca como forma de neutralizar possíveis movimentos da oposição bolsonarista. Nesse esforço, o Planalto tem defendido que projetos de cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado avancem de forma concreta.

A aposta do governo é que a segurança pública será um dos principais temas do debate eleitoral em 2026 e que a oposição tentará desgastar Lula com esse assunto. Por isso, tratar do tema diretamente com Trump é visto como uma forma de reduzir espaço para iniciativas políticas adversárias, especialmente as articuladas pelo grupo ligado ao senador Flávio Bolsonaro, apontado como provável candidato do campo da direita.

Artigos Relacionados