"Inevitável", diz ex-diretor de Segurança Nacional sobre interferência dos EUA nas eleições do Brasil
Ex-assessor da Casa Branca afirma que atuação de Trump pode incluir tarifas, sanções e pressão sobre o processo eleitoral brasileiro
247 - Ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos para assuntos do Brasil e do Cone Sul, Nick Zimmerman avalia que a relação entre Washington e Brasília vive um momento de alívio após a reunião entre os presidentes Lula (PT) e Donald Trump na Casa Branca, em 7 de maio, mas alerta que a imprevisibilidade do presidente norte-americano ainda pode produzir novos atritos. Segundo ele, algum tipo de atuação dos EUA nas eleições brasileiras “parece inevitável”, embora seus efeitos dependam da forma como essa interferência ocorrerá, relara o jornal O Globo.
Zimmerman, hoje sócio-fundador da consultoria Dinámica Americas, afirmou que a visita de Lula à Casa Branca surpreendeu parte dos observadores e indicou uma mudança temporária no ambiente bilateral. Depois de um período marcado por tarifas, ameaças e sanções, Brasil e Estados Unidos sinalizaram disposição para cooperar em temas como comércio e combate ao crime organizado.
O ex-assessor da Casa Branca, porém, fez uma ressalva: a melhora recente não elimina os pontos de tensão. Entre eles estão a disputa por influência com a China na América Latina, a participação brasileira nos BRICS, eventuais sanções contra o Pix, a possibilidade de novas tarifas e o debate nos EUA sobre classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
“O fato de a visita ter acontecido, e a pedido da Casa Branca, ressalta o quanto Trump valoriza os relacionamentos pessoais em detrimento da ideologia. Ele gosta de Lula e desenvolveu uma conexão com ele, apesar do antagonismo de alguns de seus assessores políticos”, afirmou Zimmerman.
Segundo ele, o encontro reduziu, ao menos no curto prazo, a probabilidade de Trump questionar o processo eleitoral brasileiro, apoiar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), impor novas tarifas ou atacar o Pix. Ainda assim, o ex-diretor fez um alerta sobre a instabilidade característica do presidente norte-americano. “Mas deixo uma nota de cautela. Os amigos de Trump podem rapidamente se tornar inimigos”, disse.
Para Zimmerman, a reunião representou uma vitória para Lula e para as relações entre Brasil e Estados Unidos. Ele destacou que setores mais alinhados à família Bolsonaro dentro do governo Trump perderam espaço no episódio, especialmente porque o Departamento de Estado não participou do encontro.
“O Departamento de Estado nem sequer esteve presente na reunião, o que é revelador. No rescaldo imediato da visita, a perda de influência das vozes anti-Lula no governo Trump é a notícia mais importante do lado americano”, afirmou.
Apesar da reaproximação, Zimmerman avalia que a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA e a chamada “Doutrina Donroe” ampliam a importância da América Latina e do Caribe para Washington. Para ele, isso deve afetar todos os países da região de alguma maneira, ainda que o Brasil não esteja diretamente no mesmo eixo de pressão aplicado a Venezuela e Cuba.
O ex-assessor disse que a ênfase do governo Trump em apoiar lideranças ideologicamente próximas ajuda a explicar tentativas anteriores de interferência na política brasileira em favor da família Bolsonaro.
Ao tratar da presença do Brasil nos BRICS, Zimmerman afirmou que, quando Trump foi reeleito, esperava uma colisão frontal entre os dois países. Ele disse não ter se surpreendido com o aumento de tarifas contra o Brasil nem com sanções contra Alexandre de Moraes, embora tenha classificado essas ações como “injustificáveis, hipócritas e contraproducentes”.
Na avaliação dele, os setores privados dos dois países ajudaram a reduzir a tensão e abriram espaço para a aproximação política entre Lula e Trump. Ainda assim, novas medidas não estão descartadas. “Não podemos descartar a possibilidade de Trump recorrer novamente a tarifas, já que isso está no seu DNA”, afirmou Zimmerman.
Ele ponderou, no entanto, que Trump já não dispõe da mesma margem de manobra para adotar tarifas amplas, em razão de derrotas judiciais e do desgaste provocado pela inflação nos EUA. Por isso, considera improvável uma ofensiva contra exportações brasileiras de grande impacto, como café e carne, em ano eleitoral.
Como alternativa, Zimmerman vê maior possibilidade de ações direcionadas, como sanções contra o Pix ou medidas relacionadas à regulação brasileira do setor de tecnologia, caso autoridades norte-americanas a classifiquem como contrária à liberdade de expressão.
“O Brasil não é uma prioridade para Trump e duvido que ele tenha capacidade ou disposição para tomar medidas abrangentes no curto prazo”, afirmou.
O ex-diretor também avaliou que Trump chega a este momento politicamente enfraquecido. Para ele, a guerra no Irã e a inflação alteraram o ambiente doméstico nos Estados Unidos e reduziram o fôlego do presidente. “Trump nunca foi muito popular nos EUA, mas a lua de mel do segundo mandato acabou. Se as eleições de meio de mandato fossem amanhã, ele provavelmente sofreria perdas históricas”, disse.
Zimmerman alertou, contudo, que um Trump mais vulnerável pode se tornar mais imprevisível e radical. Por isso, um eventual enfraquecimento político do presidente norte-americano não significa necessariamente um cenário mais favorável ao Brasil.
Sobre a possibilidade de um ciclo “pós-Trump” nos Estados Unidos, o ex-assessor afirmou que ainda é cedo para fazer esse diagnóstico. Segundo ele, Trump remodelou o Partido Republicano e aproximou o país de um modelo autoritário competitivo. “Infelizmente, seu impacto perdurará além de sua presidência”, declarou.
O ponto mais sensível da entrevista foi a possibilidade de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Zimmerman disse que as relações entre os dois países se tornaram mais polarizadas e politizadas do que no período em que ele atuou no governo norte-americano. “Por isso, algum tipo de intervenção nas eleições brasileiras parece inevitável. Mas nem todas as intervenções são iguais”, afirmou.
Ele citou como exemplo a posição do governo Joe Biden em 2022, quando Washington defendeu a legitimidade do processo eleitoral brasileiro diante das alegações infundadas de fraude feitas por Jair Bolsonaro (PL). Para Zimmerman, aquela atuação foi uma defesa das instituições e da soberania brasileira, embora tenha sido classificada por alguns como intervenção.
O ex-diretor afirmou que a questão central é saber qual será a forma da atuação norte-americana neste ano. Segundo ele, um eventual apoio de Trump a Flávio Bolsonaro teria alcance limitado, assim como apoios políticos anteriores de lideranças brasileiras e norte-americanas em eleições de outros países. “Não sou especialista em política eleitoral brasileira, mas suspeito que tais apoios não tenham grande importância para os eleitores”, disse.
A situação seria diferente, de acordo com Zimmerman, se a Casa Branca adotasse medidas mais agressivas, como novas tarifas, a designação do PCC e do CV como organizações terroristas ou questionamentos sobre a integridade do processo eleitoral brasileiro. Essas iniciativas poderiam impactar o ambiente político interno, ainda que de forma possivelmente contrária ao interesse de Trump.
Ele também comentou o chamado “efeito Trump”, citado por apoiadores de Lula como um possível fator de desgaste para candidatos alinhados ao presidente dos EUA. Zimmerman disse acreditar que esse efeito existe, mas pode atuar em direções diferentes.
“O apoio de Trump prejudicou candidatos no Canadá e na Hungria, mas beneficiou outros na Argentina e Honduras. No Brasil, o ‘efeito Trump’ vai depender do que a intervenção dos EUA vier a envolver”, afirmou.
Na avaliação dele, se Trump se limitar a declarar apoio a Flávio Bolsonaro ou aplicar medidas pontuais sem impacto direto sobre a população, o efeito eleitoral pode ser limitado. Por outro lado, tarifas amplas que afetem o bolso dos brasileiros poderiam produzir consequências mais relevantes.
A possível classificação do PCC e do CV como organizações terroristas foi apontada por Zimmerman como um risco concreto. Ele disse considerar a medida “muito possível, para não dizer provável”.
“Seria uma decisão equivocada e poderia criar uma série de novos pesadelos de conformidade para empresas que operam no Brasil, além de abrir espaço para novas formas de sanções e pressão do governo Trump”, afirmou.
Segundo ele, esse tipo de medida também poderia criar um desafio político para Lula durante o ciclo eleitoral.
Outro foco de tensão mencionado na entrevista foi a compra da mineradora Serra Verde pela USA Rare Earth, operação que pode ser barrada pelo governo brasileiro. Zimmerman afirmou que a Casa Branca pode reagir de forma dura caso o negócio seja bloqueado, já que minerais críticos são parte central da estratégia de Washington para reduzir riscos em relação à China. “Se o governo brasileiro bloquear o acordo, acredito que a Casa Branca poderá responder de forma muito agressiva”, disse.
Para o ex-assessor, a China é a principal concorrente do Brasil no setor de minerais críticos, e o país deveria buscar parceiros capazes de oferecer investimentos de maior valor agregado, incluindo os Estados Unidos.
Zimmerman também comentou a aproximação recente entre Brasil e Europa, em meio à ratificação do acordo Mercosul-União Europeia e aos contatos amistosos com líderes como Emmanuel Macron, Pedro Sánchez e Friedrich Merz. Para ele, em Washington, setores que valorizam a democracia e as alianças globais veem esse movimento como mais um sinal de que os EUA estão ficando para trás. “Não sei o que Trump pensa sobre o acordo, mas suspeito que ele mal esteja ciente dele”, afirmou.
Ao tratar da antiga ideia de uma “relação especial” entre Brasil e Estados Unidos, Zimmerman disse que essa perspectiva perdeu força há anos. Segundo ele, o último presidente norte-americano que considerou o Brasil como possível interlocutor regional foi George W. Bush.
O ex-diretor lembrou que, durante o governo Barack Obama, entre 2014 e 2016, havia interesse em coordenar posições com o Brasil sobre temas regionais, mas a prioridade era elevar o nível da relação bilateral entre duas das maiores democracias do mundo.
Como exemplo, citou a declaração conjunta sobre mudanças climáticas assinada por Obama e Dilma Rousseff em 2015, que, segundo ele, teve papel relevante na construção do Acordo de Paris sobre o clima.



