Jaques Wagner critica "narrativa" para vinculá-lo ao Master e diz que PF agiu como na Lava Jato
Jaques Wagner nega relação comercial com o Banco Master, critica ação da PF e afirma que investigação tenta associá-lo a irregularidades
Wagner nega ligação com Banco Master e critica ação da PF
Jaques Wagner nega ligação com Banco Master, admite relação com ex-sócio da instituição e acusa PF de espetacularizar investigação
247 - O senador Jaques Wagner (PT-BA) negou ter qualquer relação comercial com o Banco Master, admitiu manter vínculo com o empresário Augusto Lima, ex-sócio da instituição, e criticou duramente a atuação da Polícia Federal na operação que o teve como alvo, afirmando que houve “espetacularização” da investigação, segundo entrevista concedida à Folha de São Paulo.
Um dia após deixar a liderança do governo no Senado, Wagner afirmou que reclamou diretamente ao presidente Lula (PT) sobre a divulgação de imagens de dinheiro em espécie apreendido no apartamento onde vive em Brasília. Para o senador, a exposição contrariou a orientação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia determinado que a busca e apreensão ocorresse “de forma discreta”, em razão do sigilo da investigação.
“Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF? Esse processo era comum na Lava Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, acho que o chefe da Polícia Federal tem que tomar conta”, afirmou Wagner.
O senador disse ter relatado a Lula que a operação, em sua avaliação, busca construir uma narrativa para associá-lo a irregularidades envolvendo o Banco Master. Ele negou ter pedido proteção ao presidente e afirmou que sua cobrança foi por correção na condução do caso. “Estão tentando fazer uma narrativa para botar no meu colo algo que não existe. Não quero proteção, quero correção”, declarou.
Wagner deixou a liderança do governo no Senado após conversar pessoalmente com Lula. Segundo ele, o presidente ponderou que, embora o conheça há 48 anos, seria necessário enfrentar a narrativa criada pela investigação e avaliou se o senador teria condições de conciliar a defesa pessoal com a função de líder governista.
“Ele disse que me conhecia há 48 anos, mas que construíram uma história que eu teria que desmontar e questionou se eu teria cabeça para fazer as duas coisas [a defesa e a liderança]. Então, decidi me afastar”, afirmou.
O petista negou que sua relação com Augusto Lima represente favorecimento ou envolvimento com o Banco Master. Segundo Wagner, ele conheceu o empresário no processo de privatização da Cesta do Povo, na Bahia, quando era governador. O senador afirmou que não há relação comercial entre eles e rejeitou a suspeita de que tenha atuado em benefício da instituição financeira.
“O presidente várias vezes me perguntou, e eu continuo afirmando para ele: não tem nenhuma relação comercial entre mim e Augusto Lima, muito menos com o Master”, disse.
Wagner também respondeu às suspeitas sobre a empresa de sua nora, que teria recebido valores do Banco Master. Ele afirmou que os pagamentos foram feitos com base em contratos formais e que os montantes são superiores aos R$ 3,5 milhões inicialmente divulgados. O senador disse ter se surpreendido com o valor, mas sustentou que tudo foi registrado legalmente. “Tomei um susto porque não é pouca coisa, é muita coisa. Mas repare: é muita coisa legalmente, tem contrato”, afirmou.
A Polícia Federal apura se a empresa teria sido usada para beneficiar Wagner. O senador negou a hipótese e disse não ter qualquer participação no negócio. “A Polícia Federal está construindo uma tese de que essa empresa da minha nora na verdade foi construída para me servir. Não tenho nada a ver com a empresa”, declarou.
Wagner também comentou a suspeita envolvendo uma possível negociação de apartamento. Segundo ele, pretendia ajudar a filha na compra de um imóvel em construção, mas negou ter recebido qualquer vantagem. “Mas objetivamente, está no meu nome? Foi doada para mim alguma coisa? Nada. O caminho dos corruptos não é esse de fazer um sexo explícito”, afirmou.
O senador reconheceu que manteve contatos com empresários durante sua trajetória política, mas disse considerar natural que governadores e prefeitos se relacionem com o setor privado, especialmente em processos de investimento e obras públicas. Para ele, a investigação tenta criminalizar relações institucionais e pessoais sem demonstrar contrapartida. “Desconheço um prefeito ou um governador que não converse com empresários. Óbvio que conversei com Augusto Lima”, disse.
Questionado sobre viagens e caronas em aviões de empresários, Wagner admitiu já ter pegado carona, mas negou que Augusto Lima tenha colocado aeronave à sua disposição. “Está se tentando criar uma retórica hipócrita. Tenho relação com uma porção de gente. Aí o cara diz para mim: ‘terça-feira eu estou indo para Brasília, quer ir de carona?’ Eu vou, qual o problema? Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca”, afirmou.
O senador também rebateu a suspeita de favorecimento relacionada a ingressos para um show de Taylor Swift nos Estados Unidos. Segundo ele, os ingressos foram obtidos para sua neta, que mora há oito anos no país com os pais. “Dois ingressos para um show nos Estados Unidos, favorecimento pessoal? É meio ridículo isso”, disse. “Estão achando que ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?”.
Wagner afirmou ainda que conheceu Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, apenas em duas ocasiões. Uma delas teria ocorrido quando Vorcaro foi apresentado como sócio de Augusto Lima. A outra, segundo o senador, foi quando ele acompanhou o então ministro Ricardo Lewandowski a um encontro com Vorcaro em São Paulo. “Conheci o Vorcaro duas vezes. Quando ele veio se apresentar, que virou sócio, e quando eu fui levar o ministro [Ricardo] Lewandowski”, afirmou.
Sobre o dinheiro em moeda estrangeira apreendido pela PF, Wagner disse que parte dos valores tinha origem em diárias recebidas em viagens oficiais, inclusive pelo Senado, e em compras de dólares feitas ao longo de anos. Ele negou ter recebido moeda estrangeira de terceiros. “Sempre peço em dólar, que é uma forma também de eu economizar e guardar. A soma de diárias é levemente inferior ao valor apreendido. Eu mandei ver se tinha compra. Isso é ao longo de oito, dez anos”, declarou.
Wagner também comparou a exposição da investigação a práticas que, segundo ele, marcaram a Operação Lava Jato. O senador afirmou que questiona judicialmente a conduta da PF por considerar que a imagem do dinheiro apreendido produziu uma condenação pública antecipada. “Eu não estou pedindo que não me investiguem, só estou dizendo para não fazer a patacoada que fazem. Aquela foto foi para tudo que é capa de jornal. Eu acho que isso é condenação a priori”, disse.
O senador rejeitou ainda a versão de que o caso teria origem na Bahia. Segundo ele, a privatização da Cesta do Povo ocorreu antes da entrada de Daniel Vorcaro e do Banco Master na operação. Wagner afirmou que a viabilização do banco ocorreu no governo Jair Bolsonaro, sob o Banco Central comandado por Roberto Campos Neto. “Nada começou na Bahia. Quem viabilizou o Banco Master foi Roberto Campos Neto e seu Banco Central. Se foi errado, se foi certo, só estou dizendo o seguinte: só foi concretizado o Banco Master no governo Bolsonaro”, afirmou.
Ao comentar possíveis impactos políticos do caso, Wagner disse que o alvo da investigação é ele, e não Lula. O senador afirmou que pretende reagir publicamente às acusações e voltar às ruas para defender sua versão dos fatos. “Quem está sendo atacado? Eu, não o Lula. Amanhã eu vou para a rua. Estou dando entrevista pra você, mas a minha melhor entrevista é quando eu for para a rua”, declarou.
Wagner, de 75 anos, foi governador da Bahia, ministro nos governos Lula e Dilma Rousseff e ocupava a liderança do governo no Senado até se afastar após a operação da PF. Ele nega ter atuado a favor do Banco Master e afirma que a investigação não encontrará provas de favorecimento ou troca de benefícios.



