Lula critica pressão do mercado por arrocho fiscal no Brasil
Presidente defende dívida para investimento e diz que cobrança diária do sistema financeiro ignora experiências internacionais
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a pressão do sistema financeiro por arrocho fiscal e defendeu que o Estado pode se endividar quando o objetivo é financiar obras e criar ativos para o país. As declarações foram dadas ao programa Sem Censura, da TV Brasil, nesta sexta-feira (22).
Lula relacionou sua visão sobre contas públicas às lições de economia doméstica que recebeu de sua mãe, dona Lindu. Segundo o presidente, ela administrava o dinheiro da família com rigor, mesmo sendo analfabeta, e ensinava aos filhos que não se deve gastar além do que se tem.
“Vocês não podem gastar o que vocês não têm. Vocês só podem gastar o que vocês têm”, afirmou Lula, ao recordar o ensinamento da mãe.
O presidente disse que essa experiência explica sua irritação com a cobrança permanente do mercado financeiro sobre o resultado fiscal. “Por que é que eu fico nervoso quando vejo o sistema financeiro ficar falando de ‘debito fiscal, debito fiscal’? Se tem uma coisa que eu aprendi a cuidar, foi do meu nariz. Eu sei que o país não pode se endividar”, declarou.
Em seguida, Lula fez uma distinção entre endividamento sem retorno e dívida usada para viabilizar investimentos. “O país deve se endividar para construir um ativo novo. Se você quer fazer uma obra nova, você pode se endividar, porque o recebível daquela obra pode garantir que você possa pagar aquela dívida. Uma hidrelétrica que você vai fazer, uma rodovia ou uma ferrovia”, disse.
Na avaliação do presidente, o debate fiscal no Brasil é marcado por pressão excessiva do sistema financeiro. “Então, eu acho que existe no Brasil uma bobagem do sistema financeiro, sabe. O fiscal vai dar 0,1 [por cento] de déficit”, afirmou.
Lula também comparou a cobrança feita ao Brasil com o tratamento dado a economias desenvolvidas. “As pessoas não contam que os Estados Unidos têm uma dívida interna de quase 120% do PIB, que o Japão tem 200% do PIB de dívida, que a Itália tem 160%. As pessoas não falam. Mas o Brasil tem que dar lucro, porque o sistema financeiro quer receber a sua dívida interna. Então, eu fico muito irritado com isso”, acrescentou.



